Ô, Mãe...
A brancura do domingo
tornava lícita a preguiça
que fazia da tarde
manhã.
Propostas de passeios
perdiam a preferência
para livros
agarrados a travesseiros.
(E o poema fugiu com um
"ô, Mãe, a gente vai passar o dia todo na cama????")
Flávia Côrtes - Outubro de 2015
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quarta-feira, 7 de outubro de 2015
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
Muito Minha
Sobrinho é algo fantástico de se ter. A gente segura pela primeira vez e se apaixona. E apaixona antes mesmo de saber como vai ser.
Deve ser porque é algo como ter filho sem precisar gestar os nove meses. Com a Rafaela foi assim. Paixão a primeira vista.
Eu lembro de ficar olhando pelo vidro na maternidade e não querer sair dali nunca mais... vontade de ficar olhando para sempre.
E isso foi bem antes dela se tornar isso tudo que ela é hoje.
Dá para resumir isso tudo em uma folha ofício? Não sei não. Como é que eu conto em uma folha ofício o dia em que, aos sete anos, me confidenciou: "Tia Flávia, este ano eu vou mudar a minha vida". E eu: "É mesmo, querida? O que você vai fazer?". E ela: "Vou ser cantora". (E ela achou o Coral e foi lá ser cantora.)
E como eu conto,numa folha ofício,o dia em que ela me ligou para eu ensiná-la como fazer um poema? E sobre a caneca com desenhos do que "só uma Tia faz"? E sobre as fotos "selfies" tiradas juntas? E, ainda, sobre as inúmeras vezes que ela me desembaraçou os cabelos e penteou? E sobre as conversas quase adultas desde que aprendeu a falar? E sobre a surpresa que me fez cantando no lançamento do meu livro?
Como é que eu conto esses 14 anos em que você está por aqui brilhando? Não vai caber aqui, não, Passarinha.
Uma vez você me perguntou porque eu te chamo de Passarinha. Você era muito pequena. Tinha uns 6 anos. Não sei se lembra disso.
A resposta ainda é a mesma: porque você é linda e livre. Amo você, querida.
(Flávia Côrtes - Setembro de 2015 -
hoje só Tia Flávia)
Sobrinho é algo fantástico de se ter. A gente segura pela primeira vez e se apaixona. E apaixona antes mesmo de saber como vai ser.
Deve ser porque é algo como ter filho sem precisar gestar os nove meses. Com a Rafaela foi assim. Paixão a primeira vista.
Eu lembro de ficar olhando pelo vidro na maternidade e não querer sair dali nunca mais... vontade de ficar olhando para sempre.
E isso foi bem antes dela se tornar isso tudo que ela é hoje.
Dá para resumir isso tudo em uma folha ofício? Não sei não. Como é que eu conto em uma folha ofício o dia em que, aos sete anos, me confidenciou: "Tia Flávia, este ano eu vou mudar a minha vida". E eu: "É mesmo, querida? O que você vai fazer?". E ela: "Vou ser cantora". (E ela achou o Coral e foi lá ser cantora.)
E como eu conto,numa folha ofício,o dia em que ela me ligou para eu ensiná-la como fazer um poema? E sobre a caneca com desenhos do que "só uma Tia faz"? E sobre as fotos "selfies" tiradas juntas? E, ainda, sobre as inúmeras vezes que ela me desembaraçou os cabelos e penteou? E sobre as conversas quase adultas desde que aprendeu a falar? E sobre a surpresa que me fez cantando no lançamento do meu livro?
Como é que eu conto esses 14 anos em que você está por aqui brilhando? Não vai caber aqui, não, Passarinha.
Uma vez você me perguntou porque eu te chamo de Passarinha. Você era muito pequena. Tinha uns 6 anos. Não sei se lembra disso.
A resposta ainda é a mesma: porque você é linda e livre. Amo você, querida.
(Flávia Côrtes - Setembro de 2015 -
hoje só Tia Flávia)
sábado, 12 de setembro de 2015
Caso, Descaso ou Acaso
Talvez fosse o caso
da gente ser mais
convencional.
Fazer algumas coisas
independentes.
Fingir que está
tudo bem.
Não dizer,
deixar para lá.
Talvez fosse mesmo o caso
da gente ser menos
passional.
O caso
é que para a gente ser
um pouco mais assim
como todo mundo,
teria que ser
um pouco menos.
É esse o caso.
(Porque é que a gente
sempre diz
tudo?)
Flávia Côrtes
Setembro de 2015
Talvez fosse o caso
da gente ser mais
convencional.
Fazer algumas coisas
independentes.
Fingir que está
tudo bem.
Não dizer,
deixar para lá.
Talvez fosse mesmo o caso
da gente ser menos
passional.
O caso
é que para a gente ser
um pouco mais assim
como todo mundo,
teria que ser
um pouco menos.
É esse o caso.
(Porque é que a gente
sempre diz
tudo?)
Flávia Côrtes
Setembro de 2015
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
domingo, 26 de julho de 2015
Rio Riacho
Nasci numa cidade à beira-mar
encrustada entre montanhas
e com uma floresta no meio.
Isso garante uma umidade
quente e constante.
O verão goteja nas frontes
e o inverno
tem alguns dias ao ano
e só.
Quem não gosta de água
deve evitar morada no
Rio de Janeiro.
Não é nem que chova.
Na verdade,
quase não água por fora.
É que a cidade transpira.
Quem olha o ar em dezembro
enxerga o calor incolor
evaporado do asfalto
e denunciado em termômetros
e sabe
que os elevados graus descritos
são bem inferiores
à sensação térmica
de vulcão à sombra.
Julho mostra moças
de mangas compridas e shorts
passeando nas manhãs de domingo.
E a cidade acorda sob edredons
ainda que haja, frequentemente,
ar condicionado nos quartos
só para garantir o conforto
da manhã quase fria
nesse meio inverno.
As árvores mostram
orquídeas floridas.
Nas calçadas, folhas outonais
se recusam a ranger sob os passos.
É que numa cidade-água
amendoeira em julho
até veste por do sol
e decora calçada,
mas se prefere silêncio.
E o poema escuta.
(Flávia Côrtes - julho de 2015)
Nasci numa cidade à beira-mar
encrustada entre montanhas
e com uma floresta no meio.
Isso garante uma umidade
quente e constante.
O verão goteja nas frontes
e o inverno
tem alguns dias ao ano
e só.
Quem não gosta de água
deve evitar morada no
Rio de Janeiro.
Não é nem que chova.
Na verdade,
quase não água por fora.
É que a cidade transpira.
Quem olha o ar em dezembro
enxerga o calor incolor
evaporado do asfalto
e denunciado em termômetros
e sabe
que os elevados graus descritos
são bem inferiores
à sensação térmica
de vulcão à sombra.
Julho mostra moças
de mangas compridas e shorts
passeando nas manhãs de domingo.
E a cidade acorda sob edredons
ainda que haja, frequentemente,
ar condicionado nos quartos
só para garantir o conforto
da manhã quase fria
nesse meio inverno.
As árvores mostram
orquídeas floridas.
Nas calçadas, folhas outonais
se recusam a ranger sob os passos.
É que numa cidade-água
amendoeira em julho
até veste por do sol
e decora calçada,
mas se prefere silêncio.
E o poema escuta.
(Flávia Côrtes - julho de 2015)
domingo, 5 de julho de 2015
Inquietude
Cansada demais para dormir.
Agitada demais para descansar.
Dispersa demais para trabalhar.
Flávia Côrtes
(Fevereiro de 2015)
Nota da autora: este escrevi em outro tempo... esperava o poema inteiro ainda, mas percebi que ele está inteiro. Nem sempre precisa de várias estrofes para se dizer o que há para dizer. Vi que faltava só o título... e coloquei hoje. :)
Cansada demais para dormir.
Agitada demais para descansar.
Dispersa demais para trabalhar.
Flávia Côrtes
(Fevereiro de 2015)
Nota da autora: este escrevi em outro tempo... esperava o poema inteiro ainda, mas percebi que ele está inteiro. Nem sempre precisa de várias estrofes para se dizer o que há para dizer. Vi que faltava só o título... e coloquei hoje. :)
Aprendizagens
Manhãs de inverno
não são feitas
de ar gelado
apenas.
Tem um tanto
de reflexão embrulhada
na preguiça desse edredom.
É que as minhas palavras
precisam de silêncio
para brotar.
Nesse silêncio-chão,
nessa quietude-sopro,
voam e germinam
pensamentos-palavras.
Viver o Agora
é mais que uma escolha
é compromisso pessoal
com a Possibilidade.
É que Nada mais vai ser
se o Agora não for.
E a Vida merece mais
do que um ser-sobrevivente,
espectador esperando Godot.
Eu descobri que aprendizados
são como cicatrizações sem pontos.
Só acontecem
quando de dentro para fora.
E se palavra não dita
ecoa por dentro,
a palavra dita e liberta
alforria a alma
de ruminar pretéritos
- sejam estes futuros
ou passados.
Agora
eu preciso ir.
Tem um dia novinho em folha
me esperando
logo ali.
(Flávia Côrtes - julho de 2015)
Manhãs de inverno
não são feitas
de ar gelado
apenas.
Tem um tanto
de reflexão embrulhada
na preguiça desse edredom.
É que as minhas palavras
precisam de silêncio
para brotar.
Nesse silêncio-chão,
nessa quietude-sopro,
voam e germinam
pensamentos-palavras.
Viver o Agora
é mais que uma escolha
é compromisso pessoal
com a Possibilidade.
É que Nada mais vai ser
se o Agora não for.
E a Vida merece mais
do que um ser-sobrevivente,
espectador esperando Godot.
Eu descobri que aprendizados
são como cicatrizações sem pontos.
Só acontecem
quando de dentro para fora.
E se palavra não dita
ecoa por dentro,
a palavra dita e liberta
alforria a alma
de ruminar pretéritos
- sejam estes futuros
ou passados.
Agora
eu preciso ir.
Tem um dia novinho em folha
me esperando
logo ali.
(Flávia Côrtes - julho de 2015)
terça-feira, 9 de junho de 2015
sábado, 23 de maio de 2015
Primeiro Maio
Primeiro Dia das Mães sem Mamãe
Primeiro Dia das Mães com Sophia
Já há uma semana que não tem sido fácil.
Sim, Sophia ameniza tudo.
Há dias que ela me faz pequenos presentes de Dia das Mães. Me entrega uma folha branca que ela conta que é uma barquinho (e agora é). Me dá uma caixinha com papel picado dentro que faz barulhinho quando sacode e ela diz que é uma caixinha de música (e agora é). Me dá desenhos, abraços, carinhos... intercalados com um "feliz dia das mães... todos os dias esta semana.
Hoje, Sophia e Everson me acordariam à meia noite, com beijos e bombons. E ela estava tão feliz com a surpresa que não tinha como eu ficar triste. Fui dormir acalentada por este sentimento bom.
Mas os dias tem 24 horas e, em semana de Dia das Mães, não tem como não ter saudades.
Quase um ano depois, nem toda saudade de mamãe é lágrima. Muitas vezes, a lembrança é riso.
Como aquele dia em que ela me pediu um radinho de pilha porque a TV quebrou... e é claro que ela ganhou a televisão E o radinho.
Mas, apesar de tudo que ameniza esse estranho e novo mês de maio:
não, não têm sido dias fáceis.
Não têm, não.
(Flávia Côrtes - maio de 2015)
Primeiro Dia das Mães sem Mamãe
Primeiro Dia das Mães com Sophia
Já há uma semana que não tem sido fácil.
Sim, Sophia ameniza tudo.
Há dias que ela me faz pequenos presentes de Dia das Mães. Me entrega uma folha branca que ela conta que é uma barquinho (e agora é). Me dá uma caixinha com papel picado dentro que faz barulhinho quando sacode e ela diz que é uma caixinha de música (e agora é). Me dá desenhos, abraços, carinhos... intercalados com um "feliz dia das mães... todos os dias esta semana.
Hoje, Sophia e Everson me acordariam à meia noite, com beijos e bombons. E ela estava tão feliz com a surpresa que não tinha como eu ficar triste. Fui dormir acalentada por este sentimento bom.
Mas os dias tem 24 horas e, em semana de Dia das Mães, não tem como não ter saudades.
Quase um ano depois, nem toda saudade de mamãe é lágrima. Muitas vezes, a lembrança é riso.
Como aquele dia em que ela me pediu um radinho de pilha porque a TV quebrou... e é claro que ela ganhou a televisão E o radinho.
Mas, apesar de tudo que ameniza esse estranho e novo mês de maio:
não, não têm sido dias fáceis.
Não têm, não.
(Flávia Côrtes - maio de 2015)
Cotidiano
conta a canção
de um amor rasgado e passional.
Depois da faxina, na varanda, brincam
a menina, o homem e o cão.
Na cozinha,
a mulher, o feijão
e o Poema.
A olhar de fora,
um sonho americano.
A viver por dentro,
pura realidade
brasileira e Humana
de dias feitos de cotidiano,
despertadores às seis da manhã
e contas de luz em Bandeira Vermelha.
A cena da novela não conta,
mas ao jantar em família,
antecede o fogão
e sucede a louça.
O comercial dá bom dia
sem mostrar a noite insone
de pais escalados na madrugada,
Plantão Sagrado de quem vela
um sono-criança.
A vida ao vivo recusa etiquetas
e existe todo dia
risonha ou preocupada,
desperta ou sonolenta,
terna ou irritada.
E está aí a Beleza
dos que se escolhem todo dia
porque se amam.
(Flávia Côrtes - maio de 2015)
quinta-feira, 7 de maio de 2015
Ponteiros
O amor para ser pleno
tem que encontrar plenitude
do outro lado do espelho.
E aí, sim,
toda espera
vira eternidade.
Cada hora
parece mais
que sessenta minutos.
Cada minuto
dura mais tempo.
É que já se gastou
todos os tempos
longe um do outro
antes de se conhecer.
Abençoada vida esta
em que a gente
se encontrou.
(Flávia Côrtes - março de 2015)
O amor para ser pleno
tem que encontrar plenitude
do outro lado do espelho.
E aí, sim,
toda espera
vira eternidade.
Cada hora
parece mais
que sessenta minutos.
Cada minuto
dura mais tempo.
É que já se gastou
todos os tempos
longe um do outro
antes de se conhecer.
Abençoada vida esta
em que a gente
se encontrou.
(Flávia Côrtes - março de 2015)
terça-feira, 28 de abril de 2015
domingo, 29 de março de 2015
Invenções
A gente vive uma vida inventada.
E o invento
tem assinatura:
a tua.
Não me entenda mal.
Ninguém disse aqui
que podia você
inventar-se em Cancoon
nesta manhã.
Mas boa parte das linhas
da página de hoje
saíram do teu lápis
planejado ou descuidado
no capítulo anterior.
Tem digitais tuas
em cada página virada.
Tem tua ausência
em cada capítulo pulado.
A grafia não nega:
sem méritos ou deméritos,
o texto é teu.
Despertador às seis
ou travesseiro sem pudor
ao meio dia?
Invenção tua.
Rotina que instiga
ou aborrece?
Invenção tua.
Está bom para você?
Aplausos.
Nem tanto assim?
Reinventa, inventor!
(Flávia Côrtes - março de 2015)
A gente vive uma vida inventada.
E o invento
tem assinatura:
a tua.
Não me entenda mal.
Ninguém disse aqui
que podia você
inventar-se em Cancoon
nesta manhã.
Mas boa parte das linhas
da página de hoje
saíram do teu lápis
planejado ou descuidado
no capítulo anterior.
Tem digitais tuas
em cada página virada.
Tem tua ausência
em cada capítulo pulado.
A grafia não nega:
sem méritos ou deméritos,
o texto é teu.
Despertador às seis
ou travesseiro sem pudor
ao meio dia?
Invenção tua.
Rotina que instiga
ou aborrece?
Invenção tua.
Está bom para você?
Aplausos.
Nem tanto assim?
Reinventa, inventor!
(Flávia Côrtes - março de 2015)
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
domingo, 21 de dezembro de 2014
Caligrafia
Num quarto, a criança dorme.
No outro, o homem dorme.
Na pia, dorme a louça.
E dorme, no tanque, a roupa.
Na sala, a poeta acordada
percorre versos de outra poeta.
A manhã passeia encantada
em seis
talvez oito
poemas.
A infância em flanela azul e chupeta
chega sonolenta e se aninha
no colo abaixo do livro.
Tem poema mais doce
que criança adormecida em colo junto ao livro?
"Mamãe, meu mamazinho..."
O dia acorda.
Mas não antes que o poema.
(Flávia Côrtes - dezembro de 2014)
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Na madrugada tênue,
pequenos passos
leves e silentes
despertam olhos maternos
como não conseguem
despertadores nem alvoradas.
Que mistério é esse que une
teu despertar ao meu?
Na penumbra do quarto
olhos pacientes
agora despertos
esperam um sono
que não é meu.
A respiração
da criança aninhada
ainda é leve e conta
que ainda é cedo.
Um suspiro profundo
mostra o mergulho
no sono mais denso.
Meus olhos enfim pesam.
Que mistério é esse que une
meu sono ao teu?
(Flávia Côrtes - Dezembro de 2014)
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