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sábado, 19 de junho de 2021

 Dicotomia da Palavra


Diga lá… diz aí.

Conta, vai.


Ou não.

Quem sabe melhor não?


Quem sabe melhor?

Quem se sabe?


Mas alguém, 

realmente,

se sabe afinal?


E se dizer ou não dizer

é uma questão, 

o que dizer, então, 

desse dicotômico dilema 

do auto-conhecimento?


“No princípio era o Verbo”. 


E, se qualquer palavra tem força,

com que força ecoa a tua

dentro do teu pensamento?


Subtraia o Verbo na aurora da ideia.

E que assim não seja. 


Dá certo, sabe? 

Por um tempo. 


Ou, então, faça da palavra lupa

e se permita desvendar 

o mistério dessa Caixa Preta

naufragada no fundo do cérebro.


Mas saiba que toda palavra-lupa

também é uma palavra-chave.


O que traz mesmo por dentro 

essa tua Caixa, 

Pandora? 


Comporta aberta. 

Descoberta.


Ou, quem sabe, 

avalanche. 


Mas, abrindo ou trancando,

o fato é que existe 

dentro daquela caixa escura 

uma força 

daquilo que quis ser 

e que você não deixou. 


E o resultado virá.

Reação ao invés da Ação. 


Subconsciente.

Um cretino que todo mundo tem

em algum canto do cérebro.


Acha mesmo que ele ia deixar barato,

Pandora, tanta coisa trancada 

dentro dessa Caixa? 


Dizer ou não dizer.

Ser ou não ser.

Perceber ou ignorar.


A Vida é feita de Escolhas. 

Livre arbítrio. 


E ninguém disse que isso seria fácil. 



Flávia Côrtes 

Junho de 2021

sábado, 1 de maio de 2021

 Passos

A primeira dança não anunciou 

a caminhada que iniciava.


Voltas vertiginosas pelo salão,

mãos entrelaçadas, 

olhos nos olhos,

respiração acelerada.


Girava o cavalheiro,

girava a dama.


Entregues à música, 

pensamento algum.


Só a vontade imensa 

de não ir embora. 


Um passo à frente,

um para o lado,

dois para trás,

mais uma volta,

um giro duplo


e a vida suspensa 

em expectativa.


O passo em falso amparado.

Sem precisar apelo,

sem qualquer hesitação. 


E o caminho que era de um

virou trajeto de dois

e, depois, direção de três.


E a dança se fez estrada.


Nem sempre plana,

nem sempre pavimentada,

algumas vezes colina,

muitas outras precipício.


Mas se, às vezes, montanha russa,

tantas outras, roda-gigante. 


Girava o cavalheiro,

girava a dama

e, também, 

girava a criança.


Assim dias viraram semanas

e as semanas se uniram aos meses 

e os meses compartilharam a vida.


E, a cada curva dessa contradança,

permanece imensa 

a vontade de estar. 


Essa é a história de uma dança 

que virou estrada.


E aquela estrada 

floriu alameda. 


Flávia Côrtes Costa

Maio de 2021

Para Everson e Sophia, com amor.





sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

 O olho perolado da noite

me encarava 

sereno e límpido 

através do céu 

nublado.


(Flávia Côrtes - janeiro de 2021)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

 Poema Natalino


Cada Natal 

traz dentro de si

todos os outros Natais

que te trouxeram até aqui.


Enquanto as mãos arrumam,

com carinho e cuidado

frutas, doces e rabanadas

em travessas decoradas,


atravessa a sala, risonha, a lembrança 

e as mesmas mãos, ainda crianças,

tiravam bolinhos escondidas

de uma outra mesa também já arrumada.


E o tempo te traz de volta 

bem a tempo de ver 

outras mãos, também meninas,

que desfazem o arranjo recém-arrumado 

para provar um docinho

nesta mesma mesa que agora é a sua.


O pisca-pisca colorido 

leva um pensamento vaga-lume 

até outra árvore,

em outro tempo, 

mas igualmente colorida

e exatamente luminosa.


E o tempo te transporta de volta,

ao som de alguma  risada

em algum outro assunto

nesta mesma sala que hoje é a sua.


Era um ano conturbado aquele.


Mas há quantos Natais ancestrais 

te enche o peito 

essa paz?


(Flávia Côrtes - Dezembro de 2020)



domingo, 15 de novembro de 2020

Percepção Figura e Fundo

Deste ângulo, 

ternura e afeto.


Do outro, 

o avesso

e o reverso.


Entre um tempo e outro,

exercito antolhos.


Um pouco por amor,

um tanto por conveniência 

e muito por algo que ainda não sei.


Ou, quem sabe,

eu saiba.


É que vida que é… 

é a vida que há.


Enquanto houver 

amor.


Não. Na verdade, 

enquanto houver 

respeito.


O respeito

vira a esquina

pouco antes da gente

virar a página.


(Flávia Côrtes - novembro de 2020)


quarta-feira, 11 de novembro de 2020

 Arqueologia


Poemas antigos 

aram entranhas

em busca da Poesia 

encravada no peito.


Palavras viram lupas
sobre o sentimento cru.

Debruço-me sobre fósseis 

do que já fui

para recompor a história
do que me tornei.


Arqueóloga de mim mesma,

cuidadosamente, 

desenterro escombros.

Vestígios perdidos no tempo
indicam caminhos possíveis.

Embora não indolores.


(Flávia Côrtes - Novembro de 2020)



segunda-feira, 19 de outubro de 2020

 Cíclicos


Tudo tem seu tempo.


E cada um tem uma estrada.

Particular e pessoal.

Intransferível. 


Todo mundo procura 

alguma coisa.


Alguns por fora,

outros por dentro. 


Há quem precise 

preencher-se um pouco.


Há quem necessite

esvaziar-se um tanto. 


Há quem, 

em tempos caóticos,

se organize melhor.


Outros, 

demandam planícies.


E até quem Girassol

pode ofuscar-se à luz,

dependendo 

da própria estação.


Agenda, então, 

o início do seu dia

em aurora própria. 


Aguarda, então, 

o seu germinar 

em primavera particular. 


É que agendas,

calendários,

e estações

são humanidades.


Inícios inexistem.

Tudo é continuidade.


Independente da sua rotação,

há brilho no firmamento.


Todo o resto é Escolha. 


(Flávia Côrtes - outubro de 2020)


domingo, 11 de outubro de 2020

 Sobre Holofotes e Ampulhetas - o poema


Pensamentos podem ser ideias 

já elaboradas na mente. 


Convicções. Pretensões. 

Conversas de você consigo mesmo. 

Lembranças. Sonhos. 

Objetivos. Invenções.


E tem também um tipo de pensamento 

que está ali,

mas que não foi elaborado 

ainda. 


Algo que você sabe e reconhece, 

mas que não quis (ou não pôde) 

encarar por tempo suficiente.


Ora, quem é que, 

por livre escolha,

vai ocupar a mente 

com coisas conflitantes?


Problemas já existem 

em quantidade suficiente todo dia

para que alguém ainda queira buscar,

lá no canto mudo do pensamento, 

uma reflexão incômoda 

para colocar no forno 

e deixar crescer.


O problema é que Problemas

são pacientes. 


Experimente ignorá-los.

Pegam uma cadeira, 

cruzam as pernas, relaxam

e pacientemente te esperam. 


Um dia você, vai ter que olhar para eles.

É uma questão de tempo.


E, um dia, o TEMPO também deixa 

de ser um “tic-tac” que ecoa 

muito discretamente 

enquanto escorrem os anos… 

e vira uma ampulheta sentada 

na poltrona da sala te olhando. 


Nesse dia, caberá apenas a você 

escolher se olha de volta 

ou não.


Então, enquanto o ponteiro do tempo

ainda é seu, experimenta

pinçar um ou outro 

desses “quase-pensamentos” 

para olhar de perto. 


Mas cuidado. 

Se vestirem palavra,

você terá que olhar de verdade 

para dentro deles.


Ou de si mesmo. 



(Flávia Côrtes - outubro de 2020)



 Sobre Holofotes e Ampulhetas - prosa


Escrever para mim é algo que me organiza por dentro. Além disso, me permite colocar um holofote naqueles pensamentos que me rodeiam sem palavras. Estes, aliás, são os perigosos. 


Explico. 


Pensamentos podem ser ideias já elaboradas na mente. Convicções. Pretensões. Conversas de você consigo mesmo. Lembranças. Sonhos. Objetivos. Ideias. Invenções.


Mas tem um tipo de pensamento que está ali e não foi elaborado ainda. Algo que você sabe e reconhece, mas que não quis ou não pôde encarar por tempo suficiente para que vire uma ideia.


Por que não? 

Ora, quem é que, por livre e espontânea vontade, vai querer ocupar a mente com coisas perigosas e conflitantes?


Isso não quer dizer que eu não tenha já pinçado um ou outro desses “quase-pensamentos” para olhar de perto… mas, recentemente, tenho parado de olhar antes que resolvam ganhar palavras. 


Já tive mais disposição para essas coisas. Como atestam mais de 600 poemas, contos e prosas escritos. 


Só que, ultimamente, não estou querendo me ocupar muito de problemas. Eles já existem em quantidade suficiente para que eu ainda vá buscar, lá no canto mudo do pensamento, uma reflexão incômoda para colocar no forno e deixar crescer.


Eu não sei se é porque ultrapassei os 50 anos. Meia vida, meio século. A quem eu quero enganar? Meia vida foram os 40. Os 50 te levam a 2/3. Você já viveu 2/3 do caminho. 


Um dia o TEMPO deixa de ser um “tic-tac” que ecoa muito discretamente enquanto escorrem os anos… e vira uma ampulheta sentada na poltrona da sala te olhando. E cabe apenas a você escolher se olha de volta para ela ou não.


Eu sou boa em ignorar coisas que me incomodam. Ocupo o pensamento e a vida com outras coisas e pronto. Mas qualquer um que já teve um pensamento incômodo e ignorado sabe que isso não elimina o problema. 


Problemas são pacientes. Se você ignorá-los, não vão embora simplesmente. Pegam uma cadeira, cruzam as pernas, relaxam e pacientemente te esperam. Porque um dia você vai ter que olhar para eles. É uma questão de tempo.


Tempo, tempo, tempo... porque isso tem me incomodado tanto?


Não é exatamente o tempo. Ou a falta dele. É essa sensação de finitude. 


“Meu amor, o que você faria se não te restasse outro dia. O que você faria?”... já cantou um poeta.


E, não, eu não vou falar disso agora. 

Vou preparar o jantar.


(Flávia Côrtes - outubro de 2020)