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domingo, 2 de março de 2014
Portal
Era um domingo comum.
O tanto quanto domingos
podem ser comuns pelo menos.
Na cama desarrumada, flocos de lençóis
emaranhados e brancos contavam preguiças.
A manhã seguia lenta
e o dia desenhava tardes
entre amigos e risos.
Na espera da tarde,
fotos antigas
de um tempo tão vivo.
Nas fotos, mais que imagens.
Momentos.
Por um instante, o amor desfez o tempo.
Portal.
E era um domingo quase comum.
(Flávia Côrtes - Março de 2014)
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Ele tinhas asas
e eu, às vezes, virava nuvem.
Eu dormia sono solto
quando ele me escrevia.
Eu telefonava
quando ele não estava.
Ele voava alto
e eu ainda era terra.
Eu virava nuvem
e ele já estava chão.
Mas os dois,
de formas diferentes,
saltavam no azul.
Ele de corpo inteiro e asas.
Eu de alma alada e pensamento solto.
Talvez por isso
nos reconhecêssemos.
Talvez por isso
seguíssemos serenos
no tempo
enquanto nossos ponteiros
se alinhavam.
Levávamos a tranqüilidade
dos que já se sabem.
O tempo nunca é só um " quando'
quando já se sabe um "ainda".
E o tempo já era tão nosso.
(Flávia Côrtes - fevereiro de 2014)
sábado, 22 de fevereiro de 2014
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Física Moderna
Os ponteiros subitamente
giram insanos.
Cada hora parece menor
ou duram os minutos menos tempo?
As pessoas,
carbono que são,
sob pressão viram carvão
ou diamante.
Tem gente que opaca.
Tem gente que brilha.
É que gente não é só matéria.
Nem toda mudança
é proporcional à força
quando o que te move
é ação
e não reação.
Nem toda aceleração é fruto da força.
Nem tudo o que repousa estagna.
Mas o movimento
movimenta.
(Flávia Côrtes - fevereiro de 2014)
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Deus quando inventou a melancia
estava de bom humor.
Tem algo mais lúdico de comer
do que melancia?
Vermelha, gelada, doce.
Crocante sem deixar de ser macia.
Os carocinhos existem
para você prestar atenção
e ir devagar.
Estão ali para te lembrar
que mesmo o que é doce e colorido,
com pressa, pode te engasgar.
(Flávia Côrtes - Fevereiro de 2014)
domingo, 2 de fevereiro de 2014
A Dona do Boteco
O nome dela era Eulália. Eulália Almodóvar. E ela era a dona do Boteco.
Eulália veio da Espanha com os pais ainda bebê. E o Brasil sempre foi para ela algo estrangeiro.
O pai, agricultor, cruzou o atlântico atrás de um sonho. Queria ser comerciante. A família estabeleceu-se no bairro do Estácio no Rio de Janeiro. E era lá que ficava o Boteco.
Com 8 anos, Eulália já freqüentava o Boteco. Saía da escola e corria para lá. Ela gostava de olhar as gentes. Ajudava o Pai a arrumas as mesas, a lavar a louça... mas ia mesmo para olhar as pessoas. Eulália gostava de gente.
Aprendeu cedo que o pai gostava de tudo muito limpo. E a limpeza, de alguma forma, era uma maneira de agradar a ele para que permitisse a presença dela no Boteco.
Ela nunca entendeu por que o Pai quis ter o Boteco.
O Pai não gostava de barulho. Incomodava a ele que as pessoas rissem ou falassem alto. Música era algo que não existia no Boteco. O Pai não gostava. As paredes eram muito brancas. Brancas de limpeza e limpas de cores. A única coisa colorida que havia no Boteco eram uns ovos cozidos que Eulália arrumava encantada no balcão. O Pai não gostava de cores.
Aos doze anos, Eulália já ajudava a servir as mesas. O Pai ensinou-a a manter as sobrancelhas franzidas e a boca esticada num risco. Dizia que isso afastava o assédio dos bêbados.
A boca teria ficado esticada para sempre, fosse ela outra menina. Mas Eulália tinha um riso que era largo e solto. Seria impossível manter aquela risada afivelada por tempo demais - ainda que a pedido do Pai.
No dia em que o Pai morreu, a Mãe quis vender o Boteco, mas Eulália não deixou.
Para a mãe, ela disse que não queria se desfazer do sonho do Pai. Convenceu-a de que não fazia sentido terminar a Escola de Formação de Professores em busca de uma profissão, quando havia o negócio da família para cuidar.
Isso foi que ela disse para a mãe. Era mais fácil do que contar que nunca passou pela cabeça dela ser professora. E que sempre quis ser a dona do Boteco.
Foi assim que Eulália Almodóvar largou a escola com 17 anos e assumiu o Boteco. E agora que ela era a dona do Boteco, podia fazer dele o que quisesse.
Ela pendurou xales espanhóis nas paredes do Boteco. Coloridos, viçosos, com franjas... vermelho, amarelo, azul.... Eulália adorava cores. E agora ela era a dona do Boteco. Portanto, haveria cores.
Ela colocou música no Boteco. Eulália adorava música. Estavam no Estácio. E talvez o normal fosse que houvesse samba como em qualquer outro boteco do Estácio. Mas Eulália gostava mesmo era de música flamenca. E agora ela era a dona do Boteco. Portanto, haveria música e dança flamenca.
Ela manteve o mobiliário original. Simples e de madeira escura. Um pouco por tributo ao pai, um pouco por recordação da infância. Quem perguntava a ela o motivo, recebia uma gargalhada em resposta. E Eulália dizia: "Agora eu sou a dona do Boteco. E faço dele o que eu quiser"
As pessoas estranharam um pouco no início.
Um Boteco muito simples e muito limpo no Estácio com música e dança Flamenca e xales coloridos pendurados nas paredes. Mas era isso o que mantinha a casa sempre cheia. Isso e o riso escancarado da dona do Boteco.
O nome dela era Eulália Almodóvar. Ela gostava de cores, de música, de gentes e de riso.
E ela era agora a dona do Boteco.
(Flávia Côrtes - Fevereiro de 2014)
Nota da Autora:
Este é o meu primeiro conto com personagem criado e concebido.
Agradecimento especial a Patricia Carvalho-Oliveira e ao seu curso Lupa - O ator consciente, que abriu em mim um canal que eu não conhecia ainda.
Eulália Almodóvar é minha primeira personagem. Eu nunca criei antes uma personagem na vida. Hoje eu concebi e ainda encarnei no curso de teatro. E escrevo o conto para tirá-la de dentro de mim... ;)
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Não deixa o dia partir
sem uma coisa boa.
Todo dia merece
algo feliz ou gostoso.
Vale algo que tenha feito
ou querido fazer.
Querer fazer
é a primeira fase do fazer.
Tudo o que a gente faz
começa
na vontade,
no impulso
ou no sonho.
Então, não precisa ainda
ter acontecido
para ser bom.
Pode ter sido uma vontade.
Eu, por exemplo, hoje
tive vontade de por do sol.
Acabei não indo porque estava
no colo da minha mãe
no ar condicionado.
O dia estava quente
e o cafuné estava bom
e eu não fui.
Mas vontade de por do sol
também é bom.
Toda noite é mais bonita
quando se despediu do sol.
Ainda que por dentro.
(Flávia Côrtes - Janeiro de 2014)
domingo, 26 de janeiro de 2014
Um dia você descobre
que esteve indo
por tempo demais.
Foi cada dia uma partida.
Em todo momento uma largada.
Estréias sucessivas.
Prólogos incessantes.
Até o dia
em que o começo
foi chegada.
E deu essa vontade
de ficar.
Às vezes, a gente precisa
se perder um pouco
para se encontrar.
(Flávia Côrtes - Janeiro de 2014)
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
Sobre guirlandas, luzes e bolas brancas.
Uma guirlanda verde pendurada à porta contava, no início de cada dezembro, que era esperado um Natal Feliz naquela casa.
Bolas brancas enfeitavam a sala.
Uma para cada ano... setenta e duas, setenta e três...
Em volta da árvore imensa da sala, as crianças decoravam, cuidadosas, os galhos. A mãe entregava os enfeites. Bolas, anjos e laços numa risonha e alegre linha de produção. O pai testava as lâmpadas do pisca-pisca e colocava, ao final, uma estrela no topo da árvore.
Bolas brancas enfeitavam a sala.
Uma para cada ano... oitenta e duas... oitenta e três...
Talvez a árvore nem fosse tão imensa.
Talvez os enfeites nem fossem tantos.
Mas as luzes brilhavam um Natal
por dentro de mim
quando o meu pai
acendia a árvore.
Bolas brancas enfeitavam a sala.
Uma para cada ano... noventa e duas, noventa e três...
A árvore certamente não era tão grande. E haviam mais laços do que bolas, quando eu entregava encantada os enfeites aos meus sobrinhos que decoravam, cuidadosos, os galhos, numa risonha e alegre linha de produção.
Música e risadas em todos os cômodos.
Mesa posta.
Abraços.
Crianças brincando pela casa.
Meu pai desembaraçava a fiação do pisca-pisca e testava as lâmpadas.
Bolas brancas enfeitavam a sala.
Uma para cada ano... números arredondados pela virada do milênio... cento e duas... cento e três...
E as luzes brilhavam um Natal
por dentro de mim
sempre que o meu pai
acendia a árvore.
Até o ano do Não-Natal.
Até o ano do silêncio.
O ano em que não houve luzes.
Nem por fora, nem por dentro.
Outro ano e outro dezembro.
Mais um dezembro.
Em outra porta,
nesse novo dezembro,
uma nova guirlanda contou:
era esperado um Natal Feliz
naquela casa.
O portal abriu-se
como o sorriso da irmã à porta.
Música e risadas em todos os cômodos.
Mesa posta.
Abraços.
Crianças brincando pela casa.
Na varanda, o sofá do último abraço.
Meus olhos fitaram, por um instante, a lembrança viva.
O riso das crianças me trouxe ao presente. Meu primo ajustava o pisca-pisca das luzes colocadas na tela da varanda.
Eu não esperava.
Mas as luzes da varanda piscaram
e acenderam um Natal
por dentro de mim.
A noite
cumpriu a promessa da guirlanda
e foi feliz.
Talvez eu coloque, no próximo ano, bolas brancas na sala.
Uma para cada ano.
(Flávia Côrtes - Dezembro de 2013)
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
Avatares
Nunca estivemos tão próximos
e tão distantes.
Sabemos da vida do outro
em tempo real
todos os dias.
O que comeu ,
se foi ao cinema...
Mas não nos vemos por semestres.
Não importa quantos "k"
você escreva
numa janelinha branca.
Isso nunca terá
o som cristalino
da risada que se ri junto.
Corações desenhados no mural
enternecem, é verdade.
Mas eu gosto mesmo
é do calor do abraço.
Eu vou curtir todos os seus posts
porque realmente gosto de suas histórias.
Mas esse mural não tem nem de perto
o brilho do olho que conta.
A cidade não é tão grande
quando a vontade é maior.
(Flávia Côrtes - dezembro de 2013)
Nunca estivemos tão próximos
e tão distantes.
Sabemos da vida do outro
em tempo real
todos os dias.
O que comeu ,
se foi ao cinema...
Mas não nos vemos por semestres.
Não importa quantos "k"
você escreva
numa janelinha branca.
Isso nunca terá
o som cristalino
da risada que se ri junto.
Corações desenhados no mural
enternecem, é verdade.
Mas eu gosto mesmo
é do calor do abraço.
Eu vou curtir todos os seus posts
porque realmente gosto de suas histórias.
Mas esse mural não tem nem de perto
o brilho do olho que conta.
A cidade não é tão grande
quando a vontade é maior.
(Flávia Côrtes - dezembro de 2013)
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
Dezembros
Ainda nem é o mês
de tudo novo
de novo.
Mas as pessoas
já vestem sorrisos.
Os olhos trazem uma ternura
quase inesperada.
Os dias ganham ares
de vésperas de feriados.
As luzes espalhadas
pela cidade
iluminam olhares.
Guirlandas ornam portas
e as casas se abrem.
Pessoas saem
da frente de suas telas
e se encontram...!
(coisa rara neste tempo)
Vizinhos que mal se olhavam
cumprimentam-se.
E até sorriem.
Os invisíveis nas calçadas
subitamente presentes.
Ainda nem é o mês
de tudo novo
de novo.
Mas pela primeira vez no ano
há, enfim, algo novo.
Até Janeiro.
(Flávia Côrtes - Dezembro de 2013)
sábado, 7 de dezembro de 2013
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
domingo, 24 de novembro de 2013
sábado, 16 de novembro de 2013
Sementes
Sempre tenho a sensação
de que uma estação se anuncia
por dentro da outra.
Já vi fevereiros
desaguarem outonos
qual grávidas prematuras.
Quem nunca viu um abril
tricotando casacos?
Já vi primaveras
sussurrando setembros
em meados de agosto.
Em novembro,
tem uma Primavera
prenha de sol
esperando Verão.
As flores
ganham um brilho.
Um viço de moças apaixonadas.
Os dias ganham
uma vivacidade,
um riso,
uma nitidez.
As tardes passeiam saias
e um vento fresco revoa
folhas e cabelos.
O sol intenso
e o vento fresco
pulsam possibilidades.
Tem um verão plantado
dentro de uma primavera
prenha de luz.
O sol beija as cores
e conta
vem vindo o verão.
E o poema brota
dentro da poeta
inseminada de verso
como semente
que rompe fruto
para florir.
Bem-vindo, Verão.
(Flávia Côrtes - Novembro de 2013)
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Subconsciência
Precisa de um tanto
de coragem
para olhar de fato
para dentro.
Sensação de criança
que observa
copo quase imóvel
em brincadeira do oculto.
Abriria Pandora a caixa
se guardasse
a si mesma?
Suspenderia Psiquê
a chama
ante a própria face?
Espio e espero.
(Flávia Côrtes - Outubro de 2013)
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Posologia
Cansa-me essa gente
que só consegue
enxergar política
e contexto histórico.
Esquecem que as gentes
são feitas de sonhos,
de amores
e quereres.
Toda vida nasce
com vocação para ser bela.
Ao contrário do que se pensa,
o olho que vê beleza
não se fecha perante ao podre.
A mão que aplaude,
se estende mais
do que a que bate,
acredite.
A voz que entoa
dificilmente
cala ao absurdo.
A quem não enxergar isso,
eu recomendo
um poema pela manhã
e uma canção antes de dormir.
Esse mal tem cura.
Flávia Côrtes - Outubro de 2013
Cansa-me essa gente
que só consegue
enxergar política
e contexto histórico.
Esquecem que as gentes
são feitas de sonhos,
de amores
e quereres.
Toda vida nasce
com vocação para ser bela.
Ao contrário do que se pensa,
o olho que vê beleza
não se fecha perante ao podre.
A mão que aplaude,
se estende mais
do que a que bate,
acredite.
A voz que entoa
dificilmente
cala ao absurdo.
A quem não enxergar isso,
eu recomendo
um poema pela manhã
e uma canção antes de dormir.
Esse mal tem cura.
Flávia Côrtes - Outubro de 2013
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