Pontilhismo
O mundo desfila o verde
lentamente
através da janela pontilhada
de chuva
e desacelera urgências.
Algumas vezes, só precisamos
pausar o olhar
para enxergar.
Flávia Cortês - Junho/26
Passeios pela Palavra
Viva ou Sobreviva
O mundo gira cada vez mais rápido.
Rápido demais, na verdade.
À beira do desequilíbrio.
Até que a gente aprende
a não perder o prumo.
Mesmo às custas do próprio rumo.
Olhos fixos em ponto único
previnem a vertigem
e evitam a queda.
Uma pirueta, duas piruetas…
E lá vamos nós em mais uma volta
dessa Roda Gigante.
Olhos fechados na descida
permitem alguns horizontes
na próxima subida.
O suficiente para você acreditar
que o chão não é o destino.
Aperte o cinto, passageiro.
Não olhe para baixo!
Muito menos para dentro.
Você pode não se reconhecer.
E isso ninguém quer.
Nem você.
Entretido que está
a ansiar horizontes.
Um dia, com alguma sorte,
a realidade arromba a porta.
Talvez a tempo de você se reconhecer
nos estilhaços da surpresa.
Pois é, Sobrevivente,
nem tudo que se vê
é aquilo que a gente enxerga.
Flávia Cortês
Dezembro de 2025
Pintura de uma tarde lenta
O zumbido azul-cobalto
de um beija-flor
rompeu o silêncio
da tarde morna de outono
e parou-me o pensamento
bem a tempo do olho viajar
na revoada amarelinha
de borboletas-bebês
que brincavam de pique
logo acima do arbusto
colorido de brincos de princesa.
Tivesse eu o dom da pintura,
imortalizaria em tela
a perfeição suave
que guardei encantada
sob as pálpebras.
Flávia Côrtes
(Outono de 2024)
Um domingo e um quintal.
Há vida borbulhando no verde. A manhã escorre entre beija-flores que sobrevoam o jardim. Galinhas desfilam sobre o gramado. Os cães intercalam latidos, sonecas e carinhos. Um grilo de dimensões jurássicas exclama um espanto. No fim da tarde, a sombra do limoeiro tece o muro qual renda estendida no varal.
Por hoje, meu mundo inteiro é este quintal.
Flávia Côrtes - fevereiro de 2024
Dos amores e da vida.
Existem muitos tipos de amor.
Nenhum deles é menos amor.
E cada um deles será,
com sorte e por escolha,
construído ao longo da Vida.
Uma paixão, havendo em dois
e por tempo suficiente,
poderá tornar-se amor profundo
e te tomar completamente
por toda a vida.
Há amizades que, ao longo dos anos, entrelaçam-se de forma tão irrestrita,
que transmutam amigos em irmãos.
Um filho constrói seu amor
pela mãe e por seu pai
cotidianamente.
Será a partir da primeira voz,
eco familiar no silêncio do útero?
Será no primeiro toque que acolhe
o grito ardente do primeiro sopro?
Ou será em encontro inexplicável, presente predestinado dessa vida?
Não importa como ou onde.
Um vínculo de encanto,
admiração e respeito,
poderá unir dia-a-dia
essa criança
a este pai e a esta mãe.
Havendo espelho,
impregnará a todos.
Família.
Todos amores.
Construídos ao acaso ou por escolha.
Nenhum deles menos amor.
E, quem sabe um dia, te encontrará
esse amor visceral e irrrestrito,
terno e feroz… inesperado.
Um dia, frente aos teus seus olhos,
por escolha sua ou da vida,
uma criança - seja bebê ou já crescida - poderá te olhar por dentro.
Nesse instante, brotará no teu peito
uma vastidão nunca antes vivida.
Uma ternura irrestrita.
E a força de um tufão.
E a criança te plantará nos olhos uma luz
e te espalhará no rosto ternura
e te colocará no sorriso um orgulho.
Maternidade o nome disso.
Paternidade o nome disso.
Prepara-te.
Flávia Côrtes
Setembro de 22
Modo Pouca Energia
Como faz para desligar
essa praga de Subconsciente
que roda em segundo plano
o tempo todo e todo dia?
Intermitente e independente,
sorrateiro e incansável,
interpela tuas decisões
e te move ou empaca
ainda que você não perceba.
Ninguém ainda descobriu
o modo Off Line
para essa Entrelinha
que mora atrás do pensamento
em algum lugar anterior
ao gesto.
Relaxa.
Não vai dar para bloquear isso.
Com ou sem você ter feito
recarga completa da tua energia,
não vai ter trégua.
Ah, você não tem isso?
Meu amigo, o seu Subconsciente
então, é realmente Profissional.
Esse tempo todo, está aí
e você não viu?
Se, desde o primeiro choro,
nenhuma das tuas sinapses
demandou platéia
para acontecer,
acha mesmo que teu Subconsciente
precisaria te dar satisfação
para assumir o leme
vez ou outra?
Vamos combinar assim:
O meu, eu chamo carinhosamente de “Sub”.
Vou chamar o seu de “Bond”.
Se preferir, ignore-o.
Pode dar menos trabalho.
Ou não.
(Flávia Côrtes - julho/22)
Qualquer dia desses…
Podem chamar de amor à primeira vista.
Mas não amou, nada. Apaixonou.
Amor é outro departamento,
em que não se aterrisa assim em um dia.
De toda forma, em um dia quase comum,
estará lá você de coração e corpo abertos
(mesmo que nem saiba disso),
quando, sem aviso e de repente,
te tomará completamente
essa chuva de hormônio e encanto
que sequestra o dia inteiro o pensamento,
acelera sangue e respiração,
une o riso e o olhar,
todo assunto interessa
e dá uma vontade imensa de ficar.
Se isso aí vai virar amor,
já é outra história.
Porque são duas as histórias.
Valores de dois - inclusive os diferentes.
Funciona, se alicerces não excludentes.
Hábitos de dois - inclusive os conflitantes.
Funciona também,
se negociados os insuportáveis
e relevados os irrelevantes.
Opiniões de dois - inclusive as políticas.
Até pode funcionar, havendo respeito.
(Sem isso não ia funcionar nada mesmo).
Gostos de dois - inclusive os culturais.
Isso pode não apenas funcionar,
como ser até bem divertido.
E se forem dois que se queiram inteiros,
e por tempo suficiente,
qualquer dia desses… amor.
Só fica improvável se um amar ao outro
bem mais do que a si mesmo.
Ou a si mesmo,
bem mais do que ao outro.
Nem morando sozinho vai ser feliz assim.
Imagina resolvendo
quem vai lavar o banheiro hoje.
Está bem…
Então, os dois juntos
se amaram e se respeitaram,
se apoiaram e se cuidaram,
se divertiram e se aprenderam,
juntaram amigos e familiares
(os irritantes e os cativantes),
fizeram ambos terapia
e foram felizes para sempre?
Talvez.
Espera só que venham dias de luta,
além dos de glória.
Amaram-se e respeitaram-se
mesmo quando irritados ou cansados
e apesar do mau humor?
Uniram-se e encontraram
algum riso e ternura,
mesmo descongelando geladeira,
apesar da louça interminável na cozinha,
até mesmo quando contas atrasadas
e com crianças gritando pela casa?
Bem, então, sim,
os dias podem virar anos.
E os anos poderão ser,
na maioria dos dias,
felizes e risonhos.
Ô, sorte?
Não foi apenas sorte, meu amigo.
Flávia Côrtes
Outubro de 2021
(Para Everson, com quem a vida há mais de sete anos, segue encantada, ainda que nem sempre fácil.)
E a gente até se amava.
Por tanto tempo alistada
na batalha cotidiana,
nem percebeu.
Um dia viu-se só
na trincheira.
E onde havia ombro
de repente, vácuo.
Poderia ter
tentado mais,
insistido mais,
ter pedido mais…
… não soubesse, há tempos,
que amor que se pede
provavelmente nem seja.
Flávia Côrtes
Novembro de 2011
Azul Revoado
Não parasse embaixo da goiabeira,
não a tinha visto gestando flor.
Nem a ele
sereno e belo,
flutuando estático no arbusto fino.
Passarinho azul pousado em arbusto
não espera foto.
A imagem é impressa
perene e bela na fotografia
ou efêmera e linda na alma.
E agora que não tenho foto
de passarinho azul?
Fotografia,
desbota e perde.
Alma encantada,
de passarinho azul eterniza.
Pausa ou passo também é escolha.
Flávia Côrtes
novembro de 2021
Dilemas antigos em tempos atuais.
Conhece-te a ti mesmo
recomenda inutilmente
o Oráculo ao viajante
preguiçoso a ponto de simplório.
Ouvir a resposta, aprendiz,
nem sempre é mais fácil
do que formular a pergunta.
“Pessoa, pessoa minha,
existe algo mais lindo?”
questiona o Espelho à Esfinge
ocupada demais
em autofagia.
Espera-se, então,
antes que a sede e a fome
derrubem Narciso
em frente ao reflexo,
que seja aceito o convite
recebido da Vida
ao nascimento
para que jante e dance
com sua própria
fera.
Flávia Côrtes
Setembro de 2021
Só ainda que não sozinha
É preciso fazer.
Tenho que resolver.
Nada de novo sob o céu.
Sempre foi assim.
Então, por que só agora
essa sensação horrível
de isolamento em mar revolto?
Por que só agora
esse aperto no peito,
enquanto a maré sobe?
Náufraga tantas vezes
de mim mesma,
já não me atiro mais
à correnteza.
É que é preciso poder voltar
quando não se está só.
Só não sei se isso ajuda.
Flávia Côrtes
Agosto de 2021
Dicotomia da Palavra
Diga lá… diz aí.
Conta, vai.
Ou não.
Quem sabe melhor não?
Quem sabe melhor?
Quem se sabe?
Mas alguém,
realmente,
se sabe afinal?
E se dizer ou não dizer
é uma questão,
o que dizer, então,
desse dicotômico dilema
do auto-conhecimento?
“No princípio era o Verbo”.
E, se qualquer palavra tem força,
com que força ecoa a tua
dentro do teu pensamento?
Subtraia o Verbo na aurora da ideia.
E que assim não seja.
Dá certo, sabe?
Por um tempo.
Ou, então, faça da palavra lupa
e se permita desvendar
o mistério dessa Caixa Preta
naufragada no fundo do cérebro.
Mas saiba que toda palavra-lupa
também é uma palavra-chave.
O que traz mesmo por dentro
essa tua Caixa,
Pandora?
Comporta aberta.
Descoberta.
Ou, quem sabe,
avalanche.
Mas, abrindo ou trancando,
o fato é que existe
dentro daquela caixa escura
uma força
daquilo que quis ser
e que você não deixou.
E o resultado virá.
Reação ao invés da Ação.
Subconsciente.
Um cretino que todo mundo tem
em algum canto do cérebro.
Acha mesmo que ele ia deixar barato,
Pandora, tanta coisa trancada
dentro dessa Caixa?
Dizer ou não dizer.
Ser ou não ser.
Perceber ou ignorar.
A Vida é feita de Escolhas.
Livre arbítrio.
E ninguém disse que isso seria fácil.
Flávia Côrtes
Junho de 2021