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sexta-feira, 24 de maio de 2013


Boreais

Corpos desenhados
na penumbra
em relevo do desejo.

Dois intensos
e o que não se evita.

Dedos e línguas em labaredas
como fogo morro acima.

Desejo líquido escorre
como água encosta abaixo.

Ventos solares incendeiam
e o poente alvorece
no grito úmido
da aurora.

(Flávia Côrtes - Maio de 2013)


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Textos devidamente registrados na Biblioteca Nacional e protegidos quanto aos seus direitos autorais.


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domingo, 19 de maio de 2013



Estranha

Sei que gosto de um livro de poemas quando me pego dizendo trechos em voz alta,
repetindo-os, dando risada em algumas partes. E, se o verso for muito bom, eu preciso levantar e caminhar um pouco para dizê-lo mais uma vez.

Alguém que me veja lendo, em uma praça ou varanda, há de pensar:
"Que moça estranha aquela...!"

É que a poesia,
quando ecoa em mim,
meio que transborda.

E eu não sou silenciosa
naquilo que me transborda.

Agora mesmo, é sábado,
há cinco travesseiros espalhados na cama,
a voz da Sade enche o quarto,
há um Leminski aberto ao meu lado
e eu aqui, conversando sobre abstratos.

"De fato, estranha esta moça...!"

(Flávia Côrtes - Maio de 2013)


Entrelinhas


Ainda era quase
e já era tanto.

Teus olhos pousados
em minhas entrelinhas.
enquanto espero.

Uma sensação boa.
Uma mistura de riso com vontade.

Um jeito de não digo
porque não sei.

Mas sei que quero.

(Flávia Côrtes - Maio de 2013)



Por Tanto

Ainda que quase nublado, céu.
Portanto, lindo.

Ainda que um pouco cinza, manhã.
Portanto, clara.

Ainda que muito cansada, domingo.
Portanto, bem.

Ainda que um pouco tensa, poeta.

Então, por tanto
ou por tão pouco
eu verso.

Pronto.
Poema.

(Flávia Côrtes - Maio de 2013)

terça-feira, 14 de maio de 2013



Coletivos

Enquanto você for
ombro e mão,
sempre haverá mais gente em volta
do que quando você for boca
ou precisar de chão.

(Flávia Côrtes - Maio de 2013)
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segunda-feira, 13 de maio de 2013



Azul Rendado


Os olhos da mulher buscavam
o céu azul por trás
da delicada renda branca
das nuvens.

As mãos do homem descobriam
a pele branca por baixo
da delicada renda azul
da mulher.


A cidade abaixo.
A paixão acima.

Em renda, agora vermelha,
dois incendiavam
o poente.

A noite soprou o sol
e acendeu luzes douradas
dentro deles.

Flávia Côrtes - Maio de 2013 





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quinta-feira, 9 de maio de 2013


Querer é fácil?

Talvez.
Mas essencial.
Sem querer, não há poder.

O vento e as velas
podem te conduzir,

mas é a força da tua vontade
que não te deixa
à deriva.

(Flávia Côrtes - Maio de 2013)

quinta-feira, 2 de maio de 2013


Fórmulas

Nada é tão simples assim.

Um cheiro de café
não é só um cheiro de café.
É um sabor de pausa,
um desacelerar,
uma renovação.
2% de cafeína
diluída em outras substâncias
não explicam isso.

O gosto da água
não está escrito
em insossas enciclopédias.
É o avesso da sede.
Um alívio,
um frescor.
2 átomos de hidrogênio
abraçados a oxigênio
não contam isso.

Um feijão de mãe
nunca precisou de mais do que
alho, sal e cebola
para ser inesquecível.

O olhar do teu amigo
dispensa legendas.

Então, porque este esforço todo
para entender
100% do que
sente
ou quer?

Não precisa ser
tão complexo
assim.

Viva!

(Flávia Côrtes - Maio de 2013)

domingo, 28 de abril de 2013



(C)oração

Que a sua boa intenção
jamais ofusque
o seu bom senso.

Porque desde que o mundo é mundo
enche-se o inferno
de boa vontade.

Que a sua boa vontade
não te leve
à indelicadeza.

Se levas flores no peito,
não esqueças
de descalçar os coturnos.

Porque não é de hoje
que marcham exércitos
sobre terras santas.

Abençoadas as mães
que ensinam aos filhos:
"Obrigado!"
"Por favor!"
E "Desculpe-me!"

Lembra, então, Coração:
"Como é que se fala...?"


(Flávia Côrtes - abril de 2013)

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quinta-feira, 25 de abril de 2013



Motivos


Uma vez me perguntaram

porque eu amava alguém.

Deixei em branco a questão.


Se eu soubesse o motivo

era mais fácil desamar.

Eu só amava.


É que vida não é coisa de pensar

é coisa de viver.

A boa nova
é que a lua está bonita hoje
e fez luar em mim.

(Flávia Côrtes - Abril de 2013)

quarta-feira, 24 de abril de 2013



Vermelho-Céu

A saudade incendiou
as asas douradas da manhã
e tingiu de um vermelho poente
o raiar do dia.

A cidade sonolenta não viu
e, então, não precisou entender
o crepúsculo que incendiou o azul 
naquela manhã de outono.

Apenas dois
sabiam.

(Flávia Côrtes - Abril de 2013)






segunda-feira, 22 de abril de 2013


Nove Luas

Toda mulher,
não importa a idade,
leva dentro de si tantas
e tão outras.

Diferentes de si mesma.
E, ainda assim,
a mesma.

Ainda que o mundo
a veja uma,
toda mulher é muitas.

Algumas vezes,
ela mesma,
acostumada que é ao espelho,
fixa-se por muito tempo
em apenas uma das faces.

E assim se mostra a todos.
Inclusive a si mesma.

Mas um ser que sangra
ou pari
em diferentes fases da lua
e que tem um corpo-casulo,
ainda que não saiba,
ainda que não queira,
muda.

Toda mulher é mãe de si mesma.

Mais dia, menos dia,
se concebe outra.

Mais ano, menos ano,
gesta-se novamente.

E, em uma noite dessas,
numa lua assim,
no quarto da velha,
a dor, o grito e o choro
viram riso.

Olha!
É uma menina!


(Flávia Côrtes - 22 de abril de 2013 às 12:20h)

domingo, 21 de abril de 2013


Proximidade

Talvez um pensamento não chegue
tão perto
e tão terno
quanto um abraço.

Mas só talvez.

(Flávia Côrtes - 21 de abril de 2013, às 23:24h, para minha amiga Nina, com carinho)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Décima segunda badalada



Se não funcionou quando havia encanto,
vai funcionar depois do desencanto?

Assim como o caminho
começa no caminhar

e o movimento
movimenta,

o que não evolui
atrofia.

(Flávia Côrtes - abril de 2013)



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Onde toda palavra é permitida.

Como beijo sonolento e terno
apagando um sonho ruim.

Como suspiro profundo e lento
em poente de um dia difícil.

Como corpo estirado na grama
completada a maratona.

Existe sempre um hiato
e um tempo possível
para aqueles que se sabem.

Porque querem.

(Flávia Côrtes - abril de 2013)

quinta-feira, 4 de abril de 2013


Não Gostos.

Acordar com pressa.
Adoçante em gotas.
Esmalte roxo.
Gelatina amarela.
Salada de agrião.
Barulho.

Não era para ser um poema.

(Flávia Côrtes - Abril de 2013)

quarta-feira, 3 de abril de 2013


Poderia ser um beijo.

Quem sabe um desses
que desenham antes o contorno da boca
decorando a textura
e adivinhando a alma.

Ou, ainda, um desses
que levam mãos aos ombros
esvoaçando o toque
e dissipando o pensamento.

Lábios provados bem devagar.
Toques quase sem língua.
Ainda.

Um gosto de quase.
Prenúncio de muito.
Respiração suspensa no ar.
Vertigem.

Um beijo
que beija mais que a boca
que desalinha mais que a roupa.

Seria este um beijo assim?

(Flávia Côrtes - Abril de 2013)
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segunda-feira, 1 de abril de 2013



Cem metros, mas não rasos.

A tarde era menina
e, ainda assim,
precedia a noite

onde a lua
era cheia.

Fossem os beijos menos intensos
e, quem sabe, a chuva menos forte,
talvez tivéssemos esperado mais.

Consumidos e insones ,
iluminamos, porém,
a noite clara.

Etapas às chamas!


(Flávia Côrtes - Abril de 2013)

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quinta-feira, 21 de março de 2013



Bobagens ou Reflexões Insones


Portões e inícios
se namoram.

Costumava achar
que não se faz furacão em
calmaria.

Toda tempestade respinga.
Mas nem toda gota
água.

E se o Mar é masculino,
porque a Onda é fêmea?

Agora eu posso
dormir.

(Flávia Côrtes - março de 2013)
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segunda-feira, 18 de março de 2013


Simples, mas não fácil.


Há o que a gente acha
e o que simplesmente é.

Há o que a gente resolve
e o que simplesmente sabe.

E há o que a gente quer
e o que simplesmente não quer.

Os motivos do querer e do não querer
não são racionais
ou cognitivos.

Não dariam uma tese de mestrado,
não caberiam numa dissertação,
e eu ainda não sei se cabem
em um poema.

Quando a gente não quer,
motivos brotam.

E, quando a gente quer
de verdade,
aos "nãos",
terra!

(Flávia Côrtes - março de 2013)