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sábado, 23 de junho de 2018

Positivo e Negativo

Acostumada que era
à luz, à ternura e à alegria,
aprendeu muito cedo
a força do SIM.

Positiva sempre,
abriu  espaços onde não havia,
construiu sobre abismos,
aterrou em inundações,
preencheu silêncios.

Iluminou vazios
até que, aos seus olhos,
só houvesse luz.

Levou alguns muitos anos
para perceber
a exaustão pacificadora
do SIM.

Precisou aprender.

Nem todo vazio pede completude.
Nem todo abismo necessita ponte.
Nem todo mar escolhe a areia.
Nem todo silêncio demanda palavra.

E não é a luz, certamente,
que desagrada da sombra.

É verdade.
O SIM pode ser pacificador.

Mas, algumas vezes,
só o NÃO liberta.

(Flávia Côrtes - junho de 2018)

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Reflexões Verdes

Sempre achou bonitas
as árvores que ladeavam a rua
e a deixavam menos cinza
todos os dias.

Não só à rua na verdade.
Também a ela.

Todo dia as via.
E aquilo fazia bem.

Levou anos
para perceber
nem todas inteiras.

Aquelas que ali estavam,
antes dos fios,
erguiam-se gigantescas rumo ao céu
como cabe a uma árvore.

A fiação passando
indolor
abaixo.

Aquelas, porém, que
possivelmente chegaram depois
tiveram os galhos laterais
pouco a pouco amputados
antes da fiação.

Isso não impedia,
porém,
a majestade.

Nem por isso menos belas,
nem por isso menos altivas,
nem por isso menos árvores,
erguiam-se
(ainda que metade)
gigantescas rumo ao céu.

Como cabe a uma árvore.

A fiação passando,
ao lado,
logo abaixo.

Indolor.

Pelo menos a nós
que não somos árvore.

Flávia Côrtes
Abril de 2018









segunda-feira, 9 de abril de 2018

Trincheiras

Em tempos sombrios,
alistaram-se
em suas próprias
batalhas.

Isolados
em meio ao
fogo cruzado,
resolutos e firmes,
mantiveram-se
certeiros.

Por sobrevivência,
superaram medos,
abandonaram hábitos,
ignoraram limites.

Na mira,
inabalável,
o alvo.

E, ainda assim,
remota era
a vitória.

Até que um dia,
a força da aliança
superou aquilo
que se teimava
só.

Foi quando
a guerra de um
virou batalha do outro.

Já não importava
o breu da noite mais densa,
o frio do inverno mais árido,
o calor da batalha mais árdua.

Havia paz.


Abril de 2018
Flávia Côrtes 
(Para Everson, que me acompanha,
na alegria e na tristeza, em todos os dias
da minha vida.)

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Lição de Casa

Só ao caminho,
basta o caminhar.

Nós que somos
viajantes nesta estrada
aprendemos cedo ou tarde
que o SIM simplifica
mas NÃO
resolve.

Silêncio bom
só existe
em Harmonia.

E o respeito vira a esquina
pouco antes da gente
virar a página.

Exercita o diálogo.

Assim, nem Todo Dia
ameaça o Para Sempre
daqueles que se sabem
desde Sempre.


(Flávia Côrtes - fevereiro de 2018)

domingo, 17 de dezembro de 2017

Votos

Eu prometo,
mais que amar-te,
respeitar-te.

E te prometo ser,
mais que fiel,
leal.

E te peço, carinhosamente,
o mesmo.

E, ainda que sabendo,
que em duas vidas inteiras
há de existir dias tristes,
eu faço votos de que
a alegria de um de nós
possa sempre estar presente
para iluminar e respeitar
a tristeza do outro.

E mesmo ciente
de que em duas vidas inteiras
há de haver doença
(e algumas vezes não só física),
eu faço votos de que
a saúde de um de nós
possa sempre estar presente
para amparar
a doença do outro.

Sustento meus votos,
esperanças e certezas
nos alicerces sólidos
deste amor conquistado,
deste respeito-premissa,
e desta lealdade-consequência
que nos unem muito além da magia
em um cotidiano terno e alegre,
mas tantas vezes difícil e doloroso.

E é sobre estes alicerces
que afirmo ao mundo,
como já o fiz a você
e você a mim,
de tantas e inúmeras formas,
que estaremos sempre juntos
unidos e cúmplices,
amigos e amantes,
desde o primeiro dia
e por todos os dias
de nossas vidas unidas.

Que assim seja.

Flávia Côrtes 
(Para Everson, com amor)
16 de dezembro de 2017

sábado, 28 de outubro de 2017

Surrealismo

Mistura de labirinto
e corda bamba
prosseguem os dias.

Um dia bom
e o outro
quem sabe.

Montanhas russas
não contariam
o tamanho
destes abismos.

Colinas líricas
escorrem em funil
ao décimo e não concebido
círculo infernal.

E, em seguida, erguem-se
em terremotos de silêncio
numa quase paz.

Suficiente.

Nestas vidas travestidas
em telenovelas dramáticas,
cada um prossegue
como pode.

Passo a passo
em linha tênue
de sanidade.

Que não se rompa...
ainda que eventualmente
envergue.

Oremos.

(Flávia Cortês - outubro de 2017)

sábado, 7 de outubro de 2017

Farol

Quando tudo parece sem sentido
e a vida gira em labirinto,
teu riso ilumina
claro e cristalino.

E eu sei exatamente
por onde
e até aonde
ir.

Outubro de 2017
(Para Sophia… com amor.)








terça-feira, 30 de maio de 2017

Órbitas

A gente aprende desde cedo
que não adianta
querer ser
centro do mundo.

E isso é saudável.

Mas observa
com cautela o dia
em que você
meio que sem perceber
vira satélite.

Em volta
de quem
(ou do que)
anda você
orbitando?

E resiste ao impulso
de culpar o Sol.

Até a Terra gira também
em volta de si mesma.

A sua prioridade
foi você
quem definiu.

Cuida
do seu próprio eixo.

Ou, então,
Meteoro.

(Flávia Côrtes - Maio de 2017)


domingo, 7 de maio de 2017

Sonho Meu

Ela dorme.
E enquanto dorme
pequenos gestos
me contam
sonhos.

O movimento agitado
dos olhos sob as pálpebras
acompanham a ação
desse filme-sonho
que é só dela.

De repente
uma risada.

Não foi um suspiro
ou um sorriso.

A mesma risada cristalina
que me encanta os dias
escapou do sono
da menina-sonho.

E eu aqui encantada
assisto
o sono riso
da menina adormecida

nessa vida-sonho
que é tão minha.

(Flávia Côrtes - maio de 2017)
Para Sophia, meu pedacinho de Céu.


sábado, 1 de abril de 2017

Fracionados ou Inteiros

Vivíamos um tempo
em que o Tempo era um luxo.

Dias vertiginosos,
semana após semana,
nos levavam,
mês após mês,
aos quase produtivos anos
de uma Estranha Era
de pessoas Fracionadas.

A informação (relevante ou não)
ao alcance dos dedos
preenchia cada segundo desperto.

E interrompia.

A luz da tela desviava os olhos
e fracionava o pensamento
a cada instante.

E as pessoas se habituaram.
Porque habituam-se facilmente as pessoas.

Assim,
despertavam os Fracionados
com os olhos já conectados.

E, conectados e fracionados,
seguiam pelo dia.

Nunca mais Alguém foi Inteiro.

Nos escritórios,
Fracionados trabalhavam
enquanto pequenas telas brilhantes
sobre as mesas
dispersavam e interrompiam.

À refeição,
não conversavam os Fracionados.
À mão direita, o garfo.
À mão esquerda,
a pequena tela deslizante
de importantes amenidades.

A caminho de casa
não cochilavam ou contemplavam
os Fracionados,
ocupados que estavam ainda

com seus trabalhos não concluídos
nas tardes tantas vezes interrompidas,
trocavam mensagens e telefonemas incessantes.

Em suas casas,
observavam os Fracionados
as proezas dos filhos
erguendo os olhos sobre a tela
entre uma mensagem e outra.

Jantavam à frente da televisão ligada.

Reuniam-se nos aniversários em silêncio
cada um fixado em sua própria tela.

E levavam suas casas para o trabalho.
E traziam seus trabalhos para casa.
E conversavam dentro do cinema.
E silenciavam em frente a suas telas em restaurantes.

Viviam a infância de seus filhos
por fotos publicadas nas redes sociais.

Em seus íntimos,
a sensação cotidiana
de que não deram conta

de seus trabalhos
de suas famílias
de si mesmos.

Sem saber da revolução​ possível
quando Inteiros,
fracionavam-se mais e mais
em tentativa inútil​ de dar conta.

Exaustos e ocupados adormeciam.
Celulares ao lado do travesseiro.

Estranho tempo aquele.

Custou um pouco ainda
para que um Revolucionário
resolvesse ser Inteiro e
iniciasse uma Nova Era.

Mas, um dia,
um lnteiro surpreendeu a todos
e fez História:

Guardou o celular.

(Flávia Côrtes - abril de 2017)


























terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Percepção

O Horizonte hoje
tinha uma faixa azul luminosa
logo acima do mar.

Olhei com mais cuidado
e percebi.

Era o mesmo azul de sempre
realçado por uma faixa estreita e longa
de nuvem acinzentada que pairava
alguns metros acima.

Eu talvez não tivesse reparado
na beleza luminosa do azul
não houvesse
um pouco de cinza
em volta.

(Flávia Côrtes - fevereiro de 2017)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Encarnação

No álbum de fotografias
outra vida
em outro tempo.

O sorriso quase espelho
conta histórias
diferentes de agora.

Olhos-janelas mostram
aquela que era.

E eu me dou conta.

Seria aquela da foto
a quarta
ou quem sabe
a quinta?

Tantas vidas.
Tantas histórias.
Tantas pessoas.
Na mesma vida.

Sonhos e conquistas.
Risos e choros.
Alguns tão intensos
outros tão pueris.

Cada um tem tantos
em si mesmo.

Engana-se
quem pensa-se
uno.

Quantas vidas
você já viveu
nessa vida?

E quantas
ainda vai viver?

Ainda se reconhece?
Ou nem agora se conhece?

Em pelo menos algumas você foi feliz?
Ou ainda traz uma fome no peito?

A vida da gente é a vida que existe.
É a vida que é.

O que cada um faz com isso
já é escolha.

(Flávia Côrtes - Fevereiro de 2017)

domingo, 9 de outubro de 2016

Equações

Publicada a descoberta!
Divulgada a fórmula!

A Felicidade mora 
na equação

da Expectativa 
com a Realidade.

A receita parece simples.
E há quem diga que funciona.


Tudo se resume na questão
de calibrar a própria 
expectativa.

E, já que a realidade 
nem sempre
te pertente,

a expectativa
pelo menos
é toda sua.

Espera mais do que existe?
Infelicidade certa.

Espere menos ou não espere
e viva feliz.

Isso até poderia funcionar bem.
E, quem sabe, na imaculada teoria
até funcione.


Já em gente viva, eu não sei…

Cadê o botão 
de liga e desliga?

Matemáticos que me perdoem.

Prossigo acreditando
que precisa é mesmo
de um bocado de coragem
para ser 
feliz.

(Flávia Côrtes - outubro de 2016)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Mosaico

Foram tantas noites
tentando conter na moldura
os estilhaços deste mosaico
que um dia foi espelho

que nem eu mesma
me reconheço mais
neste quase reflexo.

(Flávia Côrtes - agosto de 2016)


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Majestade

A floresta estendia
majestosa
um manto verde
sobre a montanha.

O sol coroava
em púrpura
o horizonte.

Enquanto eu,
em reverência,
admirava
o poente.

(Flávia Côrtes - Agosto de 2016)

terça-feira, 5 de julho de 2016

Quando o que falta não é lacuna.

Tem época na vida
em que tudo está bem.

Pelo menos tudo o que pode
ficar bem.

Não estou discorrendo aqui
sobre o preço do feijão
ou a situação política do país.

Falo da equação cotidiana.

Está tudo bem em casa.
O trabalho vai bem.
Estão bem todos os amigos.
A saúde está em dia.
E vai bem a família, obrigada.

Então,
que falta é essa?

É que nem sempre
bem
é igual a
bom.

E a vida
precisa ser gostosa.

Sinto dizer
que não tem receita de bolo
para isso.

Quando o que falta
não é lacuna,
talvez nem seja o caso
de incluir
onde o excesso
já atordoa.

Em hora cheia
não vai caber
mais ponteiros.

Experimenta
esvaziar um pouco.

Até em elevador
antes de entrar
precisa esperar
a saída.

A arte de incluir o que falta
não precisar excluir
o que te completa.

Algumas vezes,
basta organizar
gavetas.

O que não tem utilidade
há mais de cinco anos
só precisa ser guardado
se te emociona.

Abre espaço.
A vida faz o resto.

(Flávia Côrtes - Junho de 2016)