Arquivo do blog

sábado, 28 de outubro de 2017

Surrealismo

Mistura de labirinto
e corda bamba
prosseguem os dias.

Um dia bom
e o outro
quem sabe.

Montanhas russas
não contariam
o tamanho
destes abismos.

Colinas líricas
escorrem em funil
ao décimo e não concebido
círculo infernal.

E, em seguida, erguem-se
em terremotos de silêncio
numa quase paz.

Suficiente.

Nestas vidas travestidas
em telenovelas dramáticas,
cada um prossegue
como pode.

Passo a passo
em linha tênue
de sanidade.

Que não se rompa...
ainda que eventualmente
envergue.

Oremos.

(Flávia Cortês - outubro de 2017)

sábado, 7 de outubro de 2017

Farol

Quando tudo parece sem sentido
e a vida gira em labirinto,
teu riso ilumina
claro e cristalino.

E eu sei exatamente
por onde
e até aonde
ir.

Outubro de 2017
(Para Sophia… com amor.)








terça-feira, 30 de maio de 2017

Órbitas

A gente aprende desde cedo
que não adianta
querer ser
centro do mundo.

E isso é saudável.

Mas observa
com cautela o dia
em que você
meio que sem perceber
vira satélite.

Em volta
de quem
(ou do que)
anda você
orbitando?

E resiste ao impulso
de culpar o Sol.

Até a Terra gira também
em volta de si mesma.

A sua prioridade
foi você
quem definiu.

Cuida
do seu próprio eixo.

Ou Meteoro.

(Flávia Côrtes - Maio de 2017)


domingo, 7 de maio de 2017

Sonho Meu

Ela dorme.
E enquanto dorme
pequenos gestos
me contam
sonhos.

O movimento agitado
dos olhos sob as pálpebras
acompanham a ação
desse filme-sonho
que é só dela.

De repente
uma risada.

Não foi um suspiro
ou um sorriso.

A mesma risada cristalina
que me encanta os dias
escapou do sono
da menina-sonho.

E eu aqui encantada
assisto
o sono riso
da menina adormecida

nessa vida-sonho
que é tão minha.

(Flávia Côrtes - maio de 2017)
Para Sophia, meu pedacinho de Céu.


sábado, 1 de abril de 2017

Fracionados ou Inteiros

Vivíamos um tempo
em que o Tempo era um luxo.

Dias vertiginosos,
semana após semana,
nos levavam,
mês após mês,
aos quase produtivos anos
de uma Estranha Era
de pessoas Fracionadas.

A informação (relevante ou não)
ao alcance dos dedos
preenchia cada segundo desperto.

E interrompia.

A luz da tela desviava os olhos
e fracionava o pensamento
a cada instante.

E as pessoas se habituaram.
Porque habituam-se facilmente as pessoas.

Assim,
despertavam os Fracionados
com os olhos já conectados.

E, conectados e fracionados,
seguiam pelo dia.

Nunca mais Alguém foi Inteiro.

Nos escritórios,
Fracionados trabalhavam
enquanto pequenas telas brilhantes
sobre as mesas
dispersavam e interrompiam.

À refeição,
não conversavam os Fracionados.
À mão direita, o garfo.
À mão esquerda,
a pequena tela deslizante
de importantes amenidades.

A caminho de casa
não cochilavam ou contemplavam
os Fracionados,
ocupados que estavam ainda

com seus trabalhos não concluídos
nas tardes tantas vezes interrompidas,
trocavam mensagens e telefonemas incessantes.

Em suas casas,
observavam os Fracionados
as proezas dos filhos
erguendo os olhos sobre a tela
entre uma mensagem e outra.

Jantavam à frente da televisão ligada.

Reuniam-se nos aniversários em silêncio
cada um fixado em sua própria tela.

E levavam suas casas para o trabalho.
E traziam seus trabalhos para casa.
E conversavam dentro do cinema.
E silenciavam em frente a suas telas em restaurantes.

Viviam a infância de seus filhos
por fotos publicadas nas redes sociais.

Em seus íntimos,
a sensação cotidiana
de que não deram conta

de seus trabalhos
de suas famílias
de si mesmos.

Sem saber da revolução​ possível
quando Inteiros,
fracionavam-se mais e mais
em tentativa inútil​ de dar conta.

Exaustos e ocupados adormeciam.
Celulares ao lado do travesseiro.

Estranho tempo aquele.

Custou um pouco ainda
para que um Revolucionário
resolvesse ser Inteiro e
iniciasse uma Nova Era.

Mas, um dia,
um lnteiro surpreendeu a todos
e fez História:

Guardou o celular.

(Flávia Côrtes - abril de 2017)


























terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Percepção

O Horizonte hoje
tinha uma faixa azul luminosa
logo acima do mar.

Olhei com mais cuidado
e percebi.

Era o mesmo azul de sempre
realçado por uma faixa estreita e longa
de nuvem acinzentada que pairava
alguns metros acima.

Eu talvez não tivesse reparado
na beleza luminosa do azul
não houvesse
um pouco de cinza
em volta.

(Flávia Côrtes - fevereiro de 2017)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Encarnação

No álbum de fotografias
outra vida
em outro tempo.

O sorriso quase espelho
conta histórias
diferentes de agora.

Olhos-janelas mostram
aquela que era.

E eu me dou conta.

Seria aquela da foto
a quarta
ou quem sabe
a quinta?

Tantas vidas.
Tantas histórias.
Tantas pessoas.
Na mesma vida.

Sonhos e conquistas.
Risos e choros.
Alguns tão intensos
outros tão pueris.

Cada um tem tantos
em si mesmo.

Engana-se
quem pensa-se
uno.

Quantas vidas
você já viveu
nessa vida?

E quantas
ainda vai viver?

Ainda se reconhece?
Ou nem agora se conhece?

Em pelo menos algumas você foi feliz?
Ou ainda traz uma fome no peito?

A vida da gente é a vida que existe.
É a vida que é.

O que cada um faz com isso
já é escolha.

(Flávia Côrtes - Fevereiro de 2017)

domingo, 9 de outubro de 2016

Equações

Publicada a descoberta!
Divulgada a fórmula!

A Felicidade mora 
na equação

da Expectativa 
com a Realidade.

A receita parece simples.
E há quem diga que funciona.


Tudo se resume na questão
de calibrar a própria 
expectativa.

E, já que a realidade 
nem sempre
te pertente,

a expectativa
pelo menos
é toda sua.

Espera mais do que existe?
Infelicidade certa.

Espere menos ou não espere
e viva feliz.

Isso até poderia funcionar bem.
E, quem sabe, na imaculada teoria
até funcione.


Já em gente viva, eu não sei…

Cadê o botão 
de liga e desliga?

Matemáticos que me perdoem.

Prossigo acreditando
que precisa é mesmo
de um bocado de coragem
para ser 
feliz.

(Flávia Côrtes - outubro de 2016)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Mosaico

Foram tantas noites
tentando conter na moldura
os estilhaços deste mosaico
que um dia foi espelho

que nem eu mesma
me reconheço mais
neste quase reflexo.

(Flávia Côrtes - agosto de 2016)


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Majestade

A floresta estendia
majestosa
um manto verde
sobre a montanha.

O sol coroava
em púrpura
o horizonte.

Enquanto eu,
em reverência,
admirava
o poente.

(Flávia Côrtes - Agosto de 2016)

terça-feira, 5 de julho de 2016

Quando o que falta não é lacuna.

Tem época na vida
em que tudo está bem.

Pelo menos tudo o que pode
ficar bem.

Não estou discorrendo aqui
sobre o preço do feijão
ou a situação política do país.

Falo da equação cotidiana.

Está tudo bem em casa.
O trabalho vai bem.
Estão bem todos os amigos.
A saúde está em dia.
E vai bem a família, obrigada.

Então,
que falta é essa?

É que nem sempre
bem
é igual a
bom.

E a vida
precisa ser gostosa.

Sinto dizer
que não tem receita de bolo
para isso.

Quando o que falta
não é lacuna,
talvez nem seja o caso
de incluir
onde o excesso
já atordoa.

Em hora cheia
não vai caber
mais ponteiros.

Experimenta
esvaziar um pouco.

Até em elevador
antes de entrar
precisa esperar
a saída.

A arte de incluir o que falta
não precisar excluir
o que te completa.

Algumas vezes,
basta organizar
gavetas.

O que não tem utilidade
há mais de cinco anos
só precisa ser guardado
se te emociona.

Abre espaço.
A vida faz o resto.

(Flávia Côrtes - Junho de 2016)

terça-feira, 21 de junho de 2016

Engavetamentos.

A vida, às vezes, ganha,
sem aviso prévio,
outra dimensão.
(A vida, aliás, tem mania disso...)

Estado de sítio é pouco.

Um leão por dia?
Ou doze trabalhos
antes do meio dia?

Mas a gente se adapta.
A gente sempre se adapta.
(Gente, aliás, tem mania disso...)

E acaba que, nessas horas,
é que a gente descobre

quem
alinha ombro,
arregaça mangas,
empresta presença
e ouvidos

sem que seja necessário
bradar reforços.

E há quem se importe
com as almofadas.

(Flávia Côrtes - dezembro de 2015)

terça-feira, 14 de junho de 2016

Altos e Baixos

A arte pode ajudar
a fazer deste ioiô
roda-gigante.

Quem sabe
o que pode acontecer
se você desapegar da linha
e escolher ser carretel.

A bailarina sabe
que fixar o olhar,
um ponto a cada giro,
clareia a mente da tontura
e a preserva da queda.

Até descidas têm horizontes.

(Flávia Côrtes - junho de 2016)


domingo, 12 de junho de 2016

Mistérios sobre a Alegria

Eu sempre fui uma Pessoa Alegre
daquelas que encontra a própria Alegria 
todo dia.

Alegria de Pessoa Alegre
surge do nada,
sem convite ou aviso,
uma ou algumas 
vezes ao dia.

Porém, dia desses, eu percebi,
um tanto curiosa,
que anda meio sumida
a minha Alegria.

Não é que não venha 
nunca.

Mas tem se comportado 
assim como um filho 
que há pouco saiu de casa.

Aparece para almoçar
aos domingos,
nunca falta 
em aniversários
e lembra de datas 
comemorativas.

Mas não percebe a falta que faz
quando não liga todo dia
ou não acha um tempo 
para aparecer sem aviso
só para um café 
e algumas risadas.

Confesso que levei um tempo
para perceber a ausência
da minha Alegria.

Isso porque eu não ando triste.
Ando, aliás, bem feliz.
Todo dia eu sou Feliz.

Surpreendente isso
de perceber 
que a Felicidade pode existir 
dissociada da Alegria.

Custei para entender o motivo:
Cansaço Extremo.

Até para ser feliz, 
a pessoa precisa 
de energia.

Falta hora no dia.
Mas, ainda assim, 

é tempo de apagar as luzes mais cedo.

(Flávia Côrtes – Junho de 2016)

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Sinfonia

O ruído
continuo e permanentemente
do motor subindo a serra
se misturava a outros sons.

Um trepidar de vidros
das janelas.

As conversas paralelas
das gentes
que iam ou voltavam
de algum lugar.

Olhos fechados
aguçavam ouvidos
que brincavam
de separar e unir
os sons.

Apitos
pediam
paradas.

Um ou outro motor
ultrapassava.

A intenção era sono.

Mas o destino
poema.

(Flávia Côrtes - junho de 2016)


segunda-feira, 30 de maio de 2016

Embarques e Desembarques

O problema de você
ficar tempo demais
esperando um ônibus
que não vem

é que vai dando
uma vontade danada
de pegar o ônibus errado.

Talvez nem seja um problema,
se o seu destino
não tem hora marcada.

Talvez seja até divertido,
se o caminho for bonito
e você se permitir
o passeio.

Algumas voltas a mais
podem te fazer bem,
se você souber atentar

ao tempo certo
do desembarque.

(Flávia Côrtes - maio de 2016)



terça-feira, 26 de abril de 2016

O arco-íris e o ônibus

Dessa vez, eu não parei
para olhar o céu.

Estava muito quente
e uma lufada de vento
me interrompeu os passos
e levantou o rosto.

Coisas de um verão em maio
sem ar condicionado.

Quando eu abri os olhos,
ele estava lá.

Sempre achei que arco-iris
só se ocupasse de horizonte.

Mas este
desafiava rótulos
e preenchia soberano
o meio do céu.

Perdi o ônibus.

Mas você tem que estar disposto
a perder um ônibus ou dois

se quiser ver todas as cores.

(Flávia Côrtes - Abril de 2016)


quarta-feira, 13 de abril de 2016

Laranja em Flor

A caminho de casa,
eu devia estar ocupada.

Focada em problemas.

Os muitos.
Os tantos.

Casa, Trabalho, Dinheiro,
Família, Amigos,
País…

Falta dia no dia.

Certamente, eu deveria
ocupar-me dos problemas.

Mas tem esse meu olho reparador
que pousou
no laranja da flor.

Laranja de Flor
esvazia pensamento mais rápido
que vento forte desanuvia céu
em dia de verão pleno.

Pensamento,
uma vez vazio,
enche a gente
de forma tão completa
que não dá mais

para se ocupar assim
de burocracias,
polêmica
ou tristezas.

Não é nem
que eu não queira.

Acho até que deveria.

Mas falta espaço
na alma florida.

Por hora.

(Flávia Côrtes - Abril de 2016)

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Lição

O relógio,
a cada compromisso,
desperta urgências.

Tic-tac,
olha a hora...! 

O calendário,
a cada data,
contabiliza etapas.

Vira a página,
já é dezembro...!

A agenda,
a cada dia,
relembra e dita.

Atenção! Tem reunião...!
Coloca a roupa na máquina...!
Olha o dia da conta...!

Acelerados e ocupados
exclamamos ponteiros,
preenchendo páginas numeradas
das nossas vidas.

Mas a sanidade desperta
na risada da criança.

Que o dia pare
para que eu olhe também 
o chapéu da nuvem.

Que o despertador atrase 
para que eu conte também 
o sonho.

Que a agenda espere
para que eu brinque também
com a água da torneira.

E a gente lembra
que o que de fato importa
não precisa lembrete 
ou alarme.

O amor, 
sabemos de cor.

(Flávia Côrtes - novembro de 2015)