Paisagem
Havia dois caminhos.
Mas o olhar,
ao invés de imaginar destinos,
se detinha
em árvores.
É que eram tão verdes
as árvores.
Julho de 2012
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segunda-feira, 23 de julho de 2012
Poema Verde
A árvore era muito antiga.
A ponto de eu ter que envergar-me
para admirar a cabeleira altiva
suspensa duas dezenas de metros acima de mim.
O enorme tronco de textura enrugada
dividia-se em dois
pouco acima da linha do meu olhar.
Havia decidido ser duas aquela árvore.
Os galhos grossos eram cobertos
por uma delicada folhagem tricotada.
A folhagem, se um dia parasita,
tomou-se de tal amizade pela árvore
que ficou ali
a aquecê-la e enfeitá-la.
Da ponta dos galhos laterais,
derramava-se como um xale
que a árvore, vaidosa, sustentava,
enquanto me dizia o poema
que aqui eu transcrevo.
Ao seu lado, uma árvore menor crescia à sombra.
E os galhos das duas,
em alguns pontos, se misturavam,
em um silencioso e terno dar de mãos.
Sentei-me numa pedra branca
que alguém,
em algum século,
colocou abaixo da árvore-poema.
Não sei quanto tempo ficamos ali as cinco.
Eu,
a pedra que era branca,
a árvore que era duas,
a folhagem que era xale
e a árvore que era menina.
Talvez o tempo de um poema.
Talvez o tempo necessário
para que eu pudesse levar
por uma vida
a beleza daquele instante.
(Flávia Côrtes - Julho de 2012)www.poetaflaviacortes.com.br
Nota da Autora:
Este texto germinou em mim em uma semana que passei no Hotel Fazenda Villa-Forte, um lugar mágico, repleto de história e com uma paisagem que transborda dos olhos direto para a alma.
Eu poderia escrever dezenas de outros poemas e não conseguiria contar como é lindo o lugar. Então, é melhor vocês conferirem tudo no site deles:
http://www.villa-forte.com.br
Este texto germinou em mim em uma semana que passei no Hotel Fazenda Villa-Forte, um lugar mágico, repleto de história e com uma paisagem que transborda dos olhos direto para a alma.
Eu poderia escrever dezenas de outros poemas e não conseguiria contar como é lindo o lugar. Então, é melhor vocês conferirem tudo no site deles:
http://www.villa-forte.com.br
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Provocações
O olhar trazia uma afirmativa
que me isentava da resposta.
O que eu lia nos teus olhos
me fazia baixar os meus.
Eu que sempre soube sustentar olhares .
A recomendação
era seguir pelo caminho do meio
para não perder o equilíbrio.
Logo a mim,
a quem encantam extremos.
Tinha uma lua amarela no céu
e a tua lembrança
me provocava
verso.
Não era para te provocar
mas te saber provocado
sempre me deixa
provocante.
Se isso não fosse um poema
e eu estivesse sob os teus olhos,
provavelmente,
não diria tanto.
Mas, como páginas brancas
não ruborizam,
eu verso.
(Julho de 2012)
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Para Ti
Ontem eu me apaixonei.
Perdida e inesperadamente.
Não que haja outro jeito de se apaixonar.
Não sei precisar o minuto exato.
Mas quem saberia?
Só sei que cheguei.
Era tarde. Mais tarde do que eu pretendia.
E a cidade inteira convidava ao verso.
Levou o tempo de um sorriso
para o caminho se vestir
de amarelinha rumo ao céu.
Na praça da matriz, lampiões acesos entre as árvores
acolhiam canções entoadas na esquina.
Uma lua pálida
me olhava pela fresta de uma árvore.
E eu me vi apaixonada.
Nem vi tudo ainda... e apaixonada.
Como cabem às paixões.
(Paraty - Julho de 2012)
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Mergulho no invisível.
Um poema não escrito
É assim como um sonho não contado.
Submerge no esquecimento
antes que o segundo pensamento lúcido
dissipe dos olhos
dissipe dos olhos
o encanto.
Às vezes, no meio do dia,
palavras soltas do verso esquecido
invadem.
Lembrança ou inspiração?
Seja como for,
estranha a sensação.
Um saber o que não se sabe.
Um sentir o que não se sente.
Uma vontade de comer uma coisa e não saber o que é.
Um sentir o que não se sente.
Uma vontade de comer uma coisa e não saber o que é.
E a poeta,
que não sabe lidar com "quases",
que não sabe lidar com "quases",
mergulha no invisível
atrás do canto da sereia.
Algumas vezes, retorna com uma pérola entre os dedos.
Outras, só traz dentro de si o mergulho.
Confesso
que entre a pérola e o mergulho
eu abro os dedos
eu abro os dedos
e salto.
Junho de 2012
domingo, 17 de junho de 2012
Sobre momentos, nadas e manias
Haverá momentos
em que nada
ou quase nada
fará sentido.
Porque esta
é uma característica do Momento.
Momentos são,
por natureza,
instantes.
Equilibram-se na curva do minuto.
Não chegam à segunda volta
do menor ponteiro
idênticos,
e têm essa mania.
Mania de ser.
E, é por isso mesmo,
que haverá momentos
em que nada
ou quase nada
fará sentido.
Porque esta
é uma característica do Nada.
Bolha de sabão sustentada no ar por olhar de menino,
espuma do mar que se acha sonho de sereia,
risco de avião que pensa que é nuvem,
e, lá vem o Nada,
com essa mania.
Mania de ser.
Deve ser por isso.
Por insistência do Momento
Por perseverança do Nada
que as pessoas, por fim, percebem
o que faz sentido.
Contagiosa mania esta.
Mania de Ser.
Onde a gente aprende
que para fazer sentido
algumas vezes,
é preciso desistir de fazer sentido.
Julho de 2012
domingo, 10 de junho de 2012
Insight
Tudo o que se vê
Tudo o que sabemos
Aquilo que amamos
São percepções
Idéias
Ideais
Toda idéia é luz.
Todo o amor é fogo.
Encanta e consome
a labareda.
Filhos de Prometeu
em busca da sagrada chama,
dançamos em volta da fogueira.
Mariposas atraídas pelo brilho.
Cada um em seu próprio altar,
acendendo velas
como quem busca faróis
na noite escura.
Sem perceber
que se é sua a chama,
é seu o brilho.
E sua é a idéia!
Porque o que amamos no outro,
não é bem o outro.
É a idéia que fazemos
daquela pessoa.
Mudou a idéia,
acabou o amor.
Não são os amores que acabam.
São as pessoas que mudam.
Muda quem ama
E muda o ser amado.
E, às vezes, não mudam em sintonia.
Não são os amores efêmeros
Efêmero é o pensamento humano.
Não são os amores que iludem.
Somos nós mesmos!
Tira os olhos do fogo.
Olha para o outro longe da tua luz.
Olha para dentro de si mesmo.
Descobre se está, na verdade,
encantado com o seu próprio pensamento.
As rotações garantem:
Tudo o que está à sombra,
uma hora, ganhará a luz .
A luz do teu olhar.
A luz do teu pensamento.
Ilumina, então, logo, você!
Julho de 2012
Tudo o que se vê
Tudo o que sabemos
Aquilo que amamos
São percepções
Idéias
Ideais
Toda idéia é luz.
Todo o amor é fogo.
Encanta e consome
a labareda.
Filhos de Prometeu
em busca da sagrada chama,
dançamos em volta da fogueira.
Mariposas atraídas pelo brilho.
Cada um em seu próprio altar,
acendendo velas
como quem busca faróis
na noite escura.
Sem perceber
que se é sua a chama,
é seu o brilho.
E sua é a idéia!
Porque o que amamos no outro,
não é bem o outro.
É a idéia que fazemos
daquela pessoa.
Mudou a idéia,
acabou o amor.
Não são os amores que acabam.
São as pessoas que mudam.
Muda quem ama
E muda o ser amado.
E, às vezes, não mudam em sintonia.
Não são os amores efêmeros
Efêmero é o pensamento humano.
Não são os amores que iludem.
Somos nós mesmos!
Tira os olhos do fogo.
Olha para o outro longe da tua luz.
Olha para dentro de si mesmo.
Descobre se está, na verdade,
encantado com o seu próprio pensamento.
As rotações garantem:
Tudo o que está à sombra,
uma hora, ganhará a luz .
A luz do teu olhar.
A luz do teu pensamento.
Ilumina, então, logo, você!
Julho de 2012
Respingos
E, quando eu já pensava
que a poesia
tinha resolvido
dar um tempo
de mim,
Olho pela janela
e vejo um ar pontilhado
por gotículas minúsculas.
Era uma chuva
tão leve e tão fina
que, por um momento,
eu não soube dizer
se as gotas caiam
ou flutuavam no ar.
E eu me deixei ali.
Olhos flutuando em
gotas flutuantes.
E o pensamento
todo
respingado
em versos.
Junho de 2012
E, quando eu já pensava
que a poesia
tinha resolvido
dar um tempo
de mim,
Olho pela janela
e vejo um ar pontilhado
por gotículas minúsculas.
Era uma chuva
tão leve e tão fina
que, por um momento,
eu não soube dizer
se as gotas caiam
ou flutuavam no ar.
E eu me deixei ali.
Olhos flutuando em
gotas flutuantes.
E o pensamento
todo
respingado
em versos.
Junho de 2012
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Olhos de Ver
Não sei se por benção
ou por sina
Se dom herdado
ou carma reencarnado
Se hábito de infância
ou gosto adquirido
Memória coletiva
ou lembrança individual
Mas nasci
com olhos de ver o minuto
e ouvidos de escutar o instante.
Me cativam o olhar efemeridades do mundo.
Sol entrando por fresta de persiana
Vento brincando de textura em espelho d'água
Sombra de nuvem criando tons de verde na montanha
Me encantam os ouvidos ruídos do dia.
Barulho de edredom roçando no corpo
Vento assobiando em fresta de janela
Som de água ecoando dentro do crânio embaixo do chuveiro
Me surpreendem sensações da vida.
E deixo a alma fabricar momentos.
Sol esquentando pele recém-saída de ar condicionado.
Luz do dia batendo em pálpebra fechada
quando eu paro,
ali na esquina,
para um suspiro.
Porque suspiro bom
é suspiro de olhos fechados.
Em átimos de encanto
colhidos no dia,
paro o pensamento
Só para me deixar sentir
a sensação que dá
estar viva.
E celebro!
Maio de 2012
ou por sina
Se dom herdado
ou carma reencarnado
Se hábito de infância
ou gosto adquirido
Memória coletiva
ou lembrança individual
Mas nasci
com olhos de ver o minuto
e ouvidos de escutar o instante.
Me cativam o olhar efemeridades do mundo.
Sol entrando por fresta de persiana
Vento brincando de textura em espelho d'água
Sombra de nuvem criando tons de verde na montanha
Me encantam os ouvidos ruídos do dia.
Barulho de edredom roçando no corpo
Vento assobiando em fresta de janela
Som de água ecoando dentro do crânio embaixo do chuveiro
Me surpreendem sensações da vida.
E deixo a alma fabricar momentos.
Sol esquentando pele recém-saída de ar condicionado.
Luz do dia batendo em pálpebra fechada
quando eu paro,
ali na esquina,
para um suspiro.
Porque suspiro bom
é suspiro de olhos fechados.
Em átimos de encanto
colhidos no dia,
paro o pensamento
Só para me deixar sentir
a sensação que dá
estar viva.
E celebro!
Maio de 2012
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Bússolas
Você sabe o que te move?
Você sabe o que te brilha o olho?
Não, eu não estou falando de precisões.
Não me refiro a contas pagas.
Nem a três refeições diárias.
Muito menos ao teto sobre a tua cabeça.
Nem mesmo ao afeto nas tuas relações.
Eu não falo de humanidades!
Falo daquilo que te identifica,
do brilho da tua retina,
do que te mantém desperto,
do que te acende,
do que te move.
Vontades?
Não.Vontade é uma coisa que dá e passa.
Eu falo da tua paixão!
Você sabe mesmo o que te move?
Porque, se não sabe, não vai a lugar algum.
Ou pior: vai a qualquer lugar.
E, se já sabe, eu te pergunto agora:
Você sabe quem te é caro?
Você sabe quem te brilha o olho?
Porque, se não sabe...
Sabe aquele lugar onde você está indo...?
Bom...lugares são só lugares,
coisas são só coisas,
feito são só acontecimentos.
No fim das contas, o que nos faz felizes
não é o "aonde",
não é o" que",
não é nem o "como"
A vida toda da gente se resume
a "com quem".
(Flávia Côrtes – Maio de 2012)
www.poetaflaviacortes.com.br
Textos devidamente registrados na Biblioteca Nacional e protegidos quanto aos seus direitos autorais.
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Poesia Falada: Confira tudo sobre o CD no link Verso em Voz
Maiores informações: contato@poetaflaviacortes.com.br
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sábado, 12 de maio de 2012
Abracadabra
A esta altura dos acontecimentos,
muitas coisas aconteceram
e algumas
desaconteceram.
Exatamente
como é para ser.
Não dá para controlar
tudo o que acontece
na vida da gente.
Mas o que desacontece?
Desacontecimentos nos pertencem!
Só desacontece
o que a gente permite
que desaconteça.
Então, se não quer
que desaconteça,
não deixe
desacontecer!
E, se quer
que desaconteça,
faça você mesmo
o movimento mágico.
Não precisa uma cartola,
não precisa um coelho,
não precisa lenço colorido,
não precisa assistente!
Olhe calmamente
para dentro de si.
Prenda o olhar
em você mesmo.
Senhoras e senhores,
como podem ver,
nada nesta mão
e nada
na outra!
Abracadabra!
Flávia Côrtes - Maio de 2012
www.poetaflaviacortes.com.br
A esta altura dos acontecimentos,
muitas coisas aconteceram
e algumas
desaconteceram.
Exatamente
como é para ser.
Não dá para controlar
tudo o que acontece
na vida da gente.
Mas o que desacontece?
Desacontecimentos nos pertencem!
Só desacontece
o que a gente permite
que desaconteça.
Então, se não quer
que desaconteça,
não deixe
desacontecer!
E, se quer
que desaconteça,
faça você mesmo
o movimento mágico.
Não precisa uma cartola,
não precisa um coelho,
não precisa lenço colorido,
não precisa assistente!
Olhe calmamente
para dentro de si.
Prenda o olhar
em você mesmo.
Senhoras e senhores,
como podem ver,
nada nesta mão
e nada
na outra!
Abracadabra!
Flávia Côrtes - Maio de 2012
www.poetaflaviacortes.com.br
Pesquisa básica sobre a origem da palabra, para quem tiver curiosidade de ler...
Há muitas coisas legais na Wikipédia sobre a palavra "Abracadabra"... eu separei para vocês só o que gostei mais:
Abracadabra é uma palavra mística usada como encantamento e considerada por alguns a frase mais pronunciada universalmente em outras linguagens sem tradução.
Etimologia (ADOREI ISSO!!)
Existem hipóteses estreitamente relacionadas acerca de sua origem:
Uma possivel fonte é o Aramaíco:אברא כדברא avrah kahdabra que significa:
"Eu crio enquanto falo"
Outra possível fonte é do Hebreu: Aberah KeDabar: "Irei criando conforme falo"
História (AMEI ISSO!!)
A primeira menção conhecida à mesma foi feita no segundo século depois de Cristo , durante o governo de Septímio Severo, num poema chamado De Medicina Praecepta (em um tratado médico escrito em versos), pelo médico Serenus Sammonicus, ao imperador de Roma Caracalla, que prescreveu que o imperador usasse um amuleto com a palavra escrita num cone vertical para curar sua doença:
A B R A C A D A B R A
A B R A C A D A B R
A B R A C A D A B
A B R A C A D A
A B R A C A D
A B R A C A
A B R A C
A B R A
A B R
A B
A
De acordo com Godfrey Higgins, tinha origem em "Abra" ou "Abar", o deus Celta, e "Cad", que significa Santo. Era usado como um talismã, com a palavra gravado sobre um Kameas (Amuleto quadrado), transformando-se em um amuleto.
Segundo, Helena Petrovna Blavatsky, Higgins estava quase certo, o termo era uma corruptela da palavra gnóstica "Abraxas" e essa, por sua vez, era uma corruptela de uma palavra antiga sagrada copta ou egípcia, uma fórmula mágica que significava "não me firas", sendo que seus hieroglifos se referiam à divindade como "Pai". Era comumente utilizado sobre o peito sob as vestimentas.
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segunda-feira, 7 de maio de 2012
Deixa eu
te dizer um verso novo?
Um poema é sempre inédito.
Ainda que você já o tenha lido.
É por isso
que você nunca termina
de ler um livro de Poesia.
Cada leitura desvenda
algo novo.
Mas não foi
o poema
que mudou.
Cada letra
ainda é a mesma letra
que o poeta escreveu.
É o olhar de quem lê
que ilumina o verso
com outras cores
outras sombras
outros brilhos.
Novos significados descobertos.
Ou, quem sabe, os mesmos
em alguém, agora,
diferente de si mesmo.
E se encanta novamente
é porque
encanta
uma nova
mente
Somos nós
que, milagrosamente,
nos modificamos a cada instante.
No momento
em que terminar de ler este poema,
você
já será outro.
E, no minuto exato,
em que eu terminar
de dizer este verso
eu
já serei outra.
Podemos, então, nós dois
recomeçar o verso
juntos.
E será um novo verso.
Um déjà vu encantado
da Poesia Humana.
Então,
deixa eu te dizer um verso novo?
Maio de 2012
Um poema é sempre inédito.
Ainda que você já o tenha lido.
É por isso
que você nunca termina
de ler um livro de Poesia.
Cada leitura desvenda
algo novo.
Mas não foi
o poema
que mudou.
Cada letra
ainda é a mesma letra
que o poeta escreveu.
É o olhar de quem lê
que ilumina o verso
com outras cores
outras sombras
outros brilhos.
Novos significados descobertos.
Ou, quem sabe, os mesmos
em alguém, agora,
diferente de si mesmo.
E se encanta novamente
é porque
encanta
uma nova
mente
Somos nós
que, milagrosamente,
nos modificamos a cada instante.
No momento
em que terminar de ler este poema,
você
já será outro.
E, no minuto exato,
em que eu terminar
de dizer este verso
eu
já serei outra.
Podemos, então, nós dois
recomeçar o verso
juntos.
E será um novo verso.
Um déjà vu encantado
da Poesia Humana.
Então,
deixa eu te dizer um verso novo?
Maio de 2012
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Bordado à Chuva
Pela vidraça,
cristais de chuva
escorrem em teias.
No ar,
um cheiro fresco
ecoa pingos.
Em delicado artesanato,
associo fonemas.
Suspendo o lápis,
agulha do invisível,
e prendo o pensamento
em fio prateado
para bordar em verso
o desenho que a chuva
escolheu
quando brincou de aranha
na tela da minha janela.
Desaprendo o mundo
no reflexo invertido
da gota.
E bordo.
(Flávia Côrtes - Abril de 2012)
www.poetaflaviacortes.com.br
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terça-feira, 17 de abril de 2012
Parto e Partitura
Uma palavra escrita no meio do papel
germinando um verso.
Assim me ensinava o poeta.
Lembrei da aula de ciências da pré-escola
da brancura do algodão rasgado
pelo germinar do broto verde
Achei bonito isso.
Queria eu ter uma criação assim.
Delicada e cuidadosa
Um parto de cegonha
Um escrever de agricultora
Queria eu plantar uma letra semente
em miolo de página branca
e ficar ali, paciente e maternal,
observando o brotar do grão.
Eu nunca consegui escrever olhando palavra.
E páginas brancas, no máximo,
me remetem a nuvens
ou a lençóis.
Eu só escrevo quando a Poesia olha para mim.
Às vezes, a Poesia se escancara em frente aos meus olhos
e as letras começam a me escorrer pelos dedos
sem que eu possa controlar.
É algo como peito de mãe
escorrendo leite no meio da rua
só porque ouviu choro de criança.
E nem era sua aquela criança.
Às vezes, estou quieta no meu canto
naqueles dias em que a gente acorda normal
naqueles dias em que a gente nem é poeta
um dia assim como o de hoje
Aí, vem uma lembrança ou um pensamento.
E, pelo canto do olho,
eu vejo a Poesia me olhando.
Já tentei, algumas vezes, desviar o olhar,
mas olho de Poesia prende olhar de Poeta.
Adeus, Dia Normal.
Cá estou eu de novo.
Escavo com as mãos versos ainda não escritos
como quem desenterra raízes.
Reconstruo jardins suspensos
ao toque de um dedo verde.
E o papel volta ao lençol.
Embrulho a cria e te entrego.
Embala.
Abril de 2012
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Espaço Aéreo
Há noites
em que cada um
alça vôo solo
quer por ebulição de idéias
quer por sede de silêncio
E se um busca casca
e casa vira casulo
O outro pega carona
em pé de vento
e acelera o pensamento
Um olhar desatento
os diria isolados.
Mas a sintonia dos paralelos
é justamente
esta.
Noite alta
horas lentas
idéias soltas
cada um em seu próprio ritmo
cada um em seu próprio mundo
e, ainda assim,
conectados.
Entre uma viagem e outra,
ele pousa um olhar carinhoso sobre ela.
Entre um poema e outro,
ela o presenteia um sorriso.
Olhar e sorriso se tocam.
Quase um roçar de pontas de asas
que se buscam durante o vôo.
Porque aqueles que se sabem
não precisam invadir
espaço aéreo do outro.
E se permitem.
Abril de 2012
terça-feira, 3 de abril de 2012
sexta-feira, 30 de março de 2012
O Som do Poema
Imaginas que o som do poema
vibra apenas se o dizes?
Pensas que o som do poema
ecoa apenas no teu pensamento?
O poema crepita e pulsa
alinhado com a tua alma.
E te equipa como a um morcego.
Sintoniza o teu vôo cego.
Então, encosta teu ouvido aborígene
nesta folha-solo
e percebe o mundo ancestral
que o poema te traz.
Fecha os olhos.
Sente o sussurro
suave ou forte do poema
ecoando nas membranas
do teu pensamento.
Abre a mente.
Percebe que o poema
sintoniza a tua freqüência
com o timbre lírico do mundo
que vibra alheio a tua ocupada vida.
E não te preocupas com a racional certeza
de que o som não se propaga no vácuo.
Ainda que tenhas tido o meticuloso cuidado
de lacrar hermeticamente a tua alma,
o som do poema traz dentro de si
sabedoria de Kabbalah.
É por isso que, ainda que tenhas te perdido de ti,
o som do poema ainda sabe o caminho.
E te ecoa
em mágica viagem da Palavra.
Escuta.
(Março de 2012)
Imaginas que o som do poema
vibra apenas se o dizes?
Pensas que o som do poema
ecoa apenas no teu pensamento?
O poema crepita e pulsa
alinhado com a tua alma.
E te equipa como a um morcego.
Sintoniza o teu vôo cego.
Então, encosta teu ouvido aborígene
nesta folha-solo
e percebe o mundo ancestral
que o poema te traz.
Fecha os olhos.
Sente o sussurro
suave ou forte do poema
ecoando nas membranas
do teu pensamento.
Abre a mente.
Percebe que o poema
sintoniza a tua freqüência
com o timbre lírico do mundo
que vibra alheio a tua ocupada vida.
E não te preocupas com a racional certeza
de que o som não se propaga no vácuo.
Ainda que tenhas tido o meticuloso cuidado
de lacrar hermeticamente a tua alma,
o som do poema traz dentro de si
sabedoria de Kabbalah.
É por isso que, ainda que tenhas te perdido de ti,
o som do poema ainda sabe o caminho.
E te ecoa
em mágica viagem da Palavra.
Escuta.
(Março de 2012)
segunda-feira, 26 de março de 2012
quarta-feira, 21 de março de 2012
A Olho Nu
Tem uma certa mágicaem descobrir a pessoa
por trás da pessoa
que a gente se acostumou
a olhar.
Cada um é um.
E, ao mesmo tempo,
é tantos.
Por trás de cada mãe,
uma mulher.
E, sendo mulher,
por trás de cada mulher que é,
tantas.
E outras.
Por trás de cada amiga,
uma mãe.
E, sendo mãe,
por trás de cada mãe que é,
tantas.
E muitas.
Por trás de cada amor
um homem.
E, sendo homem,
por trás de cada homem que é,
antônimo.
E atrás de cada face,
e por trás de cada fase,
cada um é camada
de si mesmo.
Homem,
mulher,
humano.
E, a cada um de nós,
que também somos tantos,
cabe a experiência
e a descoberta.
Se despe dos olhos de filho.
Esvazia retinas amigas.
Desnuda teu olhar de amante.
E, a olho nu,
descobre a outra história.
Pergunta a nova opinião.
Observa o gesto além do gesto.
Aprende o riso que não é espelho.
Não da uma que você já conhece,
nem da outra que você já esperava,
nem daquele que você já sabia,
mas de quem você vai ver
surgir
agora.
Aprende que
"várias"
é mais que palavra feminina
nascida plural.
É Palavra Humana.
Textos devidamente registrados na Biblioteca Nacional e protegidos quanto aos seus direitos autorais.
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