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A vida deu uma guinada
e reordenou
todas as prioridades.
(... e rotas... e planos....)
E só o que eu sei
é que eu te quero
aqui
exatamente como está
agora.
Entrelaçado
comigo
por dentro
e por fora.
(Flávia Côrtes - maio de 2014)
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domingo, 25 de maio de 2014
quinta-feira, 15 de maio de 2014
Quando a noite virou manhã
trouxe junto uma paixão
inesperada
e improvável.
Tinha tudo para dar errado.
E a única coisa necessária
para que desse certo.
Bem mais
que um bem querer.
Uma fome invadindo o peito.
Muito mais
que uma vontade.
Um desatino roubando o sono.
Coração desarvorado
em mais de um sentido.
E eu agora
te levo nos olhos.
E eu agora
te levo por dentro.
É que
a loucura
despiu o improvável
para vestir o sonho.
(Flávia Côrtes - Maio de 2014)
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Certeza
Eu te sabia muito.
Desde a noite
em que me olhou
por dentro.
Um homem
que me conhece o cheiro
e me adivinha os olhos
não seria menos.
Mas
e esse tanto?
e esse sempre?
Como é
que eu te acompanho
uns passos
e você me leva assim
inteira?
Como é
que eu te abro
o corpo
e você se instala assim
nos poros?
E eu
que anoiteci pergunta
amanheço
sem precisar resposta.
(Flávia Côrtes - maio de 2014)
sábado, 26 de abril de 2014
Procura a Areal
A estrada
era estreita e sinuosa.
Um caminho verde
no meio do nada.
Um quilômetro
e a vista navegava
sobre um mar de eucaliptos
ondulados ao vento.
Outro quilômetro
e uma moça caminhava
rumo a algum lugar
que não se via.
A cada duas ou três curvas,
uma casa no alto de um morro,
um pasto,
um rio
e verde,
verde,
verde...
Eu quase achei
que era lenda
a tal cidade.
Uma Atlântida
submersa no verde.
Avalon
esperando neblina.
Shangri-la
oculta nos montes.
Mas a placa
indicando chegada
interrompeu
o poema.
Que pena.
(Flávia Côrtes - Abril de 2014)
A estrada
era estreita e sinuosa.
Um caminho verde
no meio do nada.
Um quilômetro
e a vista navegava
sobre um mar de eucaliptos
ondulados ao vento.
Outro quilômetro
e uma moça caminhava
rumo a algum lugar
que não se via.
A cada duas ou três curvas,
uma casa no alto de um morro,
um pasto,
um rio
e verde,
verde,
verde...
Eu quase achei
que era lenda
a tal cidade.
Uma Atlântida
submersa no verde.
Avalon
esperando neblina.
Shangri-la
oculta nos montes.
Mas a placa
indicando chegada
interrompeu
o poema.
Que pena.
(Flávia Côrtes - Abril de 2014)
sábado, 19 de abril de 2014
quarta-feira, 9 de abril de 2014
História de uma Folha-flor
As flores, ao longe,
pareciam folhas claras
e quase secas.
Contavam um pouco
do outono que chega
e clareia o verde
até fazê-lo rosa.
Olhando bem de perto, porém,
a textura delicada
das pétalas rosa-chá
diziam a graça daquela
que, se ao longe parecia folha,
de perto era tão flor
que dispensava nome
para florir pensamento.
Eu achei
que já sabia tudo
da Flor.
Mas uma volta completa
em volta dela
e ali estava ela:
inteiramente nova,
completamente diferente.
As coisas são assim.
A gente acha que já viu tudo
até olhar de novo
e a cada luz
e a cada ângulo
descobrir algo novo.
Com uma volta completa
e algum vagar
sabe-se muito
das coisas.
E das pessoas.
(Flávia Côrtes - abril de 2014)
As flores, ao longe,
pareciam folhas claras
e quase secas.
Contavam um pouco
do outono que chega
e clareia o verde
até fazê-lo rosa.
Olhando bem de perto, porém,
a textura delicada
das pétalas rosa-chá
diziam a graça daquela
que, se ao longe parecia folha,
de perto era tão flor
que dispensava nome
para florir pensamento.
Eu achei
que já sabia tudo
da Flor.
Mas uma volta completa
em volta dela
e ali estava ela:
inteiramente nova,
completamente diferente.
As coisas são assim.
A gente acha que já viu tudo
até olhar de novo
e a cada luz
e a cada ângulo
descobrir algo novo.
Com uma volta completa
e algum vagar
sabe-se muito
das coisas.
E das pessoas.
(Flávia Côrtes - abril de 2014)
domingo, 6 de abril de 2014
Todo mundo quer ser feliz.
No fim do livro,
um beijo de novela.
Na cena final,
"felizes para sempre",
esta quase sentença.
"Ninguém é feliz todo dia",
dizem aqueles
que esqueceram
a alegria.
Eu perdi
o caminho ou o rumo
atrás da borboleta.
E saltando poças d'água
eu fui feliz.
Atrasei-me
vendo nuvens.
E assistindo passarinho,
eu tive paz.
Não sei se com isso,
um dia,
faltará algo
no verso final.
Mas preocupam-me pouco
aquelas três
douradas e desenhadas letras
do "FIM".
É que eu estou ainda ocupada
e um pouco encantada demais
para redigir epitáfios.
Por hora,
as manhãs me contam versos
num sorriso-sopro todo dia.
Larga a lupa.
Experimenta o lápis.
Não dá para ser
leitor da própria vida.
É seu filme, Protagonista.
Preenche você a frase:
"era uma vez..."
(Flávia Côrtes)
No fim do livro,
um beijo de novela.
Na cena final,
"felizes para sempre",
esta quase sentença.
"Ninguém é feliz todo dia",
dizem aqueles
que esqueceram
a alegria.
Eu perdi
o caminho ou o rumo
atrás da borboleta.
E saltando poças d'água
eu fui feliz.
Atrasei-me
vendo nuvens.
E assistindo passarinho,
eu tive paz.
Não sei se com isso,
um dia,
faltará algo
no verso final.
Mas preocupam-me pouco
aquelas três
douradas e desenhadas letras
do "FIM".
É que eu estou ainda ocupada
e um pouco encantada demais
para redigir epitáfios.
Por hora,
as manhãs me contam versos
num sorriso-sopro todo dia.
Larga a lupa.
Experimenta o lápis.
Não dá para ser
leitor da própria vida.
É seu filme, Protagonista.
Preenche você a frase:
"era uma vez..."
(Flávia Côrtes)
quinta-feira, 20 de março de 2014
O olhar se perde em labirinto.
No mosaico preto e branco,
colombinas jogam damas.
Alice troca chá por café.
Um quadrado
com vocação para triângulo
sempre pode
inventar-se losango.
O mundo muda de ângulo
por perspectiva
ou vertigem.
Se isso ocorre
por vontade de quem olha
ou por vocação da coisa olhada,
quem há de saber?
Flávia Côrtes - Março de 2014
quarta-feira, 19 de março de 2014
quarta-feira, 12 de março de 2014
domingo, 9 de março de 2014
Outono Rosa
Eu vi um Outono Rosa
se desenhando bem ali.
É março
e as árvores despejam
flores sobre o chão
como um tapete púrpura
a aguardar o Outono
que já vem vindo.
Dentro de algumas semanas,
galhos secos se erguerão
altivos contra o céu
aguardando novos brotos
e desafiando
a quem quer que diga
que não há beleza
onde não há
enfeites.
Que venha o Outono, então.
Flávia Côrtes - Março de 2014
terça-feira, 4 de março de 2014
Em festival
de domingos sucessivos
desfilavam os dias.
Um, dois... feijão com arroz.
Bobagens, risos e saudades.
Que domingo
é domingo mesmo
sem amigos?
Três, quatro... feijão no prato.
Música e folia.
No bloco, mamãe e eu.
Que domingo
é domingo mesmo
sem família?
Cinco, seis... prosa e verso.
Manhãs lentas descobrem poemas.
Tardes aceleradas encontram prosas.
Que domingo
é domingo mesmo
sem poesia?
Sete e oito... invenções.
A bailarina samba no pé.
O baterista gosta de jazz.
Toda criança sabe dançar.
Um cata-vento é mais que um poema.
Cantigas de roda giram para sempre.
Que domingo
é domingo mesmo
sem descoberta?
Nove e dez.
E o poema não acaba.
Mais que um doce pelo seu pensamento.
Um beijo e um queijo.
Não me leve a mal, vai.
Hoje é Carnaval.
(Flávia Côrtes - Março de 2014)
domingo, 2 de março de 2014
Portal
Era um domingo comum.
O tanto quanto domingos
podem ser comuns pelo menos.
Na cama desarrumada, flocos de lençóis
emaranhados e brancos contavam preguiças.
A manhã seguia lenta
e o dia desenhava tardes
entre amigos e risos.
Na espera da tarde,
fotos antigas
de um tempo tão vivo.
Nas fotos, mais que imagens.
Momentos.
Por um instante, o amor desfez o tempo.
Portal.
E era um domingo quase comum.
(Flávia Côrtes - Março de 2014)
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Ele tinhas asas
e eu, às vezes, virava nuvem.
Eu dormia sono solto
quando ele me escrevia.
Eu telefonava
quando ele não estava.
Ele voava alto
e eu ainda era terra.
Eu virava nuvem
e ele já estava chão.
Mas os dois,
de formas diferentes,
saltavam no azul.
Ele de corpo inteiro e asas.
Eu de alma alada e pensamento solto.
Talvez por isso
nos reconhecêssemos.
Talvez por isso
seguíssemos serenos
no tempo
enquanto nossos ponteiros
se alinhavam.
Levávamos a tranqüilidade
dos que já se sabem.
O tempo nunca é só um " quando'
quando já se sabe um "ainda".
E o tempo já era tão nosso.
(Flávia Côrtes - fevereiro de 2014)
sábado, 22 de fevereiro de 2014
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Física Moderna
Os ponteiros subitamente
giram insanos.
Cada hora parece menor
ou duram os minutos menos tempo?
As pessoas,
carbono que são,
sob pressão viram carvão
ou diamante.
Tem gente que opaca.
Tem gente que brilha.
É que gente não é só matéria.
Nem toda mudança
é proporcional à força
quando o que te move
é ação
e não reação.
Nem toda aceleração é fruto da força.
Nem tudo o que repousa estagna.
Mas o movimento
movimenta.
(Flávia Côrtes - fevereiro de 2014)
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Deus quando inventou a melancia
estava de bom humor.
Tem algo mais lúdico de comer
do que melancia?
Vermelha, gelada, doce.
Crocante sem deixar de ser macia.
Os carocinhos existem
para você prestar atenção
e ir devagar.
Estão ali para te lembrar
que mesmo o que é doce e colorido,
com pressa, pode te engasgar.
(Flávia Côrtes - Fevereiro de 2014)
domingo, 2 de fevereiro de 2014
A Dona do Boteco
O nome dela era Eulália. Eulália Almodóvar. E ela era a dona do Boteco.
Eulália veio da Espanha com os pais ainda bebê. E o Brasil sempre foi para ela algo estrangeiro.
O pai, agricultor, cruzou o atlântico atrás de um sonho. Queria ser comerciante. A família estabeleceu-se no bairro do Estácio no Rio de Janeiro. E era lá que ficava o Boteco.
Com 8 anos, Eulália já freqüentava o Boteco. Saía da escola e corria para lá. Ela gostava de olhar as gentes. Ajudava o Pai a arrumas as mesas, a lavar a louça... mas ia mesmo para olhar as pessoas. Eulália gostava de gente.
Aprendeu cedo que o pai gostava de tudo muito limpo. E a limpeza, de alguma forma, era uma maneira de agradar a ele para que permitisse a presença dela no Boteco.
Ela nunca entendeu por que o Pai quis ter o Boteco.
O Pai não gostava de barulho. Incomodava a ele que as pessoas rissem ou falassem alto. Música era algo que não existia no Boteco. O Pai não gostava. As paredes eram muito brancas. Brancas de limpeza e limpas de cores. A única coisa colorida que havia no Boteco eram uns ovos cozidos que Eulália arrumava encantada no balcão. O Pai não gostava de cores.
Aos doze anos, Eulália já ajudava a servir as mesas. O Pai ensinou-a a manter as sobrancelhas franzidas e a boca esticada num risco. Dizia que isso afastava o assédio dos bêbados.
A boca teria ficado esticada para sempre, fosse ela outra menina. Mas Eulália tinha um riso que era largo e solto. Seria impossível manter aquela risada afivelada por tempo demais - ainda que a pedido do Pai.
No dia em que o Pai morreu, a Mãe quis vender o Boteco, mas Eulália não deixou.
Para a mãe, ela disse que não queria se desfazer do sonho do Pai. Convenceu-a de que não fazia sentido terminar a Escola de Formação de Professores em busca de uma profissão, quando havia o negócio da família para cuidar.
Isso foi que ela disse para a mãe. Era mais fácil do que contar que nunca passou pela cabeça dela ser professora. E que sempre quis ser a dona do Boteco.
Foi assim que Eulália Almodóvar largou a escola com 17 anos e assumiu o Boteco. E agora que ela era a dona do Boteco, podia fazer dele o que quisesse.
Ela pendurou xales espanhóis nas paredes do Boteco. Coloridos, viçosos, com franjas... vermelho, amarelo, azul.... Eulália adorava cores. E agora ela era a dona do Boteco. Portanto, haveria cores.
Ela colocou música no Boteco. Eulália adorava música. Estavam no Estácio. E talvez o normal fosse que houvesse samba como em qualquer outro boteco do Estácio. Mas Eulália gostava mesmo era de música flamenca. E agora ela era a dona do Boteco. Portanto, haveria música e dança flamenca.
Ela manteve o mobiliário original. Simples e de madeira escura. Um pouco por tributo ao pai, um pouco por recordação da infância. Quem perguntava a ela o motivo, recebia uma gargalhada em resposta. E Eulália dizia: "Agora eu sou a dona do Boteco. E faço dele o que eu quiser"
As pessoas estranharam um pouco no início.
Um Boteco muito simples e muito limpo no Estácio com música e dança Flamenca e xales coloridos pendurados nas paredes. Mas era isso o que mantinha a casa sempre cheia. Isso e o riso escancarado da dona do Boteco.
O nome dela era Eulália Almodóvar. Ela gostava de cores, de música, de gentes e de riso.
E ela era agora a dona do Boteco.
(Flávia Côrtes - Fevereiro de 2014)
Nota da Autora:
Este é o meu primeiro conto com personagem criado e concebido.
Agradecimento especial a Patricia Carvalho-Oliveira e ao seu curso Lupa - O ator consciente, que abriu em mim um canal que eu não conhecia ainda.
Eulália Almodóvar é minha primeira personagem. Eu nunca criei antes uma personagem na vida. Hoje eu concebi e ainda encarnei no curso de teatro. E escrevo o conto para tirá-la de dentro de mim... ;)
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