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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Desisto

Eu te disse
que não sei desistir

Era mentira
Na verdade,
Eu desisto

É só olhar em volta
E para trás
E vai ver
Volta e meia
Eu desisto

O caso é que
Não tenho pudor
Em desistir de desistir
Principalmente se for
De gente

Então
Desiste você
De mim

Outubro de 2011

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Penélope

Para entender o gênesis do desencanto
Há de se saber a origem do desejo
E aí, é só percorrer o caminho inverso

É um desfazer
Que começa
Em um não fazer

Um se distancia do outro
Sem perceber
O fio preso
No silêncio

E eu aqui
Hora tecelã
Hora Penélope

Desfaço as horas
Enquanto teço
Versos

Desfaço os versos
Enquanto
Teço horas

E enquanto teço
E enquanto verso
Desfaço-te

Outubro de 2011
Irmãos

Juntos caíram, juntos se levantaram, juntos riram e choraram.
Brigaram e fizeram as pazes em dois minutos, centenas de vezes, como cabe a irmãos.

Se protegeram de outros, zangados, preferindo levar porrada eles mesmos
porque só irmãos podem se bater.

E se empurraram, rindo, em direção a outros, sabendo o quanto seria bom.

E deitaram-se de mãos dadas no escuro
e contaram os sonhos assim que acordaram
e falaram de seus medos, seus pudores, seus anseios

Falaram dos dias ruins quando aconteceram
falaram das vitórias nos dias em que as viveram

Contaram seus desejos, pouco antes de decidir se iriam mesmo se entregar a estes
e, logo depois, quer em jubilo, quer em arrependimento

Deliciaram-se em saber-se entendidos pelo olhar, sem precisar explicar-se
E também explicaram-se uns aos outros, sem necessidade,
só pelo gosto de ser ouvido por quem te aceita, mesmo que não te entenda.

E, nesta troca, cresceram.

Floresceram, cada um ao seu modo.

E, ainda que diversos,

essencialmente juntos.

E, ainda que distantes,

eternamente

Irmãos.


Setembro de 2011
Decisões

Não decidir
Não faz de mim
Indecisa

É que eu posso simplesmente
Não querer resolver

Porque se for para te resolver
A resolução
É "não"

Então
Subverto o direito
Abdico a decisão
E só
Vivo

Nem sim,
Nem não,
Nem talvez.

Apenas
Agora!

Outubro de 2011
Vivenciando

Até que vai chegar uma hora
Que a vida vai fazer
O que a vida faz
Que é fazer a gente
Viver

Outubro de 2011
Ressaca

Cabeça pesada
Boca ressecada
Corpo doído
Cansaço

Olhos vermelhos
Estômago embrulhado
Noite mal-dormida
Amanhecida
Opaca

E o pior é que
Não tem
Gemada
Ou copo d'água
Que cure decepção
De quem, um dia, amigo

Quem sabe
Poesia

Outubro de 2011


Como Chegar

A minha varanda fica
entre uma palmeira e um antúrio,
logo depois de uma fonte
que faz barulhinho d'água...

Siga por alguns versos,
de acordo com os caminhos
que ditarem os ventos.

É recomendado perder-se um pouco pelo caminho.
Se houver dúvida, feche os olhos,
e siga o poema.



(Flávia Côrtes - Setembro de 2011)
www.poetaflaviacortes.com.br


Textos devidamente registrados na Biblioteca Nacional e protegidos quanto aos seus direitos autorais.
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Poesia Falada: Confira tudo sobre o CD no link Verso em Voz
Maiores informações: contato@poetaflaviacortes.com.br
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Entrelinhas

Se eu digo que
Não te quero
Dói-me menos
Que não venhas

Se eu digo que
Não a deixes
Dói-me menos
A tua escolha

Então,
nem sei o porque
do Poema

Setembro de 2011
Receita de Insônia

Almoço de tarde inteira com amigos
E soneca das 18h às 22h
Bom dia, Madrugada!

Setembro de 2011



Recall

Não importa por
Que culpas
Que vontades
Que caminhos

Ela já me provou
Que me tira
Este homem
Quantas vezes quiser

Eu vou fazer
O que
Lá
Então?

Julho de 2011

sexta-feira, 9 de setembro de 2011


Invenção

E se todos os amores
Invenções?

E se todos os quereres
Encantamentos?

E se todos os saberes
Vontades?

Então?

Não diria
ainda assim
o Poema?

Setembro de 2011

domingo, 28 de agosto de 2011


Verso em reflexo

A previsão
era de chuva para o fim de semana.

Só que o domingo descobriu
que eu andava muito precisada de azul
e nos surpreendeu a todos
com uma manhã clarinha.

Eu me deitei na varanda
abraçada a um livro
enrodilhada em travesseiros
para deixar o domingo
fazer manhã em mim.

Em varandas
pálpebras fechadas
cobrem de um amarelo dourado
o olhar da gente.

No dia em que construíram
o jardim do meu prédio
um engenheiro entendido de gente
colocou uma fonte
fazendo barulhinho d'água

Mães emprestam crianças ao jardim.
E as crianças emprestam risadas ao dia.
Risadas de crianças misturadas a barulhinho d'água
lavam almas

Por trás do dourado da minha pálpebra
abraçada ao meu livro,
enrodilhada em travesseiros,
sussurrada de risos e águas,
eu me amanheço
em poesia

Sempre me surpreende o quanto o domingo
me conhece e me cuida.

E eu
verso
em reflexo.


Flávia Côrtes - Agosto de 2011
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sexta-feira, 12 de agosto de 2011


Irrigação

Acordei seca.
Dez dias sem poesia
viram rotações.

E ressecam.

Você há de me perguntar
porque não bebi
qualquer poema
colhido
nessas dezenas de livros
espalhados pela casa

É que para estiagem assim,
dessas que racham a alma,
poema em folha
é gota.
Já não resolve.

Recomenda-se,
em casos graves como esse,
submersão imediata
em lirismo
em estado puro

Não é essencial que haja
céu azul por fora,
mas por dentro

E, imprescindível, que a pessoa
esteja propensa a folha

Feito isso,
é só abrir as comportas do mundo
sobre si mesmo
e se deixar inundar

Acreditem.
Qualquer um
vai de Saara
a Pantanal
em meia manhã
desse jeito

Aí, é só colher uma flor atrás da orelha,
deixar passar tuiuiú pela retina
e prestar atenção no barulho da água
que corre por dentro

Pronto.
Germinada em Poesia.

Agosto de 2011

segunda-feira, 1 de agosto de 2011


Túnel do Tempo

Num túnel esculpido em rocha crua

em tempos antigos,
a gota minada da pedra me transporta.

Se fecho os olhos, ainda dá para ver...
mãos escravas abrindo pedra
gritos
explosões em pólvora
estalos de chicote no ar
em um tempo distante
mas nem tanto

E a tarde pára na queda
daquela gota
para lembrar a poeta
que nem tudo que é belo
foi indolor

Julho de 2011

domingo, 31 de julho de 2011


Tempo Corrido ou Tempo Escorrido

Angra desacelera o tempo.

É como se o tempo passasse
um pouco mais lento
só para a gente
apreciar
a beleza

E é quando o tempo
passa lento assim
que dá para
descobrir
o que não se vê
em tempo corrido

Em tempo escorrido
se vê o vento fazer textura prateada em espelho d’água
brincando de ofuscar o sol
só para prender o olhar
da gente

Em tempo escorrido
se vê o sol encontrar passagens por trás das nuvens
colorindo bordas amarelo-luz em flocos cor de chumbo
só para transbordar a alma
da gente

Em tempo escorrido
se descobrem verdes
em folhas diferentes

E só em tempo escorrido
a retina admira
com propriedade devida
a arquitetura delicada
da teia

Neste domingo
Angra desacelerou o tempo para mim
por dentro
e por fora

Você pode achar que eu estou
aqui
agora
te dizendo um poema

Estou nada...
Ainda estou
acompanhando o vôo da gaivota
sobre a baía de Angra

Daqui a pouco eu volto
Mas em tempo escorrido, tá?

Julho de 2011

sexta-feira, 29 de julho de 2011


Recomendações de uma Leitora de Manoel de Barros

Estou lendo a “Poesia Completa”, de Manoel de Barros. Comecei tem uns dois meses. Um livro apaixonante. Vim aqui recomendá-lo.

Você há de me perguntar como posso levar esse tempo todo para ler um livro com no máximo 500 páginas e ainda dizer que é apaixonante.

Bem, para ser sincera, eu ainda não cheguei à metade do livro. Acho que li umas 200 páginas até agora. E posso afirmar, com absoluta certeza, que é apaixonante.

Existem bons motivos para eu estar na página 200, acredite.

Na verdade, são duas coisas.

A primeira é que eu descobri que leio Manoel de Barros muito melhor em manhãs de domingo. Sim, porque os domingos, já há muito tempo, fazem manhã em mim. Manhãs de domingo escorrem – o que é perfeito para desaprender coisas. Principalmente se você está experimentando-se lagarto pela primeira vez. Hoje, por exemplo, descobri que há lagartos que dão para pedra e outros que dão para água. Domingo que vem vou tentar experimentar-me lagarto que dê para água. Porque essa coisa de tentar-se lagarto, para alguém habituado a nuvem e borboleta, é, verdadeiramente, muito difícil. Pode ser que eu esteja tentando o tipo errado de lagarto. Imagino, de qualquer forma, que eu dê muito mais para água do que para pedra. Vamos ver.

A segunda é que o verso de Manoel ecoa na gente. Você lê um verso e fica ali, olhando o eco do verso. Não dá para seguir adiante, lendo outro verso, antes de absorver aquele que está ecoando na sua frente. E têm uns versos que dão vontade de ficar manhã inteira olhando, meio como quem solta o olhar na beira do mar esperando maré subir só para descobrir o que vai sobrar de areia.

Enfim, voltando ao assunto inicial: Vim aqui recomendar um livro apaixonante que está germinando em mim.

Chama-se “Poesia Completa”. O autor é um poeta com nome de passarinho.

Flávia Côrtes
Poeta, Leitora de Poesia e Desaprendiz de Coisas
Julho de 2011

quinta-feira, 14 de julho de 2011




Jogo

As regras são
claras,
antigas,
conhecidas.

Toda mulher aprende
ainda menina.

Ligar.
Não ligar.
Deixar.
Não deixar.
Esperar.
Instigar.
Manipular.

Conheço a cartilha.
Sei do protocolo.

Então, porque
a palavra aberta,
o olhar direto,
o sorriso claro,
o poema?

Te conto.
É esse olhar poeta
que me impede o jogo
e que me impele à vida.

Um pouco escolha,
um pouco sina,
descarto regras.

Será que perco?
Será que ganho?

Me diz você.

Eis aqui as cartas.

Eis aqui
a mulher.


Flávia Côrtes - Julho de 2011
Textos devidamente registrados na Biblioteca Nacional e protegidos quanto aos seus direitos autorais.

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terça-feira, 12 de julho de 2011


Era uma vez

E éramos nós dois e o mundo
em um tempo
onde qualquer sonho
era possível

Sem metáforas
mas criativos,

sem encenações
mas poéticos,

desenhávamos
um futuro
de arte
e poesia

Sonhos sonhados
em madrugadas
viravam fatos
em nossos dias

Fizemos o que foi possível
antes da décima segunda badalada
dissolver o encanto
e paralisar
o sonho

Dizem que só o beijo
de um amor verdadeiro
desfaz o feitiço

Aguardemos
cem anos.


Julho de 2011

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Veleiros

E eu
Que conduzo os meus caminhos
Que imprimo os meus ritmos
E escolho os meus rumos


Soltei amarras
Em redemoinho
Pleno
Do teu toque

Foi bom te ver
delicado e firme
tomar o leme
e realinhar o rumo

Então te deixo escolher
por que águas
por que ventos
e a quantos nós

E aprecio a viagem.

Julho de 2011

domingo, 10 de julho de 2011

Êxodo

Migrei
De nós dois

Não sem olhar
Para trás
É verdade

Mas é que me prefiro
Estátua de Sal
Do que ter-te
Eternamente
Em mim

Porque amores
que não se estingüem
viram mitos

Conduzi-me
Portanto

Sem revelações
E sem regras

Nem santa
Nem prometida

Mas senhora de mim

Julho de 2011