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domingo, 7 de maio de 2017

Sonho Meu

Ela dorme.
E enquanto dorme
pequenos gestos
me contam
sonhos.

O movimento agitado
dos olhos sob as pálpebras
acompanham a ação
desse filme-sonho
que é só dela.

De repente
uma risada.

Não foi um suspiro
ou um sorriso.

A mesma risada cristalina
que me encanta os dias
escapou do sono
da menina-sonho.

E eu aqui encantada
assisto
o sono riso
da menina adormecida

nessa vida-sonho
que é tão minha.

(Flávia Côrtes - maio de 2017)
Para Sophia, meu pedacinho de Céu.


sábado, 1 de abril de 2017

Fracionados ou Inteiros

Vivíamos um tempo
em que o Tempo era um luxo.

Dias vertiginosos,
semana após semana,
nos levavam,
mês após mês,
aos quase produtivos anos
de uma Estranha Era
de pessoas Fracionadas.

A informação (relevante ou não)
ao alcance dos dedos
preenchia cada segundo desperto.

E interrompia.

A luz da tela desviava os olhos
e fracionava o pensamento
a cada instante.

E as pessoas se habituaram.
Porque habituam-se facilmente as pessoas.

Assim,
despertavam os Fracionados
com os olhos já conectados.

E, conectados e fracionados,
seguiam pelo dia.

Nunca mais Alguém foi Inteiro.

Nos escritórios,
Fracionados trabalhavam
enquanto pequenas telas brilhantes
sobre as mesas
dispersavam e interrompiam.

À refeição,
não conversavam os Fracionados.
À mão direita, o garfo.
À mão esquerda,
a pequena tela deslizante
de importantes amenidades.

A caminho de casa
não cochilavam ou contemplavam
os Fracionados,
ocupados que estavam ainda

com seus trabalhos não concluídos
nas tardes tantas vezes interrompidas,
trocavam mensagens e telefonemas incessantes.

Em suas casas,
observavam os Fracionados
as proezas dos filhos
erguendo os olhos sobre a tela
entre uma mensagem e outra.

Jantavam à frente da televisão ligada.

Reuniam-se nos aniversários em silêncio
cada um fixado em sua própria tela.

E levavam suas casas para o trabalho.
E traziam seus trabalhos para casa.
E conversavam dentro do cinema.
E silenciavam em frente a suas telas em restaurantes.

Viviam a infância de seus filhos
por fotos publicadas nas redes sociais.

Em seus íntimos,
a sensação cotidiana
de que não deram conta

de seus trabalhos
de suas famílias
de si mesmos.

Sem saber da revolução​ possível
quando Inteiros,
fracionavam-se mais e mais
em tentativa inútil​ de dar conta.

Exaustos e ocupados adormeciam.
Celulares ao lado do travesseiro.

Estranho tempo aquele.

Custou um pouco ainda
para que um Revolucionário
resolvesse ser Inteiro e
iniciasse uma Nova Era.

Mas, um dia,
um lnteiro surpreendeu a todos
e fez História:

Guardou o celular.

(Flávia Côrtes - abril de 2017)


























terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Percepção

O Horizonte hoje
tinha uma faixa azul luminosa
logo acima do mar.

Olhei com mais cuidado
e percebi.

Era o mesmo azul de sempre
realçado por uma faixa estreita e longa
de nuvem acinzentada que pairava
alguns metros acima.

Eu talvez não tivesse reparado
na beleza luminosa do azul
não houvesse
um pouco de cinza
em volta.

(Flávia Côrtes - fevereiro de 2017)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Encarnação

No álbum de fotografias
outra vida
em outro tempo.

O sorriso quase espelho
conta histórias
diferentes de agora.

Olhos-janelas mostram
aquela que era.

E eu me dou conta.

Seria aquela da foto
a quarta
ou quem sabe
a quinta?

Tantas vidas.
Tantas histórias.
Tantas pessoas.
Na mesma vida.

Sonhos e conquistas.
Risos e choros.
Alguns tão intensos
outros tão pueris.

Cada um tem tantos
em si mesmo.

Engana-se
quem pensa-se
uno.

Quantas vidas
você já viveu
nessa vida?

E quantas
ainda vai viver?

Ainda se reconhece?
Ou nem agora se conhece?

Em pelo menos algumas você foi feliz?
Ou ainda traz uma fome no peito?

A vida da gente é a vida que existe.
É a vida que é.

O que cada um faz com isso
já é escolha.

(Flávia Côrtes - Fevereiro de 2017)