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domingo, 21 de dezembro de 2014
Caligrafia
Num quarto, a criança dorme.
No outro, o homem dorme.
Na pia, dorme a louça.
E dorme, no tanque, a roupa.
Na sala, a poeta acordada
percorre versos de outra poeta.
A manhã passeia encantada
em seis
talvez oito
poemas.
A infância em flanela azul e chupeta
chega sonolenta e se aninha
no colo abaixo do livro.
Tem poema mais doce
que criança adormecida em colo junto ao livro?
"Mamãe, meu mamazinho..."
O dia acorda.
Mas não antes que o poema.
(Flávia Côrtes - dezembro de 2014)
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Na madrugada tênue,
pequenos passos
leves e silentes
despertam olhos maternos
como não conseguem
despertadores nem alvoradas.
Que mistério é esse que une
teu despertar ao meu?
Na penumbra do quarto
olhos pacientes
agora despertos
esperam um sono
que não é meu.
A respiração
da criança aninhada
ainda é leve e conta
que ainda é cedo.
Um suspiro profundo
mostra o mergulho
no sono mais denso.
Meus olhos enfim pesam.
Que mistério é esse que une
meu sono ao teu?
(Flávia Côrtes - Dezembro de 2014)
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
Nem prematura, nem temporã.
Você veio na hora exata
no tempo certo
de um jeito inesperado
e perfeito.
No dia em que você veio para mim
não me cresceram ventre e seios
não se contraíram entranhas
não desaguaram partos.
Meu corpo não se preparou.
Talvez porque sempre estive
pronta para você.
Também não fui eu
quem te escolheu.
Eu só soube.
Desde o dia
em que você me reconheceu
eu soube.
Desde sempre e para sempre.
Um amor maior que o céu.
(Flávia Côrtes - Novembro de 2014)
Para Sophia.
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Lego
O mundo deu uma volta
e realinhou sozinho.
A vida segue
o rumo imprevisto.
Mas sempre segue adiante.
Como deve ser.
Não me contaram antes
que quando se desmonta
assim inteira
alguma peças podem
simplesmente
não caber de volta
exatamente
no mesmo lugar.
Eu podia preocupar.
Espremer alguns espaços.
Entulhar outros.
Eu podia desarvorar.
Escolher algumas peças.
Descartar outras.
Mas me vejo em paz
descobrindo
os novos encaixes.
Uma hora dessas
tudo se realinha.
E se sobrarem
algumas peças?
Bem, a gente sempre pode
inventar algo além.
Quem sabe um avião.
(Flávia Côrtes - outubro de 2014)
O mundo deu uma volta
e realinhou sozinho.
A vida segue
o rumo imprevisto.
Mas sempre segue adiante.
Como deve ser.
Não me contaram antes
que quando se desmonta
assim inteira
alguma peças podem
simplesmente
não caber de volta
exatamente
no mesmo lugar.
Eu podia preocupar.
Espremer alguns espaços.
Entulhar outros.
Eu podia desarvorar.
Escolher algumas peças.
Descartar outras.
Mas me vejo em paz
descobrindo
os novos encaixes.
Uma hora dessas
tudo se realinha.
E se sobrarem
algumas peças?
Bem, a gente sempre pode
inventar algo além.
Quem sabe um avião.
(Flávia Côrtes - outubro de 2014)
domingo, 28 de setembro de 2014
sábado, 30 de agosto de 2014
Arrebentação
Esta tem sido
uma época de tsunamis.
E eu tenho estado submersa
boa parte do tempo.
Um dia
a calmaria te surpreende
e você se vê longe da areia
e em plena arrebentação.
Minúsculo diante
de uma enorme parede d'água
pensa nas possibilidades.
Descobri
nas praias da minha infância
que não adianta
correr de ondas gigantes.
Elas sempre te alcançam.
E você não vai querer
ser derrubado pelas costas,
sem fôlego e em fuga.
Saber nadar já não resolve.
Só há agora
fôlego e vontade.
Nesse dia, a gente descobre:
qualquer onda se reduz
à sua própria altura
quando você a encara de frente
e mergulha por dentro.
Não importa
o tamanho da onda.
Ela passa.
Acredite,
às vezes, precisamos
de correntezas mais profundas
para seguir mais longe.
(Flávia Côrtes - Agosto de 2014)
Esta tem sido
uma época de tsunamis.
E eu tenho estado submersa
boa parte do tempo.
Um dia
a calmaria te surpreende
e você se vê longe da areia
e em plena arrebentação.
Minúsculo diante
de uma enorme parede d'água
pensa nas possibilidades.
Descobri
nas praias da minha infância
que não adianta
correr de ondas gigantes.
Elas sempre te alcançam.
E você não vai querer
ser derrubado pelas costas,
sem fôlego e em fuga.
Saber nadar já não resolve.
Só há agora
fôlego e vontade.
Nesse dia, a gente descobre:
qualquer onda se reduz
à sua própria altura
quando você a encara de frente
e mergulha por dentro.
Não importa
o tamanho da onda.
Ela passa.
Acredite,
às vezes, precisamos
de correntezas mais profundas
para seguir mais longe.
(Flávia Côrtes - Agosto de 2014)
terça-feira, 26 de agosto de 2014
Escola
Eu precisava muito da minha mãe por aqui nesse tempo. Quase todo dia eu a queria por perto. Não apenas por saudade, mas para me ajudar com isso tudo que eu não conheço... para me ensinar isso tudo que eu nunca achei que faria.
É tudo muito louco porque eu perdi mamãe quase agora e a vida de imediato me colocou essa menininha encantadora por perto dando risadas cristalinas pelo dia e fazendo cachos no meu cabelo quando eu a coloco para dormir.
É tudo muito novo e muito terno. Mas estamos as duas em adaptação de vida. E isso não é fácil para nenhuma de nós.
Ela sente falta da mãe dela.
E eu da minha.
Ela me rejeita quando sente saudades da mãe.
Eu me sinto inapta para a função na metade do tempo.
Mas tem algo mágico acontecendo.
As lembranças do que eu vivi com a minha mãe quando criança me invadem o tempo todo. E as cenas de hoje se misturam com aquelas da minha infância.
As risadas quando eu fiz o Box de piscina naquela tarde em que ela estava gripadinha e não podia descer... e ali estão de novo as risadas com os meus irmãos nos banhos de mangueira no quintal da casa dos meus pais.
As gelatinas em potes pequenos que escolhi especialmente para ela... e eu revejo as mãos da minha mãe cortando pedaços de maçã para decorar os potinhos quando preparava ela a sobremesa.
As histórias na cama na hora de dormir... as conversas à mesa do jantar... eu me vejo repetindo com ela e por ela as coisas que a minha mãe fazia comigo e por mim na minha infância.
É assim que, por um momento, tem uma conecção não é de duas, mas de três.
Pois é. Eu precisava muito da minha mãe por aqui agora.
E, de alguma forma, ela está dando um jeito de estar.
(Flávia Côrtes - agosto de 2014)
Eu precisava muito da minha mãe por aqui nesse tempo. Quase todo dia eu a queria por perto. Não apenas por saudade, mas para me ajudar com isso tudo que eu não conheço... para me ensinar isso tudo que eu nunca achei que faria.
É tudo muito louco porque eu perdi mamãe quase agora e a vida de imediato me colocou essa menininha encantadora por perto dando risadas cristalinas pelo dia e fazendo cachos no meu cabelo quando eu a coloco para dormir.
É tudo muito novo e muito terno. Mas estamos as duas em adaptação de vida. E isso não é fácil para nenhuma de nós.
Ela sente falta da mãe dela.
E eu da minha.
Ela me rejeita quando sente saudades da mãe.
Eu me sinto inapta para a função na metade do tempo.
Mas tem algo mágico acontecendo.
As lembranças do que eu vivi com a minha mãe quando criança me invadem o tempo todo. E as cenas de hoje se misturam com aquelas da minha infância.
As risadas quando eu fiz o Box de piscina naquela tarde em que ela estava gripadinha e não podia descer... e ali estão de novo as risadas com os meus irmãos nos banhos de mangueira no quintal da casa dos meus pais.
As gelatinas em potes pequenos que escolhi especialmente para ela... e eu revejo as mãos da minha mãe cortando pedaços de maçã para decorar os potinhos quando preparava ela a sobremesa.
As histórias na cama na hora de dormir... as conversas à mesa do jantar... eu me vejo repetindo com ela e por ela as coisas que a minha mãe fazia comigo e por mim na minha infância.
É assim que, por um momento, tem uma conecção não é de duas, mas de três.
Pois é. Eu precisava muito da minha mãe por aqui agora.
E, de alguma forma, ela está dando um jeito de estar.
(Flávia Côrtes - agosto de 2014)
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Diálogo
As duas olhavam fotografias na cama antes de dormir.
"Você está cantando?" Perguntou a menina apontando a imagem.
"Não, querida, estou dizendo um poema."
"O que é um poema?"
A poeta olhou os olhos curiosos e buscou dentro dela algo que explicasse aos quatro anos o que era um poema.
"Um poema, meu amor, é como se fosse uma música que a gente não canta, mas conta a história... deixa eu pensar um para te dizer e você entender...
(Cecília Meireles ajudaria a explicar...)
"Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina..."
A pequena abriu um sorriso.
"Eu quero ser bailarina!
Eu sou um poema?"
A poeta olhou os olhos e o sorriso da menina. E dentro dela transbordou um amor diferente de todos os amores que já tinha sentido na vida.
O sorriso da menina refletiu no dela quando disse.
"Sim, meu amor, você é um poema."
(Flávia Côrtes - agosto de 2014)
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
domingo, 27 de julho de 2014
Círculos
A criança embalada
tece dedos
nos cachos adultos
e nem a noite menina
sabe bem
quem nina quem.
A menina aponta o céu
para mostrar
o quanto a ama.
Na outra ponta
a lembrança
da mãe
da promessa
do amor
maior que o céu.
A vida
dá outra volta.
E junta
o fim
ao começo.
Recomeço.
(Flávia Côrtes - Julho de 2014)
domingo, 6 de julho de 2014
Anjos
Uma vez, em um momento de dor,
uma amiga especialmente terna,
presenteou-me delicados
sinos de vento lilases.
Os sinos tinham
pequenas luas presas
com fios transparentes
e quando a brisa brincava
com os fios
e as luas tocavam os sinos
um som cristalino e suave
enchia o ar
e o coração da gente.
Quando eu era bem menina
me disseram
que, quando sinos tocam ao vento,
é porque anjos meninos brincam
e sorriem.
Nas manhãs de domingo agora
eu preparo o café
ouvindo o tilintar de sinos
que me contam o riso dos anjos.
E eu me lembro
do sorriso de uma amiga-anjo
que me trouxe sinos lilases
em uma noite
onde havia só silêncio.
E sorrio.
(Flávia Côrtes - Julho de 2014)
Para Ana Paula Soeiro - que espalha magia no mundo simplesmente por existir.
Queridos amigos e familiares,
Como todos sabem, minha mãezinha deixou esta vida no dia 24/06/2014, aos 72 anos, depois de uma árdua batalha de 24 dias pela vida.
Meus irmãos e eu optamos por NÃO excluir a sua conta do facebook. Bloquearemos o mural e manteremos suas publicações e fotos exatamente como ela as deixou.
Esta decisão tem motivos fortes, que declaro abaixo.
Após a morte de meu pai, em janeiro de 2012, eu presenteei um IPAD a mamãe. Tirei férias e ensinei-a a manusear o Facebook. Expliquei como "ver as notícias" no Feed (que ela chamava de Fred) e como fazer comentários nas postagens que gostasse.
No mesmo ano, trouxe-a para o ambiente da Poesia e levei-a a Saraus. Foi difícil, no início, convencê-la a sair de casa. Mas uma pequena "chantagem", apelando ao orgulho de mãe e dizendo como era importante para mim que ela assistisse a uma apresentação minha, a convenceu a ir ao primeiro sarau.
O que aconteceu em seguida foi algo mágico, embora não surpreendente, sendo mamãe a pessoa encantadora que sempre foi.
Minha mãe começou a fazer amigos. E não apenas amigos entre os meus amigos. Ela começou a resgatar amigos de infância e familiares através do Facebook. E isso aos 71 anos.
Uma vez, ela comentou comigo:
"Filha, eu sei que são seus amigos... e que seriam de qualquer forma gentis comigo. Mas sabe que eu acho que eles gostam verdadeiramente de mim? Quando seu pai morreu, eu achei que estava tudo acabado para mim... e agora eu descubro que posso fazer amigos."
Pois bem, nos últimos dois anos, mamãe conviveu cotidianamente através do Facebook com amigos e familiares. Ela comentou postagens, conversou com as pessoas inbox... e foi lindo para nós que somos seus filhos vê-la se reinventar quando a depressão seria o caminho óbvio após a morte de seu grande amor.
Apenas isso já seria algo maravilhoso.
Porém, eu ainda descobri que ela escrevia na adolescência e até o casamento. Escrevia poemas. E parou de escrever quando casou-se e teve todos os filhos.
E, com o Facebook, eu também presenciei minha mãe voltar a escrever.
Ela dedicava um carinho enorme na redação de seus "Comentários".
Mamãe redigia os "Comentários" num caderninho antes de digitar e, todos os dias, lia para mim o que escreveu. Fazia isso exatamente com o mesmo gosto que eu tenho quando escrevo um poema e o digo em voz alta quando fica pronto.
Ela dizia... "Filha, eu não sou poeta, mas sou Comentarista".
Pois bem, eu sou poeta e posso afirmar que, quando eu me for desta vida, não vou querer que alguém delete os meus poemas.
Desta forma, também não deletarei o perfil de minha mãe e nenhum de seus Comentários.
Que fiquem publicados no Facebook os Comentários de Helena Côrtes Xavier, a mais linda Comentarista que eu tive a honra e prazer de conhecer.
Conheço-a bem e sei que é assim que ela gostaria que fosse. Portanto, que assim seja.
Um abraço a todos,
Flávia Côrtes
Como todos sabem, minha mãezinha deixou esta vida no dia 24/06/2014, aos 72 anos, depois de uma árdua batalha de 24 dias pela vida.
Meus irmãos e eu optamos por NÃO excluir a sua conta do facebook. Bloquearemos o mural e manteremos suas publicações e fotos exatamente como ela as deixou.
Esta decisão tem motivos fortes, que declaro abaixo.
Após a morte de meu pai, em janeiro de 2012, eu presenteei um IPAD a mamãe. Tirei férias e ensinei-a a manusear o Facebook. Expliquei como "ver as notícias" no Feed (que ela chamava de Fred) e como fazer comentários nas postagens que gostasse.
No mesmo ano, trouxe-a para o ambiente da Poesia e levei-a a Saraus. Foi difícil, no início, convencê-la a sair de casa. Mas uma pequena "chantagem", apelando ao orgulho de mãe e dizendo como era importante para mim que ela assistisse a uma apresentação minha, a convenceu a ir ao primeiro sarau.
O que aconteceu em seguida foi algo mágico, embora não surpreendente, sendo mamãe a pessoa encantadora que sempre foi.
Minha mãe começou a fazer amigos. E não apenas amigos entre os meus amigos. Ela começou a resgatar amigos de infância e familiares através do Facebook. E isso aos 71 anos.
Uma vez, ela comentou comigo:
"Filha, eu sei que são seus amigos... e que seriam de qualquer forma gentis comigo. Mas sabe que eu acho que eles gostam verdadeiramente de mim? Quando seu pai morreu, eu achei que estava tudo acabado para mim... e agora eu descubro que posso fazer amigos."
Pois bem, nos últimos dois anos, mamãe conviveu cotidianamente através do Facebook com amigos e familiares. Ela comentou postagens, conversou com as pessoas inbox... e foi lindo para nós que somos seus filhos vê-la se reinventar quando a depressão seria o caminho óbvio após a morte de seu grande amor.
Apenas isso já seria algo maravilhoso.
Porém, eu ainda descobri que ela escrevia na adolescência e até o casamento. Escrevia poemas. E parou de escrever quando casou-se e teve todos os filhos.
E, com o Facebook, eu também presenciei minha mãe voltar a escrever.
Ela dedicava um carinho enorme na redação de seus "Comentários".
Mamãe redigia os "Comentários" num caderninho antes de digitar e, todos os dias, lia para mim o que escreveu. Fazia isso exatamente com o mesmo gosto que eu tenho quando escrevo um poema e o digo em voz alta quando fica pronto.
Ela dizia... "Filha, eu não sou poeta, mas sou Comentarista".
Pois bem, eu sou poeta e posso afirmar que, quando eu me for desta vida, não vou querer que alguém delete os meus poemas.
Desta forma, também não deletarei o perfil de minha mãe e nenhum de seus Comentários.
Que fiquem publicados no Facebook os Comentários de Helena Côrtes Xavier, a mais linda Comentarista que eu tive a honra e prazer de conhecer.
Conheço-a bem e sei que é assim que ela gostaria que fosse. Portanto, que assim seja.
Um abraço a todos,
Flávia Côrtes
domingo, 29 de junho de 2014
Passeio
Existem passeios por fora
e há, ainda, aqueles por dentro.
Haverá dias
em que eu vou querer
desenhar o dia,
abrir a manhã,
descobrir as possibilidades
lá fora.
Mas hoje
a manhã quieta
me tomou pela mão
calmamente
assim como uma brisa
quase sopra
num dia quente.
Serena Manhã,
nina o meu dia
que dorme ainda
enquanto o meu verso
espreguiça o pensamento
e voa.
(Flávia Côrtes - junho de 2014)
sexta-feira, 27 de junho de 2014
Azul
Eu ontem vesti azul por minha mãe.
A túnica azul florida foi presente dela e quando a vesti pensei:
"Já visto preto todo dia. Hoje, por mamãe, serei azul".
Explico.
Eu tinha doze anos e medo de escuro quando meu pai me ensinou a fechar os olhos e pensar no azul para dormir em paz.
Eu já era mulher feita e minha mãe ainda assim me dizia, em alguns dias especiais, que havia encomendado o céu daquele dia para mim.
Ela não falava assim desse jeito.
Ela me mostrava o azul e dizia:
"Olha o que eu encomendei para você hoje".
Eu não vi o céu no dia de ontem.
Dizem que estava especial.
Mas estava escuro demais aqui dentro. E eu não pude ir lá fora em busca do azul.
Não tem problema, mamãe.
Não se preocupe.
Não há mais medo.
O azul
que você e papai
me deram
eu levo agora
por dentro.
Mergulha você no azul, mamãe.
Segue em paz com sua luz.
(Flávia Côrtes - junho de 2014 - para minha mãezinha)
Eu ontem vesti azul por minha mãe.
A túnica azul florida foi presente dela e quando a vesti pensei:
"Já visto preto todo dia. Hoje, por mamãe, serei azul".
Explico.
Eu tinha doze anos e medo de escuro quando meu pai me ensinou a fechar os olhos e pensar no azul para dormir em paz.
Eu já era mulher feita e minha mãe ainda assim me dizia, em alguns dias especiais, que havia encomendado o céu daquele dia para mim.
Ela não falava assim desse jeito.
Ela me mostrava o azul e dizia:
"Olha o que eu encomendei para você hoje".
Eu não vi o céu no dia de ontem.
Dizem que estava especial.
Mas estava escuro demais aqui dentro. E eu não pude ir lá fora em busca do azul.
Não tem problema, mamãe.
Não se preocupe.
Não há mais medo.
O azul
que você e papai
me deram
eu levo agora
por dentro.
Mergulha você no azul, mamãe.
Segue em paz com sua luz.
(Flávia Côrtes - junho de 2014 - para minha mãezinha)
domingo, 22 de junho de 2014
sexta-feira, 6 de junho de 2014
O dia começou
com uma névoa
meio cinza e meio branca
sobre a montanha.
O sol fazia um efeito
prateado através da neblina
e dava um aspecto
surreal à manhã.
Pareceu-me apropriado
para uma manhã como a de hoje
quando o cotidiano
virou do avesso
e a gente ainda procura
no canto da mente
uma fresta de alegria
para mover o dia.
(Flávia Côrtes - Junho de 2014)
terça-feira, 27 de maio de 2014
Nem todo sólido se desfaz.
Quando você acha
que nada mais poderia
dar errado,
é quando realiza
que ninguém mais há
além de você.
Algumas coisas
simplesmente precisam
ser feitas.
E a gente acha força.
Sempre há
um pouco mais de força.
Em dias assim, é mágico
quando alguém te surpreende.
Tem gente que sabe da gente
antes mesmo da gente.
(Flávia Côrtes - Maio de 2014)
Para Everson, com amor.
Quando você acha
que nada mais poderia
dar errado,
é quando realiza
que ninguém mais há
além de você.
Algumas coisas
simplesmente precisam
ser feitas.
E a gente acha força.
Sempre há
um pouco mais de força.
Em dias assim, é mágico
quando alguém te surpreende.
Tem gente que sabe da gente
antes mesmo da gente.
(Flávia Côrtes - Maio de 2014)
Para Everson, com amor.
domingo, 25 de maio de 2014
A vida é ao vivo.
Não há ensaio.
Tiraram a rede de proteção.
Convém treinar
equilíbrio nos passos.
Vale manter
abertos os olhos.
Mas que adianta cautela
quando viver
é a possibilidade?
A certa altura
a gente aprende a cair
sem se estilhaçar.
Vantagem de quem se arrisca.
Não vai doer menos.
Mas facilita na hora de levantar.
E agora estamos
os dois aqui
no meio do azul
respiração entrecortada
olhos nos olhos
a vinte metros do chão
suspensos e inteiros ainda
e sem qualquer proteção.
Firmamos as mãos.
Fixamos os olhos.
Conectados soltamos
corpo, coração e pensamento.
E voamos.
(Flávia Côrtes - maio de 2014)
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