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quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Portal do Tempo

Dezembro é um mês muito atribulado. Mas, para mim, extremamente terno. Sou filha de Helena e Aderbal. E isso significa Natais e Fins de Ano cheios de magia, música e festa.

Casa cheia, música natalina a semana toda, bolas brancas no Ano Novo, mesa farta, árvore imensa decorada, gente entrando e saindo o dia todo... meus pais amavam isso tudo.

Assim, o ritual de decorar a casa e cuidar dos detalhes natalinos, de alguma forma, me aquece e transborda o coração. Porque isso me conecta com eles.

Noite passada, ao chegar em casa, tinha uma guirlanda na porta.

Foi um instante. Em um piscar de olhos, fui transportada, no exato momento em que meus olhos pousaram sobre a guirlanda. E, de repente, era algum dia de dezembro há 30 anos atrás.

Foi apenas um milésimo de segundo... apenas o tempo de compartilhar por dentro um sorriso com a minha mãe e viver mais uma vez a sensação única e protegida da minha mão na mão do meu pai.

E há quem ache que não há magia no Natal.

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(Obrigada pela surpresa da guirlanda me esperando, Everson, meu amor. Presenteou-me mais do que imagina.. ❤️)

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

The Fifty One Hightway

Tantos caminhos
te endereçaram 
até aqui. 

Avenidas e ruelas, 
becos e alamedas,
curvas fechadas,
barrancos e colinas.

Trajetos integrados
de um rali de você mesmo.

O rumo, já há algum tempo,
autonomia do condutor.

O gosto pela velocidade, 
tantas vezes impulso, 
for fim percebido 
sobrecarga desnecessária.

E redefinido opcional.

A pista livre 
e bem pavimentada
levou anos demais 
para merecer atropelos.

Se e quando desejar,
e sempre que precisar,
desacelere.

Inclusive nas retas.

(Flávia Xavier - Setembro de 2019)








segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Instante

Sua mão pausada nas minhas costas.
Seus olhos pausados nos meus olhos.
Sua vida pausada na minha vida.

Eternos neste minuto
reverbera a noite.

Flávia Côrtes - Setembro de 2019


quinta-feira, 30 de maio de 2019

Matéria Prima

Cada ser humano
é mutante de si mesmo
e casulo de sua própria história.

Assim como
antes de tijolo, houve barro,
antes de você, houve outro você.

Nem toda areia
sonhou-se vidro,
até um dia descobrir-se
janela.

Pode ser que você 
se prefira rocha
impassível 
diante do mundo.

E contemple a vida
do alto de sua inércia
por algum tempo.

Inútil tentativa.

A quem não escolhe direção,
a vida se encarrega da escolha.

Qualquer dia desses,
avalanche.

(Flávia Côrtes - maio de 2019)

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Era uma vez um espaço que ia ser  um armário... 
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Acho, de verdade, que algumas coisas e lugares descobrem sua natureza antes mesmo da gente saber.

Casa em obra há 6 meses, depois de muito “derruba parede e sobe parede” sobrou um “nicho” na entrada do meu quarto que eu havia decretado perfeito para um armário.

Sem saber do armário, o eletricista colocou uma lâmpada. 

Sem saber do armário, a moça da faxina colocou lá uma estante branquinha que estava esquecida no quarto da Sophia e entulhou de coisas.

Semana passada, arrumando a bagunça desse “quase-pós-obra”, desencaixotei meus livros que moravam há 3 anos em caixas organizadoras e achei que ficariam bem “provisoriamente” nessa estante.

Ontem, chego em casa e Sophia me pergunta.

“Mamãe, posso colocar meus livros lá na nossa Biblioteca?”

“Biblioteca, filha?”

“É, mamãe, a nossa Biblioteca nova...! Hoje eu até já peguei lá um livro de poema para ler.... estou querendo colocar um papelzinho na parede da entrada dizendo ..... Sophia pegou no dia tal e devolveu no dia tal... posso?”

E apontou para o “nicho”  do fim do corredor, onde estão morando os meus livros.

Foi assim que descobri que agora temos uma biblioteca... 😮

Quando eu digo que os meus livros têm vida e se espalham por onde querem, as pessoas duvidam.


Em tempo: Sophia colocou o papelzinho para registrar as leituras na parede e já pegou outro livro hoje.

(Flávia Côrtes - maio de 2019)
Saudade e Nostalgia

Nem toda saudade
é triste.

Saudade é
uma ausência,
uma vazio,
uma falta.

Um grito mudo
em noite escura.

Um oco no peito
roendo os dias.

Já a nostalgia
traz dentro de si
um encanto.

Retalhos e ecos
de um tempo
bom.

Reminiscência terna
que te faz
bem.

E se Saudade é
lacuna que arde,

Nostalgia,
em contrário,
preenche.


(Flávia Côrtes - Maio de 2019)
Para Aderbal e Helena que, presentes mesmo na ausência, todo dia me mostram que nem toda saudade é triste.

domingo, 14 de abril de 2019

Simultaneidades

Leu pela terceira vez
o verso.

Não por belo que fosse
(embora fosse belo),
mas para entendimento.

Simples e belo era o verso.
Porém, ausentes os olhos
da pessoa interrompida.

Antes do fim da frase, o toque de um celular.
Antes do início do riso, o alarme de um despertador.

Em meio ao caos cotidiano,
perece o encanto
e sobrevivem urgências.

Simultaneidades te subtraem
do que de fato importa
em desconexo tempo
de pessoas virtuais
supostamente conectadas.

Famílias coexistem ausências,
cada qual isolado em tela própria.

Amigos compartilham fotos,
mas raramente momentos.

Emotions substituem presença
em postagens comemorativas
em datas outrora festivas.

O poema, ao menos,
permite releitura.

A vida não necessariamente
autoriza reprises.

(Flávia Côrtes - abril de 2019)