Mas eu sou poeta. E, hoje, nem acordei tão poeta assim.
Mas, ainda assim, o azul sempre sabe o caminho para dentro de mim.
(Flávia Côrtes - fevereiro de 2014)
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Física Moderna
Os ponteiros subitamente
giram insanos.
Cada hora parece menor
ou duram os minutos menos tempo?
As pessoas,
carbono que são,
sob pressão viram carvão
ou diamante.
Tem gente que opaca.
Tem gente que brilha.
É que gente não é só matéria.
Nem toda mudança
é proporcional à força
quando o que te move
é ação
e não reação.
Nem toda aceleração é fruto da força.
Nem tudo o que repousa estagna.
Mas o movimento
movimenta.
(Flávia Côrtes - fevereiro de 2014)
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Poema de Verão
Deus quando inventou a melancia estava de bom humor.
Tem algo mais lúdico de comer do que melancia?
Vermelha, gelada, doce. Crocante sem deixar de ser macia.
Os carocinhos existem para você prestar atenção e ir devagar.
Estão ali para te lembrar que mesmo o que é doce e colorido, com pressa, pode te engasgar.
(Flávia Côrtes - Fevereiro de 2014)
domingo, 2 de fevereiro de 2014
A Dona do Boteco
O nome dela era Eulália. Eulália Almodóvar. E ela era a dona do Boteco.
Eulália veio da Espanha com os pais ainda bebê. E o Brasil sempre foi para ela algo estrangeiro.
O pai, agricultor, cruzou o atlântico atrás de um sonho. Queria ser comerciante. A família estabeleceu-se no bairro do Estácio no Rio de Janeiro. E era lá que ficava o Boteco.
Com 8 anos, Eulália já freqüentava o Boteco. Saía da escola e corria para lá. Ela gostava de olhar as gentes. Ajudava o Pai a arrumas as mesas, a lavar a louça... mas ia mesmo para olhar as pessoas. Eulália gostava de gente.
Aprendeu cedo que o pai gostava de tudo muito limpo. E a limpeza, de alguma forma, era uma maneira de agradar a ele para que permitisse a presença dela no Boteco.
Ela nunca entendeu por que o Pai quis ter o Boteco.
O Pai não gostava de barulho. Incomodava a ele que as pessoas rissem ou falassem alto. Música era algo que não existia no Boteco. O Pai não gostava. As paredes eram muito brancas. Brancas de limpeza e limpas de cores. A única coisa colorida que havia no Boteco eram uns ovos cozidos que Eulália arrumava encantada no balcão. O Pai não gostava de cores.
Aos doze anos, Eulália já ajudava a servir as mesas. O Pai ensinou-a a manter as sobrancelhas franzidas e a boca esticada num risco. Dizia que isso afastava o assédio dos bêbados.
A boca teria ficado esticada para sempre, fosse ela outra menina. Mas Eulália tinha um riso que era largo e solto. Seria impossível manter aquela risada afivelada por tempo demais - ainda que a pedido do Pai.
No dia em que o Pai morreu, a Mãe quis vender o Boteco, mas Eulália não deixou.
Para a mãe, ela disse que não queria se desfazer do sonho do Pai. Convenceu-a de que não fazia sentido terminar a Escola de Formação de Professores em busca de uma profissão, quando havia o negócio da família para cuidar.
Isso foi que ela disse para a mãe. Era mais fácil do que contar que nunca passou pela cabeça dela ser professora. E que sempre quis ser a dona do Boteco.
Foi assim que Eulália Almodóvar largou a escola com 17 anos e assumiu o Boteco. E agora que ela era a dona do Boteco, podia fazer dele o que quisesse.
Ela pendurou xales espanhóis nas paredes do Boteco. Coloridos, viçosos, com franjas... vermelho, amarelo, azul.... Eulália adorava cores. E agora ela era a dona do Boteco. Portanto, haveria cores.
Ela colocou música no Boteco. Eulália adorava música. Estavam no Estácio. E talvez o normal fosse que houvesse samba como em qualquer outro boteco do Estácio. Mas Eulália gostava mesmo era de música flamenca. E agora ela era a dona do Boteco. Portanto, haveria música e dança flamenca.
Ela manteve o mobiliário original. Simples e de madeira escura. Um pouco por tributo ao pai, um pouco por recordação da infância. Quem perguntava a ela o motivo, recebia uma gargalhada em resposta. E Eulália dizia: "Agora eu sou a dona do Boteco. E faço dele o que eu quiser"
As pessoas estranharam um pouco no início.
Um Boteco muito simples e muito limpo no Estácio com música e dança Flamenca e xales coloridos pendurados nas paredes. Mas era isso o que mantinha a casa sempre cheia. Isso e o riso escancarado da dona do Boteco.
O nome dela era Eulália Almodóvar. Ela gostava de cores, de música, de gentes e de riso.
E ela era agora a dona do Boteco.
(Flávia Côrtes - Fevereiro de 2014)
Nota da Autora:
Este é o meu primeiro conto com personagem criado e concebido.
Agradecimento especial a Patricia Carvalho-Oliveira e ao seu curso Lupa - O ator consciente, que abriu em mim um canal que eu não conhecia ainda.
Eulália Almodóvar é minha primeira personagem. Eu nunca criei antes uma personagem na vida. Hoje eu concebi e ainda encarnei no curso de teatro. E escrevo o conto para tirá-la de dentro de mim... ;)
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Reflexões quase Confusas
Não deixa o dia partir sem uma coisa boa.
Todo dia merece algo feliz ou gostoso.
Vale algo que tenha feito ou querido fazer.
Querer fazer é a primeira fase do fazer.
Tudo o que a gente faz começa na vontade, no impulso ou no sonho.
Então, não precisa ainda ter acontecido para ser bom.
Pode ter sido uma vontade.
Eu, por exemplo, hoje tive vontade de por do sol.
Acabei não indo porque estava no colo da minha mãe no ar condicionado.
O dia estava quente e o cafuné estava bom e eu não fui.
Mas vontade de por do sol também é bom.
Toda noite é mais bonita quando se despediu do sol.
Ainda que por dentro.
(Flávia Côrtes - Janeiro de 2014)
domingo, 26 de janeiro de 2014
Sobre portos, partidas e chegadas.
Um dia você descobre que esteve indo por tempo demais.
Foi cada dia uma partida. Em todo momento uma largada. Estréias sucessivas. Prólogos incessantes.
Até o dia em que o começo foi chegada.
E deu essa vontade de ficar.
Às vezes, a gente precisa se perder um pouco para se encontrar.
(Flávia Côrtes - Janeiro de 2014)
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Mergulho
Águas rasas são bonitas, mas carecem de plenitude.
Só conhece o profundo quem salta.
De mais a mais, só permanece no fundo quem desaprendeu o impulso.
Não vou deixar de viver com intensidade e verdade por medo do efêmero.
Então, eu digo "Sim".
(Flávia Côrtes - Janeiro de 2014)
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
Sobre guirlandas, luzes e bolas brancas.
Uma guirlanda verde pendurada à porta contava, no início de cada dezembro, que era esperado um Natal Feliz naquela casa.
Bolas brancas enfeitavam a sala. Uma para cada ano... setenta e duas, setenta e três...
Em volta da árvore imensa da sala, as crianças decoravam, cuidadosas, os galhos. A mãe entregava os enfeites. Bolas, anjos e laços numa risonha e alegre linha de produção. O pai testava as lâmpadas do pisca-pisca e colocava, ao final, uma estrela no topo da árvore.
Bolas brancas enfeitavam a sala. Uma para cada ano... oitenta e duas... oitenta e três...
Talvez a árvore nem fosse tão imensa. Talvez os enfeites nem fossem tantos.
Mas as luzes brilhavam um Natal por dentro de mim quando o meu pai acendia a árvore.
Bolas brancas enfeitavam a sala. Uma para cada ano... noventa e duas, noventa e três...
A árvore certamente não era tão grande. E haviam mais laços do que bolas, quando eu entregava encantada os enfeites aos meus sobrinhos que decoravam, cuidadosos, os galhos, numa risonha e alegre linha de produção.
Música e risadas em todos os cômodos. Mesa posta. Abraços. Crianças brincando pela casa.
Meu pai desembaraçava a fiação do pisca-pisca e testava as lâmpadas.
Bolas brancas enfeitavam a sala. Uma para cada ano... números arredondados pela virada do milênio... cento e duas... cento e três...
E as luzes brilhavam um Natal por dentro de mim sempre que o meu pai acendia a árvore.
Até o ano do Não-Natal. Até o ano do silêncio.
O ano em que não houve luzes. Nem por fora, nem por dentro.
Outro ano e outro dezembro. Mais um dezembro.
Em outra porta, nesse novo dezembro, uma nova guirlanda contou: era esperado um Natal Feliz naquela casa.
O portal abriu-se como o sorriso da irmã à porta.
Música e risadas em todos os cômodos. Mesa posta. Abraços. Crianças brincando pela casa.
Na varanda, o sofá do último abraço. Meus olhos fitaram, por um instante, a lembrança viva.
O riso das crianças me trouxe ao presente. Meu primo ajustava o pisca-pisca das luzes colocadas na tela da varanda.
Eu não esperava. Mas as luzes da varanda piscaram e acenderam um Natal por dentro de mim.
A noite cumpriu a promessa da guirlanda e foi feliz.
Talvez eu coloque, no próximo ano, bolas brancas na sala. Uma para cada ano.
(Flávia Côrtes - Dezembro de 2013)
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
Avatares
Nunca estivemos tão próximos
e tão distantes.
Sabemos da vida do outro
em tempo real
todos os dias.
O que comeu ,
se foi ao cinema...
Mas não nos vemos por semestres.
Não importa quantos "k" você escreva
numa janelinha branca.
Isso nunca terá
o som cristalino
da risada que se ri junto.
Corações desenhados no mural
enternecem, é verdade.
Mas eu gosto mesmo
é do calor do abraço.
Eu vou curtir todos os seus posts
porque realmente gosto de suas histórias.
Mas esse mural não tem nem de perto
o brilho do olho que conta.
A cidade não é tão grande
quando a vontade é maior.
(Flávia Côrtes - dezembro de 2013)
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
Dezembros Ainda nem é o mês de tudo novo de novo.
Mas as pessoas já vestem sorrisos.
Os olhos trazem uma ternura quase inesperada.
Os dias ganham ares de vésperas de feriados.
As luzes espalhadas pela cidade iluminam olhares.
Guirlandas ornam portas e as casas se abrem.
Pessoas saem da frente de suas telas e se encontram...! (coisa rara neste tempo)
Vizinhos que mal se olhavam cumprimentam-se. E até sorriem.
Os invisíveis nas calçadas subitamente presentes.
Ainda nem é o mês de tudo novo de novo.
Mas pela primeira vez no ano há, enfim, algo novo.
Até Janeiro.
(Flávia Côrtes - Dezembro de 2013)
sábado, 7 de dezembro de 2013
Lombalgias Um dia eu descobri que não me doíam as costas.
Era a alma que doía.
Permitir asas não foi escolha.
Foi só um jeito de não implodir
penas. (Flávia Côrtes - Dezembro de 2013)
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Duas Águas Há a água que corre, desenha o contorno do seio, ilumina a pele. Riacho.
Há aquela que escorre, brota do centro do corpo, desgoverna o pensamento. Redemoinho.
Translúcido desejo.
(Flávia Côrtes - dezembro de 2013)
domingo, 24 de novembro de 2013
Despensamentos
A manhã seria morna, não fosse tão cedo.
Amanhã seria terno, não fosse tão tarde.
Há o que acontece e o que não acontece.
Não acontecer pode ser menos doloroso do que desacontecer.
Ou deveria.
(Flávia Côrtes - Novembro de 2013)
sábado, 16 de novembro de 2013
Sementes
Sempre tenho a sensação
de que uma estação se anuncia
por dentro da outra. Já vi fevereiros
desaguarem outonos qual grávidas prematuras.
Quem nunca viu um abril
tricotando casacos?
Já vi primaveras
sussurrando setembros
em meados de agosto. Em novembro,
tem uma Primavera
prenha de sol
esperando Verão.
As flores
ganham um brilho. Um viço de moças apaixonadas.
Os dias ganham
uma vivacidade,
um riso,
uma nitidez.
As tardes passeiam saias
e um vento fresco revoa
folhas e cabelos.
O sol intenso
e o vento fresco
pulsam possibilidades.
Tem um verão plantado
dentro de uma primavera
prenha de luz.
O sol beija as cores
e conta
vem vindo o verão. E o poema brota
dentro da poeta
inseminada de verso
como semente
que rompe fruto
para florir.
Bem-vindo, Verão. (Flávia Côrtes -
Novembro de 2013)
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Subconsciência
Precisa de um tanto de coragem para olhar de fato para dentro.
Sensação de criança que observa copo quase imóvel em brincadeira do oculto.
Abriria Pandora a caixa se guardasse a si mesma?
Suspenderia Psiquê a chama ante a própria face?
Espio e espero.
(Flávia Côrtes - Outubro de 2013)
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Posologia
Cansa-me essa gente que só consegue enxergar política e contexto histórico.
Esquecem que as gentes são feitas de sonhos, de amores e quereres.
Toda vida nasce com vocação para ser bela.
Ao contrário do que se pensa, o olho que vê beleza não se fecha perante ao podre.
A mão que aplaude, se estende mais do que a que bate, acredite.
A voz que entoa dificilmente cala ao absurdo.
A quem não enxergar isso, eu recomendo um poema pela manhã e uma canção antes de dormir.
Esse mal tem cura.
Flávia Côrtes - Outubro de 2013
sábado, 5 de outubro de 2013
Notícias de uma primavera que chove
Vai acontecer.
Não porque um ou outro queiram.
Vai acontecer porque é assim.
As pessoas precisam ser
aquilo que elas são.
Há outra alternativa à flor,
senão florir?
O que não evolui
atrofia.
Flávia Côrtes - Outubro de 2013
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Nem era (Letra de Flávia Côrtes e música de Daniel Rolim) Nem era, não era e nem era. Não era prá você... O tempo estava disfarçado de bonito e eu nem sabia se ia quando escolhi a saia rodada que nem era para você. Nem era, não era e nem era. Não era prá você... Teu perfume preferido um acaso.
E o baton vermelho o que tinha.
Eu nem sabia se ia e nem era prá você...
Nem era. Não era. E nem era. Não era prá você...
Não te procurei no salão, e não vi teu olho no meu. Meu samba? Não era teu.
Não era. Não era teu. Meu samba? Não era teu.
Não era. Não era teu. Não era...
(Flávia Côrtes - Setembro de 2013)
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Cúmplices
A frase trouxe um sorriso algo terno, algo cúmplice, daqueles que trazem lembrança do que não aconteceu.
Cabe esclarecer que o Betty & Elizabete é um dos meus dois blogs.
A quem busca saber sobre a poeta e os projetos de poesia, eu recomendo a leitura do www.poetaflaviacortes.com.br.
É lá que eu falo do CD, da peça, da Poesia Falada, dos livros, dos saraus... e onde tem áudios gravados, textos separadinhos por tipo para facilitar a leitura.
Ou seja, se veio atrás da poeta, vou te recomendar seguir para o outro blog.
Anota aí: www.poetaflaviacortes.com.br
Você há de me perguntar porque mantenho este blog... ainda mais com uma Elizabete no nome?
Bem... eu tenho um carinho especial por este blog.
Publico aqui tudo o que escrevo desde que comecei a mostrar os textos. Os textos são publicados a medida que escrevo, sem triagens, sem seleções, sem classificações. Só pelo prazer de ver a palavra na tela. É uma versão moderna do caderno que usava para escrever quando eu tinha 10 anos.
Eu gosto desta sensação de escrever sem objetivos maiores, só pelo prazer da escrita. É isso. Ah, o nome é Flávia mesmo. O nome Betty & Elizabete é uma brincadeira com dualidades... as minhas, as suas e as humanas.