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sábado, 14 de maio de 2011

Despertar

Ela já estava acordada
Ou quase

A respiração ainda na mesma cadência do sono
E as pálpebras fechadas
mantinham a manhã do lado de fora

A consciência sonolenta
Fazia
Prazeroso o momento

A textura gelada do travesseiro sob os pés
O peso macio do edredom enrodilhado no corpo
O ronronar suave do ar condicionado sussurrando
Um verso

E o dia se vestiu de domingo
Para acordar
A poeta

Maio de 2011

sexta-feira, 1 de abril de 2011



Apneia

E, mesmo quando eu estou
inteira em mim mesma,
conhece o caminho.

Sabedor das minhas marés,
mergulha em mar cristalino,
me descobre em calmaria,
me encontra em madrepérola,
me inspira
e submerge comigo.

Escondida em tua mão,
me faz presente
em nós dois.


(Flávia Côrtes - Abril de 2011)

Textos devidamente registrados na Biblioteca Nacional e protegidos quanto aos seus direitos autorais.
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terça-feira, 29 de março de 2011

Filha do Vento

De olhos fechados
na varanda
me faço folha
ao vento

e o frescor
me invade
me leva
me toma
por dentro
e por fora

ruídos do dia
voam comigo
folhagem crepita
na ventania
que emaranha
os cabelos
e desembaraça
as entranhas

De olhos fechados
ao vento
me faço vela
à varanda

E a brisa
me infla
me solta
me move
me leva
por dentro
e prá fora

Suspiros do dia
viajam comigo
risadas
silêncios
murmúrios
sussurros

De olhos fechados
ao vento
me faço
varanda

Filha do vento
Flutuo ventania

Março 2011

quinta-feira, 24 de março de 2011


Encaixe

Se quem pensou improvável
soubesse,
saberia inevitável.

Na figura do côncavo
e do convexo,
contrastes
se somam
e se integram.

E a tua luz
combina
as minhas sombras.

E o meu azul
espelha
o teu celeste.

E maciez suspira
na aspereza delicada
das mãos.
Provavelmente evitável.
Possivelmente improvável.
Completamente possível.

Irresistível.


(Flávia Côrtes - Março de 2011)
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quinta-feira, 17 de março de 2011


Peço-te

Descobri
Que não posso mais
Ter você em volta
Todo dia

Amo-te
E por isso peço-te
Vá

Peço-te
Com a certeza dos que amam
E se sabem amados
Vá

E ao te pedir
Já me dói tua ausência
Já anseio a tua
Chegada

Preciso que se vá
Para que possas chegar
De novo

Preciso que se vá
para que eu possa
te encontrar
De novo

Preciso que se vá
para que eu possa
me encontrar
De novo

Amo-te
E por isso peço-te
Vá

Volta prá mim

Março de 2011

quarta-feira, 16 de março de 2011


Ilusionismo

A poesia mostrando
uma lua semi
escondida atrás de uma nuvem,
fazendo de conta que é cheia...

uma nuvem fingindo de montanha

Março de 2011

segunda-feira, 7 de março de 2011

Jardim
Entre arbustos de muitos
verdes,
o caminho serpenteava
tardes

Março fazia
a copa baixa das Alamandas
pontilhar confetes amarelos
no chão.

O riso solto das crianças
dobrava cristalino
no ar.

E eu
espreguiçava
poentes.

Março de 2011

domingo, 27 de fevereiro de 2011


Transformação

A palavra muda
a pessoa

Mesmo que você não queira
a palavra entra em você

Te invade ouvidos

Te percorre

Neurônio
Peito
Pensamento

E aí
Quando você percebe
Já leva dentro de si
Um pouquinho do outro

Agora mesmo
Nesse verso
Nesse poema

Percebe que me leva
um pouco?

Pois é
Vou contigo agora

Fevereiro de 2011

Independente

Eu não quero só que você
me queira
Quero que você goste
de me querer

Preciso que você me queira na sua vida.
Inteira.
E não apenas
o meu verso.

Quero ser teu amor
Menos que isso não me basta

Não quero ser teu vício
Tua dependência

Se sou seu vício
Então me diz

Que droga eu sou?!

Dezembro de 2010


Autoanálise

Não escrevo em autofagia.
Apenas em fagia mesmo.

Pela minha palavra,
devoro o mundo.

E meio que não me reconheço
se não transbordo
Poesia.



(Flávia Côrtes - Fevereiro de 2011)
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Não fica triste

Não estou triste.
A palavra não é essa.

O que você sente
quando alguém que você gosta
age com você com total falta de zelo?

Decepção? Não.
Não sou tão crédula
a ponto de alguém conseguir me decepcionar.

Tristeza? Não.
Não sou tão boazinha assim...

Eu fico puta mesmo.

Dezembro de 2010

domingo, 20 de fevereiro de 2011


Linda e Lenta Manhã

O domingo trouxe
uma manhã clara
e quase fresca
de verão

Dessas manhãs tão lindas
e lentas
que simplesmente
não se vão

Sabe essas manhãs
que não correm
escorrem?

Dessas que se deixam
dentro do dia
inteiro?

Pois é.
Já vai prá mais de cinco
horas
e eu estou aqui
numa manhã linda e lenta
de domingo
conversando de tudos e de nadas
lagarteando varandas

Vai ser um por do sol lindo
o desta manhã!

Fevereiro de 2011

domingo, 13 de fevereiro de 2011


Deixo de Ser um Pouco

Manhã perfeita
de domingo
para desaprender
as coisas
com Manoel de Barros

E eu
que sempre
me soube

me deixo aqui
com Manoel
brincando de desnomear
as coisas
desbotando pensamento
até encontrar
o que era
antes do nome nomear

E me amanheço passarinhos

Fevereiro de 2011



Crescimento

E o bebê deu altura de porta.

Pontinha dos pés,
mãozinha esticada,
mas altura de porta!

Não tem mais maçaneta
que segure!


(Flávia Côrtes - Fevereiro de 2011)
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011


Letargia

Estirada em lençol branco,
tal náufraga
entregue à areia
pelas ondas,
repousa

Pernas e braços sonolentos
Pensamento embotado

E o coração?
Desarvorado

Fevereiro de 2011

sábado, 5 de fevereiro de 2011



Amazona

Na folha branca,
pastam idéias.

No lápis,
o laço.

Em horas brancas,
trotam versos
selvagens.

No olhar da poeta,
um tanto de Hipólita.

No olhar do poema,
um tanto de Pégaso

Não se sabe ainda
quem domando
quem.



(Flávia Côrtes - Fevereiro de 2011)

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Água Raz

Ah, meu amor,
mas isso foi há tanta horas.

As horas dissolvem o desejo.

Só não me olhe assim,
ou o desejo dissolve as horas!

Ah, meu amor, já são tantos os dias...

Quem foi que disse
que os dias dissolvem a vontade?

De certo
alguém que não sabia
dissolver as horas!


Flávia Côrtes - Fevereiro de 2011


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Poema a quatro mãos

Você entrou em mim como um poema
Cada toque
Cada beijo
Reverbando sob pele
Em ecos

Poeta de nós dois
Fez de mim
Poesia

Fevereiro de 2011

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011


O meu verso... o seu verso... o nosso verso

E quando eu escrevo sobre o sentimento
E não sobre o fato
O poema ganha
Universalidade
E vira de todo mundo

Porque o sentimento
é igual
para todo o mundo

Ele só se veste de forma diferente
Nas diferentes vidas das pessoas
Nas diferentes situações
Em que nos encontramos
Todos

Pessoas
Iguais
Humanos

Janeiro de 2011

Vocação

Tuas pernas entrelaçando as minhas no sono
Tua mão me segurando a cintura
O livro do Rubem Braga me prendendo o pensamento
E o relógio avisando que está na hora

Por que manhãs de segunda-feira
Se vestem de domingo,
meu Deus?

Janeiro de 2011