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domingo, 9 de dezembro de 2012

Mirante

A noite era escura
após a tarde quente.

O deck de madeira projetado sobre o mar
havia sido colocado ali
para que fosse possível olhar.

E, por isso, ela olhava.

No parapeito de si mesma
observava o canto do mundo.

Olhos perdidos
onde o azul encontra o azul.

Um vento quase fresco
revoava as saias das moças.

Com algum esforço,
deixava-se de ouvir os sons da cidade.

Projetada sobre o mar,
envolta em vento,
por um momento
vislumbrou o infinito.

E ele era azul.

(Flávia Côrtes - dezembro de 2012)
www.poetaflaviacortes.com.br

terça-feira, 4 de dezembro de 2012



Pudim de Leite

Algumas coisas para sempre vão lembrar meu pai.

Abraços de olhos fechados.
Meu pai dizia que "beijo só tem valor com abraço".
Pedia abraço.
E abraçava de olhos fechados.

Gargalhadas.
Seu riso enchia uma sala.
Não, na verdade, seu riso enchia uma vida.

Citações.
Não sei se ele sabe disso, mas suas palavras ecoam em mim o tempo todo.
Perco a conta de quantas vezes eu penso ou digo: "meu pai dizia..."

Perfume.
Não era nem o cheiro do perfume.
O perfume vende em perfumaria.
Era um cheiro amadeirado misturado com o do cigarro que ele "não fumava".
Eu não sei explicar.
Era um cheiro de pai.

Pudim de leite.
Não que ele soubesse fazer.
Mas ele sabia comer.
Dava gosto de ver meu pai comendo pudim de leite.

Fazia isso como fazia todo o resto.
Com gosto.

Eu não sei como terminar este verso.
Aliás, eu nem sei se isso é um verso.

Acho que é só uma saudade
que escorreu
como calda.

Uma saudade doce.


(Flávia Côrtes - Dezembro de 2012)

domingo, 25 de novembro de 2012


Fim do Mundo (?)

Hoje eu organizei meus e-mails pessoais. Insônia faz isso com a gente. Achei um e-mail que meu pai me mandou há alguns meses.

Meu pai costumava me mandar e-mails que achava interessantes. E eu, mesmo quando ocupada, dava um jeito de ler e ligar de volta para ele para conversar sobre o assunto. 
Eu gostava de conversar com ele. Os e-mails eram só mais um pretexto.

Às vezes, levava uns dias para eu conseguir ligar. E eu guardava as mensagens até lá. Foi assim que esta mensagem ficou guardada na minha caixa de entrada.

Eu não deletei porque não tive coragem. Porque não discutimos o assunto. E porque foi a última.

O título era "Entendendo a Profecia Maia". Contava sobre o fim do mundo. Não como o fim do planeta, mas como um momento de mudanças gigantescas nas vidas das pessoas.

2012 tem sido um ano de mudanças gigantescas. E dolorosas. Por mais de um motivo. Hoje, mesmo, eu brinquei com um amigo dizendo que eu sabia que seria o fim do mundo, mas achava que seria algo mais coletivo... :)

E, nesta noite insone, aqui está o e-mail que meu pai me mandou me dizendo que:


"O universo está nos dando uma oportunidade individual para reestruturar nossas vidas. A maneira de sincronizar-nos é, primeiro, não ter medo, perceber que podemos mudar nossa consciência. A física quântica já disse: a consciência modifica a matéria. O que significa que sua vida depende daquilo que você pensa... Basta ter olhos para ver e ouvidos para ouvir".

Ok, Papai, vou abrir os olhos 
e atentar os ouvidos.
Saudades. 


(Flávia Côrtes - Novembro de 2012)
www.poetaflaviacortes.com.br

sábado, 24 de novembro de 2012

Melhor Menos

Um pouco cansada, um pouco gripada, um pouco confusa.

Eu costumava achar que preferia ser ‘muito’ em tudo...

Pensando bem, algumas coisas
são melhores  ‘um pouco’ mesmo.


Devaneio pela Palavra
Setembro de 2012

Flávia Côrtes

www.poetaflaviacortes.com.br

terça-feira, 13 de novembro de 2012


Lentes

O dia chora na janela
e o olho se perde
no mundo invertido
por dentro da gota.

Algumas vezes,
o foco 
desfoca.

Há coisas que 
só são visíveis 
com proximidade
e vagar.


Flávia Côrtes
Novembro de 2012

segunda-feira, 12 de novembro de 2012


Linha

Como cordão que une
a mãe ao feto,

Como novelo desemaranhado 
pacientemente no tear,

Como corda esticada
sobre o picadeiro,

a vida é um fio.

E, observando
o teu passo cuidadoso,
sorri, de qualquer forma
,
o tempo.


Novembro de 2012.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Ensaio sobre (des)humanidades.

Odeio conivências.
Acho o conivente pior que o mau.

Os maus?
Já os sei todos.
Por isso patéticos.
Por isso inofensivos.

Mas os coniventes?
São algo como metástases.

Novembro de 2012

segunda-feira, 29 de outubro de 2012


Mãos

A mão espalmada e lenta 
da mulher 
sobe pela  curva do quadril
e desce 
desenhando a própria cocha.

Conduz a mão da mulher
a lembrança de outra mão.

A palma sente 
o pelo da perna
eriçar.

E um verso rompe a noite.



(Flávia Côrtes - Outubro de 2012)

domingo, 28 de outubro de 2012


Manhãzinha.

Alvorada clareia pálpebra fechada
só para contar o céu
que começa a perder noite

Havia nuvens brincando de gaivotas.
E o dourado refletia nas asas delas
.
Este é o céu.

E a montanha
é esta.

Outubro de 2012


quinta-feira, 18 de outubro de 2012


Levada da Breca

Quando menina, era levada da breca.
Daquelas  que têm ventos nos tornozelos.

O tempo passou um pouquinho
e a menina levada da breca
decidiu ser levada a sério.

Moça, descalçou o pé de vento.

Mas salto alto é pouco
para menina acostumada
a nuvem.

Aí, fez de um livro trampolim
e buscou de volta o pé de vento.

Hoje, nem reclama 
se não a levam a sério.

Prefere mesmo
ser levada a riso
a menina
levada da breca.

Flávia Côrtes - Outubro de 2012
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Para minha amiga Marisa Vieira.  A menina levada da breca.
Porque você é daquelas.  Daquelas que inspiram em verso.
Te vejo mais tarde, lá no pé de vento.

domingo, 14 de outubro de 2012



Combinação
Então, fica combinado assim...
É domingo.
E domingos merecem
Quintanas e varandas.

E tudo o mais que houver, nesta vida,
para ser feito ou resolvido,
pode esperar até que o Mário me diga este poema.


É só o tempo de um poema.
É só o tempo de uma canção.

Se te parece pouco, espia o infinito
que já se derrama dos meus olhos,
só de passear com o poeta por uns versos
nesta manhã cinzenta.

Quem foi que disse que domingos
não cabem inteiros
em meia manhã?

Pois se cabem em um poema...


(Flávia Côrtes - Outubro de 2012)
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Textos devidamente registrados na Biblioteca Nacional e protegidos quanto aos seus direitos autorais.



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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Cuco

E, de repente, 
hoje 
já é quase amanhã.

Muitas vezes eu já quis 
segurar o ponteiro no agora.

Mas, hoje, bom mesmo 
era deslizar o dedo pelas horas 
sem o relógio nem reclamar.

Antes do primeiro Tic, alvorada.
Imediatamente após o Tac, crepúsculo.

E pronto.
Está feito.

Outubro de 2012

domingo, 23 de setembro de 2012



Pulsação

Meu olho repousa
na linha de teu pescoço
onde uma veia ainda pulsa
acelerada de mim.

E pulsa, também,
a entrelinha do poema.


(Flávia Côrtes - Setembro de 2012)

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quinta-feira, 20 de setembro de 2012



Ciscos e Sopros

E havia aquela tristeza
que, às vezes, eu via
nublar o teu olho.

E que me dava uma vontade imediata
de fazer qualquer coisa
que a soprasse dali.


E eu te dava um beijo-sopro,
um roçar de lábios,
um bater de asas de passarinho,
e te soprava o cisco dos olhos.

Às vezes, o sopro virava sorriso.
Às vezes, furacão.

E se houvesse, então, ainda,
nos teus olhos, uma nuvem,
já era outra a nuvem.

Daquelas que turvam o horizonte,
enrouquecem a voz
e incendeiam em reflexo.

Foi assim que eu descobri
que beijos-sopros
não apenas espantam
ciscos e tristezas.

Às vezes, provocam furacões.


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domingo, 9 de setembro de 2012



Vincent

E o Amarelo 
levou o tempo da criação do mundo
esperando pelos olhos de Vincent 
para ganhar
a eternidade.

Flávia Côrtes - Setembro de 2012
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sexta-feira, 7 de setembro de 2012


Olhos de Gata

Madrugada desperta.

Retinas habituadas à escuridão
ficam tão mais confortáveis na  noite
que a luz torna-se não apenas
desnecessária,
mas indesejada.

E eu, subitamente, felina,
enxergo tão mais na penumbra.

Longe da luz, não apenas vejo,
mas pressinto.

Inclusive aquilo
que eu preferia não ver.


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domingo, 26 de agosto de 2012


Taças Preparadas

Já era tarde
embora não tarde demais
quando emparelharam-se
em alto mar
sedentos.

Havia no ar um encanto
de manhãs que se sabem festivas.

Daquelas em que se abrem
portas e janelas,
mudam-se móveis de lugar,
escolhem-se louças e taças,
enfeitam-se os cômodos de flores e velas.

Havia no ar uma espera,
daquelas que se sabem saborosas.

Como um cheiro de bolo no forno.
Como um aroma de livro em livraria.
Como um perfume que antecipa o beijo.

Havia nos olhos um brilho de início
nos lábios um sorriso de hoje
nas mãos um calor de sempre
nos beijos uma certeza de abraço
nos braços uma ânsia de toque
nos toques uma urgência.
E um carinho.

Já era tarde
mas não tarde demais.

E não havia mais muros.


Flávia Côrtes - Agosto de 2012
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sexta-feira, 24 de agosto de 2012



Rotas

Como barcos que se cruzam
em oceanos,
estação sim,
estação não,
nos avistamos.

Da primeira vez que nos encontramos,
içou velas e partiu
rumo ao meu peito.

Daquela vez,
fui eu quem precisou partir
antes que você chegasse.

Da segunda vez que nos encontramos, 
já senhora de meus caminhos,
esperei que conduzisse o rumo.

Daquela vez,
foi você quem precisou partir
antes que eu chegasse.

E quando menos espero
avisto a nós dois de novo
como veleiros que se cruzam
em oceano.

E espero.

(Flávia Côrtes - Agosto de 2012)
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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Sobre portas, sorrisos e abraços.

Era a primeira vez que abria ela mesma aquela porta.

"A casa exalava infâncias".
O pensamento trouxe um sorriso assim que ela virou a chave.

Era uma porta antiga de ferro trabalhado pintado de branco. O desenho imitava flores vazadas, muito parecidas com as que a avó tricotava em paninhos de mesa. As flores davam à porta uma aparência delicada.

Sempre achou apropriado que a porta da casa, que um dia foi da avó, tivesse flores tricotadas em ferro branco.

Por trás da porta tricotada, via-se uma outra porta de vidro fosco que fechava-se sobre a primeira. Nos dias de calor, o vidro era mantido aberto e isso garantia à casa frescor. Tanto pela corrente de vento que se formava, como pelas risadas das crianças brincando lá fora.

Quando menina, achava engraçado que a casa tivesse duas portas que viravam uma quando fechadas.
Achava bonito que o ferro precisasse do vidro para fechar realmente a casa e não apenas enfeitá-la.
E gostava de ver uma porta de ferro com vocação para enfeite. E uma porta de vidro com vocação para tranca.

Desde sempre, houve sorrisos na chegada.
E os sorrisos àquela porta, sempre foram prenúncios de abraços.

A avó a esperava com a porta aberta.
Perdeu a conta de quantas vezes correu para aquele sorriso.

O pai nunca a esperou à porta. Aguardava-a  na calçada.
O sorriso dele iluminava o caminho desde a esquina, esperando que ela se aninhasse em seu ombro tagarelando os dias.

A mãe sempre a esperava do lado de dentro com as duas portas fechadas.
Dava para ver o sorriso dela, por trás do vidro fosco, antes mesmo que a porta se abrisse para o abraço das duas.

Era a primeira vez que abria ela mesma a porta de ferro branco.
Os incontáveis sorrisos àquela porta encheram o pensamento e transbordaram mais um.

Os sorrisos naquela casa sempre foram prenúncios de abraços.
Então, ela não estranhou quando a casa a abraçou.

E a casa
exalava infâncias.

Agosto de 2012

segunda-feira, 13 de agosto de 2012



Antes das Nove


Antes do dia,

antes da rotina,
sonhos.


Antes que percebas,

antes que eu saiba,
quereres.

Antes que esperes,

antes que eu evite,
desejos.

Como o olhar antes do toque,

como a intenção antes do beijo,
o dia começa antes do dia.


(Flávia Côrtes - Novembro de 2011)

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