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sábado, 5 de fevereiro de 2011



Amazona

Na folha branca,
pastam idéias.

No lápis,
o laço.

Em horas brancas,
trotam versos
selvagens.

No olhar da poeta,
um tanto de Hipólita.

No olhar do poema,
um tanto de Pégaso

Não se sabe ainda
quem domando
quem.



(Flávia Côrtes - Fevereiro de 2011)

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Textos devidamente registrados na Biblioteca Nacional e protegidos quanto aos seus direitos autorais.
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Água Raz

Ah, meu amor,
mas isso foi há tanta horas.

As horas dissolvem o desejo.

Só não me olhe assim,
ou o desejo dissolve as horas!

Ah, meu amor, já são tantos os dias...

Quem foi que disse
que os dias dissolvem a vontade?

De certo
alguém que não sabia
dissolver as horas!


Flávia Côrtes - Fevereiro de 2011


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Poema a quatro mãos

Você entrou em mim como um poema
Cada toque
Cada beijo
Reverbando sob pele
Em ecos

Poeta de nós dois
Fez de mim
Poesia

Fevereiro de 2011

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011


O meu verso... o seu verso... o nosso verso

E quando eu escrevo sobre o sentimento
E não sobre o fato
O poema ganha
Universalidade
E vira de todo mundo

Porque o sentimento
é igual
para todo o mundo

Ele só se veste de forma diferente
Nas diferentes vidas das pessoas
Nas diferentes situações
Em que nos encontramos
Todos

Pessoas
Iguais
Humanos

Janeiro de 2011

Vocação

Tuas pernas entrelaçando as minhas no sono
Tua mão me segurando a cintura
O livro do Rubem Braga me prendendo o pensamento
E o relógio avisando que está na hora

Por que manhãs de segunda-feira
Se vestem de domingo,
meu Deus?

Janeiro de 2011

Olhos em Luz

A bola dourada do sol
namorando nuvem
me prende retina.
Me cega em luz.

Não, eu não esqueci
que não se encara Sol
com olhos nus.

Escolhi olhar mesmo.

Janeiro de 2011
Sonolência

O dia me sussurra encanto
Me mostra desenhos de luz e sombra
em teto branco

Rubem Braga me conta causos
de Cajueiros e Amadas
Pernas entrelaçam travesseiros
E as horas
Me pesam pálpebras

Devaneio pela Palavra - Janeiro 2011

Neblina

Hoje a manhã nasceu com saudades de anteontem
Espalhando brumas ancestrais em volta da montanha
Para lembrar a história
Antes da história

Devaneio pela palavra - Janeiro 2011

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Exemplos

Meus pais me doaram muitas coisas nesses muitos anos de aprendiz. Sim, porque filhos são aprendizes. Com sorte, aprendizes de seus Pais. Se a Vida assim não permitir, aprendizes da Vida mesmo - que mais cedo ou mais tarde adota todos os filhos, de qualquer forma.

Não vou discorrer aqui sobre todo o riso, toda a serenidade, toda a eletricidade ou todo o amor que minha mãe imprimiu em mim em todos estes anos. Nem vou contar das lições de Humanidade pontilhadas nos meus dias desde sempre. Hoje, conto para vocês só do Exemplo Feminino.

Conto do tanto de mágico que foi ver, nos incontáveis dias de minha infância, aquela dona de casa se arrumando logo cedo: perfume, batom e vestido para o expediente de mãe e esposa.

Foi minha mãe que me ensinou, por exemplo, que perfume é algo que se passa porque é bom da gente mesma sentir o cheiro. Levou anos para eu perceber que a gota atrás da nuca nunca faltou.

Minha mãe, neste ano, faz 70 anos. E você pode chegar na sua casa a qualquer hora do dia que vai encontrá-la em lavanda e vestido. Os 40% de perda óssea que a Osteoporose roubou de seu esqueleto e os quase 50% de capacidade pulmonar que a Enfisema levou do seu fôlego a impedem de algumas coisas. Mas só algumas. Não consegue mais, por exemplo, curvar-se, depois do banho, para o ritual diário de lixa e creme nos pés.

Semana passada, meus pais vieram passar uns dias aqui em casa. E eu descobri que meu pai, aos 72 anos, cuida dos pés da minha mãe, com lixa, creme e conversa e, enquanto faz isso, leva nos olhos Lavanda.

Meu pai me doou muitas coisas nesses muitos anos de aprendiz. Hoje, eu contei para vocês só o Exemplo Masculino.

Janeiro de 2011

domingo, 2 de janeiro de 2011

Ensaio sobre o “Não"

Acontece que o meu
Não
é um tantinho
subversivo

Tenho um
Não Saber
Curioso

E um
Não Poder
Imprudente

Meu
Não Ser
É criativo

E o meu
Não Querer...
Ah, o meu Não Querer...

Este
Só conhece o limite
da minha Vontade

Não, não é preguiçoso
o meu
Não Querer!

Só que o pobrezinho
apaixonou-se, há anos,
pela minha Vontade

Derrete-se todo
ao primeiro sorriso dela

É só a minha Vontade
olhar para ele
e pronto!
O meu Não Querer
vira "nãozinho"!

Pois é,
de todos os meus
Nãos
o que me dá mais trabalho

É este
Apaixonado
Não Querer!

Janeiro de 2010

sábado, 25 de dezembro de 2010

Fronteiras

Sei que a ti parece
que vivo a vida em verso.

É que eu sou feita
de carne, osso e Poesia

Em mim,
o Pensamento coexiste com o Sonho
e o Real
admite o Lúdico.

Só que o lúdico dos meus dias
não me embota olhar
ou imobiliza braços!

Da mesma forma,
a mulher existe na poeta

Ou a Poeta na Mulher!

E onde fica
a fronteira
do lírico
e do não-lírico?

Importa?

Bom,
se acha mesmo que sim,
vai ter que descobrir!

E, aí,
me faz um favor?

Não me conta!

Dezembro de 2010

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010


Poema-encanto

Leu-me como quem via
Inteira
Entrelinhas

E, em poema-encanto,
me fez Poesia

E se me lê como quem me vê...
E se me escuta como quem me toca...
E se me escreve como quem me sabe...

... que faço eu, agora,
que me descubro
Verso?

Dezembro de 2010

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Vôo Livre

Como posso caminhar em direção a abismos com essa naturalidade de quem tem asas?

Bem, talvez eu tenha.

Dezembro de 2010

sábado, 18 de dezembro de 2010



Certeza do "Não-Ser"


O que me incomoda não é a incerteza do Amanhã.
A Incerteza faz parte do Amanhã.
E isso é bom!

Que graça tem um grão com a certeza da flor?

O que me incomoda é essa certeza do "Não-Ser".
É esse antecipado saber.
Esse caminhar despreocupado para o "Não".

Eu me convenci que podia.
E me convenci que queria.

Só que, agora, diante do encanto,
diante de tanto,
percebo o que vai ser.

E isso não vai ser bom.
Porque, hoje, está bom demais!

Então, eu te conto:
Eu gosto, sim, do incerto.
O incerto me instiga.

Mas "incerto" não é certeza do "Não".
É possibilidade do "Sempre".

Se, para estar do teu lado,
é preciso caminhar para o "Não",
então, digo eu o "Não!".

Guardo o encanto,
interrompo o toque,
recolho o riso.

Te beijo e me vou.
Para um amanhã de possibilidades.

Porque te gosto.
Mas também ME gosto!

E eu
cuido de mim.

(Flávia Côrtes - Dezembro de 2010)
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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Mergulhada no Efêmero

Quando dei por mim
estava
despida de ontem
nua de amanhã
mergulhada no efêmero

E achei bom.

Você me diz
sonho
E me olha
como se eu fosse
me dissipar
em brumas

Eu acho graça

E até acho que gosto
de ser sonho

Está bem, confesso.
É que eu gosto de sonhos.

E, de vez em quando,
eu me dissipo mesmo
e, depois,
me refaço

inteira
ou inteiramente nova

Então
você só precisa
me sonhar de novo
amanhã
e depois de amanhã

Porque eu
acredito em sonhos

E já me acostumei
a viver os meus!

Dezembro de 2010

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Redescoberta

Colchão, lençol e travesseiros
acomodei-me sob o céu.

Sentimento exato
de quando tinha dez anos
e minha mãe me permitia
dormir no quintal.

Olhos poetas
vasculham céu sem estrela
aprendendo nuances da noite.

Barulho de vento brincando com folha
em ventilador sem hélice.

Conversa e risada ao longe
em novela do cotidiano.
Ruídos da vida embalando sono.

Vento morno
sopra pele sob lençol fino
e emaranha cacho de cabelo
em preguiçoso cafuné.

Em redescoberta de ar
que não é condicionado,
levo dentro de mim
ar livre!


Dezembro de 2010

domingo, 5 de dezembro de 2010


Quase Verão


Calor horrível
de céu nublado para sempre
que não chove nem deixa de chover

Calor que entranha
em poro e pele
e dá vontade de chuveiro frio
de meia em meia hora

Calor que
embota pensamento
desacelera respiração
entorpece vontade

Dá uma vontade de nada
Pálpebra pesada na face suada

Raio de ar condicionado quebrado!

Dezembro de 2010

sábado, 4 de dezembro de 2010


Amanhã também

A burguesia não se importa com o outro.
O operário não se importa com o outro.
Meu Deus, quem é que se importa?

O ser humano é que não desapega do umbigo.


Todo mundo é bom.
Todo mundo quer bem.
Ninguém nunca fez mal.
Será que alguém fez bem?

Acorda, levanta, trabalha.
Café da manhã, almoço e janta.
Jornal Nacional.
Boa noite, meu bem.
E amanhã também.

Acorda, levanta, procura emprego.
Arroz com feijão, graças a Deus.
Jornal Nacional.
Boa noite, meu bem.
E amanhã também.

Na Urca,
o aposentado não vê
que tem fome na esquina.

Na Tijuca,
a dona de casa não vê
que tem fome na esquina.

Em Realengo,
o trabalhador não vê
que tem fome na esquina.

O ser humano é que não desapega do umbigo.


Todo mundo é bom.
Todo mundo quer bem.
Ninguém nunca fez mal.
Será que alguém fez bem?

E, enquanto
boas intenções enchem o Inferno,
nas esquinas transitam
nossas crianças.

Há fome na esquina.
E não é só de pão.
Não dá no Jornal Nacional.
Boa noite, meu bem.

E amanhã
também?

 (Flávia Côrtes - Dezembro de 2010)

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terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Livro e Eu

Por favor,
não arrumem
os meus livros.

É assim mesmo
que gosto deles

Espalhados pela casa

Tem dia
que me provocam

Não posso sentar
quieta na varanda
sem que Adélia
Lucinda
ou Clarice
fiquem puxando assunto!

Tem dia
que me consolam

Veríssimo
espera comigo
ferver a água do café

E Drummond
me vela o sono

Por favor
não desmarquem
os meus livros!

É assim mesmo
que gosto deles

Com dobrinhas nas páginas
Não se escandalize

Não, não são dobrinhas apenas...
São declarações de amor

Se eu fosse um livro
ia querer dobrinhas!
E anotações!

São como rugas
Sinal de que viveram
Sinal de que alguém
algum dia
se apaixonou por ele
chorou com ele
riu com ele

Então
que fiquemos assim
meu livro e eu

espalhados pela casa
e fazendo questão
de cada uma
de nossas rugas!

Novembro de 2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010


E essa história me veio inteira na memória...

Quando eu tinha 12 anos, indo para a escola, um menino de rua cruzou comigo e me deu um olhar de raiva e um tapa. O tapa doeu. O olhar doeu. Nunca ninguém havia me odiado antes.

Minha mãe me contou que a raiva do menino não era de mim. Era de todo mundo. E que o tapa não era em mim. Era na vida. Eu não entendi bem o que eu tinha com isso, já que não me batizaram “Vida” e eu nunca havia machucado ninguém. Minha mãe me disse que um dia eu entenderia o menino e aceitaria os motivos dele.

Eu cresci. Entendi o menino. Os motivos...? Entender não é aceitar.

Novembro de 2010