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domingo, 3 de fevereiro de 2013



Instinto
(Flávia Côrtes e Renato Gusmão)



noite de calor
dentro da lua cheia
em vielas de poesia
num tempo provocador
a palavra é a minha ceia

e se a sede anseia
eu vampiro
de carne e sonho
te mostro quem sou
dentro do poema


tiro tua paz
num tiro açoite
mirando-te na rua
nua feito a lua
de súbito teu beijo
na boca o sangue
minha fissura
vejo-te na cama
sobre poemas

meu olhar vermelho
espelho refletido
em mil palavras
jorram versos sobre ti

(Texto escrito em parceria poética por  Renato Gusmão e Flávia Côrtes)

Para conhecer o verso do Renato, acesse o blog:

http://cordapatria.blogspot.com.br/

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013



Sonhos sonhados


Será que um dia eu vou sonhar com coisas mais normais? Um sonho de um dia na praia ou, então, sobre uma ida ao supermercado?

Uma vez me disseram que eu não sonho igual a gente adulta. Que sonho igual a criança. Pode ser. Porque desde sempre é assim.


São sempre histórias. Como filmes. Às vezes, eu sou personagem. Às vezes, espectadora. Às vezes, são aventuras surreais. Às vezes, filmes antigos e de outro tempo.

Mas nunca é algo cotidiano e normalzinho.O de hoje foi do tipo filme. Fiquei assistindo um pedaço da vida de uma moça chamada Ana de Souza e Sousa. 

Morava num tempo antigo e era casada com um homem alto e de cavanhaque. O nome do homem eu não lembro. Só sei que namoraram 13 anos e que se amavam.

Era poeta a tal da Ana. E escrevia uns versos lindos. Os versos tinham uma coisa meio cantada...

Mas eu não lembro dos versos. Só da poeta... uma moça que se chamava Ana de Souza e Sousa e que só existe no meu sonho. 


Queria lembrar os versos.

Janeiro de 2013

terça-feira, 29 de janeiro de 2013


Delicadezas 

Em dezembro, estive por uma semana em uma pousada com minha mãe e irmãs.

Foram as primeiras festas de fim de ano sem o meu pai. E viajamos em busca de dias mais amenos em tempos tão dolorosos para a minha família.

Foi uma boa decisão.

Os dias foram encantadores e as pessoas, na pousada, extraordinariamente gentis. Com zelo, atenção e carinho, arrumadeiras, garçons, recepcionistas e a dona da casa, em cada detalhe do dia a dia, ajudaram, de alguma forma, a suavizar um tempo que pensávamos tristes.

E foi assim que trouxemos, todos, o riso de volta ao rosto de minha mãe.

Sendo impossível agradecer plenamente por isso, antes de partirmos, escrevi bilhetes de agradecimento a todos os que cuidaram de nós diretamente. Acrescentei aos cartões um poema escrito por lá e, para os funcionários, incluí uma pequena bonificação (pequena mesmo).

Pois bem, hoje, recebi pelos Correios uma correspondência da dona da casa. Dentro do envelope, uma foto de um buquê de flores e, no verso da foto, um bilhete que dizia:

"Flávia,
bem vi que você é uma poeta.
Adorei o que você escreveu. Quero ler mais de sua poesia.
Anote o meu e-mail... Volte sempre. Laura."


E ainda há quem não acredite em delicadezas. 


Janeiro de 2013

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013



Nós
(Flávia Côrtes e Renato Gusmão)


Em nossas vidas
somos o que vivemos
dizemos o que somos
e somamos

líquidos e sólidos
vitrais e papéis

os nós humanos
tão cruéis
tão normais

na palavra
o tudo
ou nada

no sempre do ontem
o resto do hoje

amanhã o rosto
oposto de vida e morte

coisas do verbo loucura

quem comanda é a fala
e nada nos cala
visgo de amor
e sanha

nossa própria fissura

Verbaliza-nos

vida insana.


(Texto escrito em parceria poética por Flávia Côrtes e Renato Gusmão)

Para conhecer o verso do Renato, acesse o blog:

http://cordapatria.blogspot.com.br/

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Bem Além

É quando 
nem toda pergunta 
precisa ser feita.

(Flávia Côrtes - Janeiro de 2013)
www.poetaflaviacortes.com.br

domingo, 6 de janeiro de 2013


Desalinhos

Não há arrepio arrepiado
que desalinhe de fato
se não desfizer antes
a linha do pensamento.

É o não adivinhado
e o não previsto
que faz a gente perder
o caminho do "não".



(Flávia Côrtes - Janeiro de 2013)

Quase Poema de Beijinhos


Havia já um tempo
que eu não me amanhecia.

E o dia começava
daquele mesmo jeito
que já se sabia.

Um jeito de todo dia.

E eu seguia por tardes brancas
em busca de lagos azuis
pontilhados de beijinhos de chuva
como peixes suspirando ar.

Em uma tarde assim
um verso de beijinhos revoava
em volta de mim.

Mas eu não sei
como termina esse verso.

Ficou caído na poça d'água.


(Flávia Côrtes - Janeiro de 2013)



segunda-feira, 31 de dezembro de 2012



Amarelinhas


A laranja no copo de guaraná era amarela
e sorria para mim.

Como amarela era a flor
que imitava um peixe
no arranjo em frente à mesa.

E amarelo o sorvete de damasco
que refrescava o jardim
de amarelas Alamandas.

As páginas do meu Quintana
eram claras gemadas que eu folheava
na tarde quase quente.

Eu nunca gostei de amarelos.
Quando fortes, escandalosos.
Quando tênues, insossos.

E, talvez por saber
desta minha antipatia,
lá vem meu verso
saltando amarelinhas ao meu redor.

E eu, agora,
gosto!



(Flávia Côrtes - Dezembro de 2012)

Textos devidamente registrados na Biblioteca Nacional e protegidos quanto aos seus direitos autorais.
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Poesia Falada: Confira tudo sobre o CD no link Verso em Voz
Maiores informações: contato@poetaflaviacortes.com.br

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sábado, 29 de dezembro de 2012

Ritual

Gostava de café forte
coado na hora
em coador de pano. 

Achava bonito 
o movimento que a água fazia 
quando se misturava ao pó 
em uma bolha marrom subindo 
até a beirada redonda do coador.  

Qualquer problema parecia pequeno quando o olhar se perdia 
na bolha de café 
dentro do coador de pano.

Gostava também do aroma que invadia a cozinha nesse momento.

Gosto,
aroma,
sensação,
reflexão, 
paz.

Foi dentro de uma bolha 
marrom de café
que o era rito iluminou-se 
em ritual do cotidiano.

Flávia Côrtes
Dezembro de 2012








sábado, 22 de dezembro de 2012

Lembrança

É que eu pensei muito 
em você hoje.

Não foi um 
pensamento-palavra.

Foi mais 
um pensamento-lembrança.

Assim
um pensamento-saudade.

Que eu te sopro
entre as linhas 
deste verso.

Como quem 
sopra
um beijo.

(Flávia Côrtes - dezembro de 2012)
www.poetaflaviacortes.com.br

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Verbo em Desuso

Em tempos como este,
em que ninguém mais namora,
e em que as pessoas vagam
em busca de noites quentes,
ou de príncipes e princesas,
namorar virou démodé.

Eu não falo de "namoro" como "status de relacionamento".
Quem foi que disse que relacionamentos precisam de "status", meu Deus?!

Falo da conjugação do verbo.
Aquela que se articula no cotidiano.

Falo de mãos unidas no cinema,
de tardes inteiras sem sair da cama,
de saber por ter percebido,
de conhecer o caminho do arrepio
e se gosta de café forte.

Daquela mistura da vontade
com à vontade.

Pobre tempo este
em que a intenção do beijo
abandonou o batom.

Triste tempo este
de pessoas isoladas
teclando juntas
em mesas de bar.

Em tempos assim,
revolucionário é aquele
que liga no aniversário
que conta da saudade
que cruza a cidade para te ver.

E eu me vejo um tanto antiqüada.
E sem a menor intenção de modernidade.

Tão avêssa a bandeiras, me pergunto
quando foi que me tornei
revolucionária do afeto.

(Flávia Côrtes - Dezembro de 2012)

sábado, 15 de dezembro de 2012

Orla

A beira mar
e eu te contar os versos
e a te saber os sonhos.

E a gente a pensar lugares 
e a falar de tudos e de nadas
até o teu toque dissolver o assunto
e eu me ver solta.

Além da fronteira do juízo.

Dezembro de 2012

domingo, 9 de dezembro de 2012

Mirante

A noite era escura
após a tarde quente.

O deck de madeira projetado sobre o mar
havia sido colocado ali
para que fosse possível olhar.

E, por isso, ela olhava.

No parapeito de si mesma
observava o canto do mundo.

Olhos perdidos
onde o azul encontra o azul.

Um vento quase fresco
revoava as saias das moças.

Com algum esforço,
deixava-se de ouvir os sons da cidade.

Projetada sobre o mar,
envolta em vento,
por um momento
vislumbrou o infinito.

E ele era azul.

(Flávia Côrtes - dezembro de 2012)
www.poetaflaviacortes.com.br

terça-feira, 4 de dezembro de 2012



Pudim de Leite

Algumas coisas para sempre vão lembrar meu pai.

Abraços de olhos fechados.
Meu pai dizia que "beijo só tem valor com abraço".
Pedia abraço.
E abraçava de olhos fechados.

Gargalhadas.
Seu riso enchia uma sala.
Não, na verdade, seu riso enchia uma vida.

Citações.
Não sei se ele sabe disso, mas suas palavras ecoam em mim o tempo todo.
Perco a conta de quantas vezes eu penso ou digo: "meu pai dizia..."

Perfume.
Não era nem o cheiro do perfume.
O perfume vende em perfumaria.
Era um cheiro amadeirado misturado com o do cigarro que ele "não fumava".
Eu não sei explicar.
Era um cheiro de pai.

Pudim de leite.
Não que ele soubesse fazer.
Mas ele sabia comer.
Dava gosto de ver meu pai comendo pudim de leite.

Fazia isso como fazia todo o resto.
Com gosto.

Eu não sei como terminar este verso.
Aliás, eu nem sei se isso é um verso.

Acho que é só uma saudade
que escorreu
como calda.

Uma saudade doce.


(Flávia Côrtes - Dezembro de 2012)

domingo, 25 de novembro de 2012


Fim do Mundo (?)

Hoje eu organizei meus e-mails pessoais. Insônia faz isso com a gente. Achei um e-mail que meu pai me mandou há alguns meses.

Meu pai costumava me mandar e-mails que achava interessantes. E eu, mesmo quando ocupada, dava um jeito de ler e ligar de volta para ele para conversar sobre o assunto. 
Eu gostava de conversar com ele. Os e-mails eram só mais um pretexto.

Às vezes, levava uns dias para eu conseguir ligar. E eu guardava as mensagens até lá. Foi assim que esta mensagem ficou guardada na minha caixa de entrada.

Eu não deletei porque não tive coragem. Porque não discutimos o assunto. E porque foi a última.

O título era "Entendendo a Profecia Maia". Contava sobre o fim do mundo. Não como o fim do planeta, mas como um momento de mudanças gigantescas nas vidas das pessoas.

2012 tem sido um ano de mudanças gigantescas. E dolorosas. Por mais de um motivo. Hoje, mesmo, eu brinquei com um amigo dizendo que eu sabia que seria o fim do mundo, mas achava que seria algo mais coletivo... :)

E, nesta noite insone, aqui está o e-mail que meu pai me mandou me dizendo que:


"O universo está nos dando uma oportunidade individual para reestruturar nossas vidas. A maneira de sincronizar-nos é, primeiro, não ter medo, perceber que podemos mudar nossa consciência. A física quântica já disse: a consciência modifica a matéria. O que significa que sua vida depende daquilo que você pensa... Basta ter olhos para ver e ouvidos para ouvir".

Ok, Papai, vou abrir os olhos 
e atentar os ouvidos.
Saudades. 


(Flávia Côrtes - Novembro de 2012)
www.poetaflaviacortes.com.br

sábado, 24 de novembro de 2012

Melhor Menos

Um pouco cansada, um pouco gripada, um pouco confusa.

Eu costumava achar que preferia ser ‘muito’ em tudo...

Pensando bem, algumas coisas
são melhores  ‘um pouco’ mesmo.


Devaneio pela Palavra
Setembro de 2012

Flávia Côrtes

www.poetaflaviacortes.com.br

terça-feira, 13 de novembro de 2012


Lentes

O dia chora na janela
e o olho se perde
no mundo invertido
por dentro da gota.

Algumas vezes,
o foco 
desfoca.

Há coisas que 
só são visíveis 
com proximidade
e vagar.


Flávia Côrtes
Novembro de 2012

segunda-feira, 12 de novembro de 2012


Linha

Como cordão que une
a mãe ao feto,

Como novelo desemaranhado 
pacientemente no tear,

Como corda esticada
sobre o picadeiro,

a vida é um fio.

E, observando
o teu passo cuidadoso,
sorri, de qualquer forma
,
o tempo.


Novembro de 2012.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Ensaio sobre (des)humanidades.

Odeio conivências.
Acho o conivente pior que o mau.

Os maus?
Já os sei todos.
Por isso patéticos.
Por isso inofensivos.

Mas os coniventes?
São algo como metástases.

Novembro de 2012

segunda-feira, 29 de outubro de 2012


Mãos

A mão espalmada e lenta 
da mulher 
sobe pela  curva do quadril
e desce 
desenhando a própria cocha.

Conduz a mão da mulher
a lembrança de outra mão.

A palma sente 
o pelo da perna
eriçar.

E um verso rompe a noite.



(Flávia Côrtes - Outubro de 2012)