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quarta-feira, 1 de junho de 2016

Sinfonia

O ruído
continuo e permanentemente
do motor subindo a serra
se misturava a outros sons.

Um trepidar de vidros
das janelas.

As conversas paralelas
das gentes
que iam ou voltavam
de algum lugar.

Olhos fechados
aguçavam ouvidos
que brincavam
de separar e unir
os sons.

Apitos
pediam
paradas.

Um ou outro motor
ultrapassava.

A intenção era sono.

Mas o destino
poema.

(Flávia Côrtes - junho de 2016)


segunda-feira, 30 de maio de 2016

Embarques e Desembarques

O problema de você
ficar tempo demais
esperando um ônibus
que não vem

é que vai dando
uma vontade danada
de pegar o ônibus errado.

Talvez nem seja um problema,
se o seu destino
não tem hora marcada.

Talvez seja até divertido,
se o caminho for bonito
e você se permitir
o passeio.

Algumas voltas a mais
podem te fazer bem,
se você souber atentar

ao tempo certo
do desembarque.

(Flávia Côrtes - maio de 2016)



terça-feira, 26 de abril de 2016

O arco-íris e o ônibus

Dessa vez, eu não parei
para olhar o céu.

Estava muito quente
e uma lufada de vento
me interrompeu os passos
e levantou o rosto.

Coisas de um verão em maio
sem ar condicionado.

Quando eu abri os olhos,
ele estava lá.

Sempre achei que arco-iris
só se ocupasse de horizonte.

Mas este
desafiava rótulos
e preenchia soberano
o meio do céu.

Perdi o ônibus.

Mas você tem que estar disposto
a perder um ônibus ou dois

se quiser ver todas as cores.

(Flávia Côrtes - Abril de 2016)


quarta-feira, 13 de abril de 2016

Laranja em Flor

A caminho de casa,
eu devia estar ocupada.

Focada em problemas.

Os muitos.
Os tantos.

Casa, Trabalho, Dinheiro,
Família, Amigos,
País…

Falta dia no dia.

Certamente, eu deveria
ocupar-me dos problemas.

Mas tem esse meu olho reparador
que pousou
no laranja da flor.

Laranja de Flor
esvazia pensamento mais rápido
que vento forte desanuvia céu
em dia de verão pleno.

Pensamento,
uma vez vazio,
enche a gente
de forma tão completa
que não dá mais

para se ocupar assim
de burocracias,
polêmica
ou tristezas.

Não é nem
que eu não queira.

Acho até que deveria.

Mas falta espaço
na alma florida.

Por hora.

(Flávia Côrtes - Abril de 2016)

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Lição

O relógio,
a cada compromisso,
desperta urgências.

Tic-tac,
olha a hora...! 

O calendário,
a cada data,
contabiliza etapas.

Vira a página,
já é dezembro...!

A agenda,
a cada dia,
relembra e dita.

Atenção! Tem reunião...!
Coloca a roupa na máquina...!
Olha o dia da conta...!

Acelerados e ocupados
exclamamos ponteiros,
preenchendo páginas numeradas
das nossas vidas.

Mas a sanidade desperta
na risada da criança.

Que o dia pare
para que eu olhe também 
o chapéu da nuvem.

Que o despertador atrase 
para que eu conte também 
o sonho.

Que a agenda espere
para que eu brinque também
com a água da torneira.

E a gente lembra
que o que de fato importa
não precisa lembrete 
ou alarme.

O amor, 
sabemos de cor.

(Flávia Côrtes - novembro de 2015)










segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Providências 

Os problemas, às vezes, 
fazem parte da solução.

Flávia Côrtes
Novembro de 2015

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Sobre Redes e Laços

Vivemos em um tempo
em que a palavra "rede
remete, de pronto,
o pensamento
a recentes tecnologias.

Ou, no máximo, à proteção
sintética e branca
em nossas varandas,
estes quase-quintais
gradeados.

Na associação moderna
de idéias,
quantos lembrarão
da visão dourada do pescador
exercendo o seu ofício?

Ou, ainda,
do balançar sonolento
em algodão e renda
no fim da tarde?

Não me espanta, portanto,
que entre um clique e outro
alguém ache que, de fato,
estabelece relações.

Cabe lembrar
que para transformar
linhas retas em laços
(sejam estes de fitas,
cadarços ou afetos)
há de se empenhar
um pouco mais.

Laços de fita
não enfeitam o Natal
sem ternura e capricho.

Os cadarços das crianças
não perduram
sem firmeza e paciência.

E amizades
não se formam
sem presença,
tempo
riso
e lealdade.

(Flávia Côrtes - Outubro de 2015)













Ô, Mãe...

A brancura do domingo
tornava lícita a preguiça
que fazia da tarde
manhã.

Propostas de passeios
perdiam a preferência
para livros
agarrados a travesseiros.

(E o poema fugiu com um
"ô, Mãe, a gente vai passar o dia todo na cama????")

Flávia Côrtes - Outubro de 2015

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Muito Minha

Sobrinho é algo fantástico de se ter. A gente segura pela primeira vez e se apaixona. E apaixona antes mesmo de saber como vai ser.

Deve ser porque é algo  como ter filho  sem precisar gestar os nove meses. Com a Rafaela foi assim. Paixão a primeira vista.

Eu lembro de ficar olhando pelo vidro na maternidade e não querer sair dali nunca mais... vontade de ficar olhando para sempre.

E isso foi bem antes dela se tornar isso tudo que ela é hoje.

Dá para resumir isso tudo em uma folha ofício? Não sei não. Como é que eu conto em uma folha ofício o dia em que, aos sete anos, me confidenciou: "Tia Flávia, este ano eu vou mudar a minha vida". E eu:  "É mesmo, querida? O que você vai fazer?". E ela: "Vou ser cantora".  (E ela achou o Coral e foi lá ser cantora.)

E como eu conto,numa folha ofício,o dia em que ela me ligou para eu ensiná-la como fazer um poema? E sobre a caneca com desenhos do que "só uma Tia faz"? E sobre as fotos "selfies" tiradas juntas? E, ainda, sobre as inúmeras vezes que ela me desembaraçou os cabelos e penteou? E sobre as conversas quase adultas desde que aprendeu a falar? E sobre a surpresa que me fez cantando no lançamento do meu livro?

Como é que eu conto esses 14 anos em que você está por aqui brilhando? Não vai caber aqui, não, Passarinha.

Uma vez você me perguntou porque eu te chamo de Passarinha. Você era muito pequena. Tinha uns 6 anos. Não sei se lembra disso.

A resposta ainda é a mesma: porque você é linda e livre. Amo você, querida.

(Flávia Côrtes - Setembro de 2015 - 
hoje só Tia Flávia)



sábado, 12 de setembro de 2015

Fato (ou não)

Teve um tempo em que eu achei
que todos os nossos versos
seriam ternos
que todos os nossos dias
seriam encanto
que todas as nossas noites
seriam quentes
e todas as nossas histórias
seriam unas.

E teve está noite.
Exagero ou não.

(Flávia Côrtes - Setembro de 2015)
Caso, Descaso ou Acaso

Talvez fosse o caso
da gente ser mais
convencional.

Fazer algumas coisas
independentes.

Fingir que está
tudo bem.

Não dizer,
deixar para lá.

Talvez fosse mesmo o caso
da gente ser menos
passional.

O caso
é que para a gente ser
um pouco mais assim
como todo mundo,

teria que ser
um pouco menos.

É esse o caso.

(Porque é que a gente
sempre diz
tudo?)

Flávia Côrtes
Setembro de 2015





quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Destinos

Você pode até decidir
abandonar um caminho.

Mas o caminho já trilhado
estará para sempre
dentro de você.

(Flávia Côrtes - agosto de 2015)

domingo, 26 de julho de 2015

Rio Riacho

Nasci numa cidade à beira-mar
encrustada entre montanhas
e com uma floresta no meio.

Isso garante uma umidade
quente e constante.

O verão goteja nas frontes
e o inverno
tem alguns dias ao ano
e só.

Quem não gosta de água
deve evitar morada no
Rio de Janeiro.

Não é nem que chova.
Na verdade,
quase não água por fora.

É que a cidade transpira.

Quem olha o ar em dezembro
enxerga o calor incolor
evaporado do asfalto
e denunciado em termômetros
e sabe
que os elevados graus descritos
são bem inferiores
à sensação térmica
de vulcão à sombra.

Julho mostra moças
de mangas compridas e shorts
passeando nas manhãs de domingo.

E a cidade acorda sob edredons
ainda que haja, frequentemente,
ar condicionado nos quartos
só para garantir o conforto
da manhã quase fria
nesse meio inverno.

As árvores mostram
orquídeas floridas.

Nas calçadas, folhas outonais
se recusam a ranger sob os passos.

É que numa cidade-água
amendoeira em julho
até veste por do sol
e decora calçada,
mas se prefere silêncio.

E o poema escuta.

(Flávia Côrtes - julho de 2015)












domingo, 5 de julho de 2015

Inquietude

Cansada demais para dormir.
Agitada demais para descansar.
Dispersa demais para trabalhar.

Flávia Côrtes
(Fevereiro de 2015)

Nota da autora: este escrevi em outro tempo... esperava o poema inteiro ainda, mas percebi que ele está inteiro. Nem sempre precisa de várias estrofes para se dizer o que há para dizer. Vi que faltava só o título... e coloquei hoje. :)
Aprendizagens

Manhãs de inverno
não são feitas
de ar gelado
apenas.

Tem um tanto
de reflexão embrulhada
na preguiça desse edredom.

É que as minhas palavras
precisam de silêncio
para brotar.

Nesse silêncio-chão,
nessa quietude-sopro,
voam e germinam
pensamentos-palavras.

Viver o Agora
é mais que uma escolha
é compromisso pessoal
com a Possibilidade.

É que Nada mais vai ser
se o Agora não for.

E a Vida merece mais
do que um ser-sobrevivente,
espectador esperando Godot.

Eu descobri que aprendizados
são como cicatrizações sem pontos.

Só acontecem
quando de dentro para fora.

E se palavra não dita
ecoa por dentro,

a palavra dita e liberta
alforria a alma
de ruminar pretéritos
- sejam estes futuros
ou passados.

Agora
eu preciso ir.

Tem um dia novinho em folha
me esperando
logo ali.

(Flávia Côrtes - julho de 2015)












terça-feira, 9 de junho de 2015

Os Tão-Humanos

Ando um pouco cansada
dessa conversa
desencontrada
do ato.

Os olhares, solidários.
Os discursos, compromissados.
Todos tão-humanos.

Porém, oposto ao verbo,
o silêncio
substitui  o"bom dia".

E, avêssa à ação,
a inércia
assiste a novela.

(Flávia Côrtes - Junho de 2015)

sábado, 23 de maio de 2015

Primeiro Maio

Primeiro Dia das Mães sem Mamãe
Primeiro Dia das Mães com Sophia

Já há uma semana  que não tem sido fácil.

Sim, Sophia ameniza tudo.
Há dias que ela me faz pequenos presentes de Dia das Mães. Me entrega uma folha branca que ela conta que é uma barquinho (e agora é).  Me dá uma caixinha com papel picado dentro que faz barulhinho quando sacode e ela diz que é uma caixinha de música (e agora é).  Me dá desenhos, abraços, carinhos... intercalados com um "feliz dia das mães... todos os dias esta semana.

Hoje, Sophia e Everson me acordariam à meia noite, com beijos e bombons. E ela estava tão feliz com a surpresa que não tinha como eu ficar triste. Fui dormir acalentada por este sentimento bom.

Mas os dias tem 24 horas e, em semana de Dia das Mães, não tem como não ter saudades.

Quase um ano depois, nem toda saudade de mamãe é lágrima. Muitas vezes, a lembrança é riso.
Como aquele dia em que ela me pediu um radinho de pilha porque a TV quebrou... e é claro que ela ganhou a televisão E o radinho.

Mas, apesar de tudo que ameniza esse estranho e novo mês de maio:
não, não têm sido dias fáceis.

Não têm, não.

(Flávia Côrtes - maio de 2015)

Cotidiano 

No som da sala, a Diva
conta a canção 
de um amor rasgado e passional.

Depois da faxina, na varanda, brincam
a menina, o homem e o cão.

Na cozinha,
a mulher, o feijão
e o Poema.

A olhar de fora, 
um sonho americano.

A viver por dentro, 
pura realidade 
brasileira e Humana
de dias feitos de cotidiano,
despertadores às seis da manhã 
e contas de luz em Bandeira Vermelha.

A cena da novela não conta, 
mas ao jantar em família, 
antecede o fogão
e sucede a louça.

O comercial dá bom dia
sem mostrar a noite insone 
de pais escalados na madrugada,
Plantão Sagrado de quem vela 
um sono-criança.

A vida ao vivo recusa etiquetas
e existe todo dia
risonha ou preocupada,
desperta ou sonolenta,
terna ou irritada.

E está aí a Beleza 
dos que se escolhem todo dia
porque se amam.

(Flávia Côrtes - maio de 2015)


quinta-feira, 7 de maio de 2015


Clareira

No céu nublado,
clareira aberta
mostrava a lua
na noite escura.

Cheia era pouco.
Holofote.

(Flávia Côrtes - maio de 2015)



Ponteiros

O amor para ser pleno
tem que encontrar plenitude
do outro lado do espelho.

E aí, sim,
toda espera
vira eternidade.

Cada hora
parece mais
que sessenta minutos.

Cada minuto
dura mais tempo.

É que já se gastou
todos os tempos
longe um do outro
antes de se conhecer.

Abençoada vida esta
em que a gente
se encontrou.

(Flávia Côrtes - março de 2015)