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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012



Amarelinhas


A laranja no copo de guaraná era amarela
e sorria para mim.

Como amarela era a flor
que imitava um peixe
no arranjo em frente à mesa.

E amarelo o sorvete de damasco
que refrescava o jardim
de amarelas Alamandas.

As páginas do meu Quintana
eram claras gemadas que eu folheava
na tarde quase quente.

Eu nunca gostei de amarelos.
Quando fortes, escandalosos.
Quando tênues, insossos.

E, talvez por saber
desta minha antipatia,
lá vem meu verso
saltando amarelinhas ao meu redor.

E eu, agora,
gosto!



(Flávia Côrtes - Dezembro de 2012)

Textos devidamente registrados na Biblioteca Nacional e protegidos quanto aos seus direitos autorais.
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sábado, 29 de dezembro de 2012

Ritual

Gostava de café forte
coado na hora
em coador de pano. 

Achava bonito 
o movimento que a água fazia 
quando se misturava ao pó 
em uma bolha marrom subindo 
até a beirada redonda do coador.  

Qualquer problema parecia pequeno quando o olhar se perdia 
na bolha de café 
dentro do coador de pano.

Gostava também do aroma que invadia a cozinha nesse momento.

Gosto,
aroma,
sensação,
reflexão, 
paz.

Foi dentro de uma bolha 
marrom de café
que o era rito iluminou-se 
em ritual do cotidiano.

Dezembro de 2012








sábado, 22 de dezembro de 2012

Lembrança

É que eu pensei muito 
em você hoje.

Não foi um 
pensamento-palavra.

Foi mais 
um pensamento-lembrança.

Assim
um pensamento-saudade.

Que eu te sopro
entre as linhas 
deste verso.

Como quem 
sopra
um beijo.

(Flávia Côrtes - dezembro de 2012)
www.poetaflaviacortes.com.br

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Verbo em Desuso

Em tempos como este,
em que ninguém mais namora,
e em que as pessoas vagam
em busca de noites quentes,
ou de príncipes e princesas,
namorar virou démodé.

Eu não falo de "namoro" como "status de relacionamento".
Quem foi que disse que relacionamentos precisam de "status", meu Deus?!

Falo da conjugação do verbo.
Aquela que se articula no cotidiano.

Falo de mãos unidas no cinema,
de tardes inteiras sem sair da cama,
de saber por ter percebido,
de conhecer o caminho do arrepio
e se gosta de café forte.

Daquela mistura da vontade
com à vontade.

Pobre tempo este
em que a intenção do beijo
abandonou o batom.

Triste tempo este
de pessoas isoladas
teclando juntas
em mesas de bar.

Em tempos assim,
revolucionário é aquele
que liga no aniversário
que conta da saudade
que cruza a cidade para te ver.

E eu me vejo um tanto antiqüada.
E sem a menor intenção de modernidade.

Tão avêssa a bandeiras, me pergunto
quando foi que me tornei
revolucionária do afeto.

(Flávia Côrtes - Dezembro de 2012)

sábado, 15 de dezembro de 2012

Orla

A beira mar
e eu te contar os versos
e a te saber os sonhos.

E a gente a pensar lugares 
e a falar de tudos e de nadas
até o teu toque dissolver o assunto
e eu me ver solta.

Além da fronteira do juízo.

Dezembro de 2012

domingo, 9 de dezembro de 2012

Mirante

A noite era escura
após a tarde quente.

O deck de madeira projetado sobre o mar
havia sido colocado ali
para que fosse possível olhar.

E, por isso, ela olhava.

No parapeito de si mesma
observava o canto do mundo.

Olhos perdidos
onde o azul encontra o azul.

Um vento quase fresco
revoava as saias das moças.

Com algum esforço,
deixava-se de ouvir os sons da cidade.

Projetada sobre o mar,
envolta em vento,
por um momento
vislumbrou o infinito.

E ele era azul.

(Flávia Côrtes - dezembro de 2012)
www.poetaflaviacortes.com.br

terça-feira, 4 de dezembro de 2012



Pudim de Leite

Algumas coisas para sempre vão lembrar meu pai.

Abraços de olhos fechados.
Meu pai dizia que "beijo só tem valor com abraço".
Pedia abraço.
E abraçava de olhos fechados.

Gargalhadas.
Seu riso enchia uma sala.
Não, na verdade, seu riso enchia uma vida.

Citações.
Não sei se ele sabe disso, mas suas palavras ecoam em mim o tempo todo.
Perco a conta de quantas vezes eu penso ou digo: "meu pai dizia..."

Perfume.
Não era nem o cheiro do perfume.
O perfume vende em perfumaria.
Era um cheiro amadeirado misturado com o do cigarro que ele "não fumava".
Eu não sei explicar.
Era um cheiro de pai.

Pudim de leite.
Não que ele soubesse fazer.
Mas ele sabia comer.
Dava gosto de ver meu pai comendo pudim de leite.

Fazia isso como fazia todo o resto.
Com gosto.

Eu não sei como terminar este verso.
Aliás, eu nem sei se isso é um verso.

Acho que é só uma saudade
que escorreu
como calda.

Uma saudade doce.


(Flávia Côrtes - Dezembro de 2012)