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segunda-feira, 2 de setembro de 2013



Sanidades

Manter-se são
é verbo que flexiona
com o sujeito.

Depende de cada um.

E ninguém consegue
manter-se sujeito oculto de si mesmo
por muito tempo.



(Flávia Côrtes - agosto de 2013)
www.poetaflaviacortes.com.br

Textos devidamente registrados na Biblioteca Nacional e protegidos quanto aos seus direitos autorais.

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quinta-feira, 22 de agosto de 2013



Azul Plissado


Em tempos exaustos,
às vezes, preciso
dormir com as janelas abertas
para não perder a hora.

Não é ruim acordar com luz.
É até bonito.

Hoje mesmo
acordei com o azul brincando
de saia plissada
com o branco da persiana.

O problema é que o dia
não te deixa regular a hora.

Vai te acordar as seis da manhã,
ainda que você possa dormir
até as sete e meia.

E, às seis da manhã,
até a beleza cansa.

Daí, a gente escolhe
se reclama
porque o dia acordou cedo
ou se espia a manhã de volta
por trás da saia plissada
da persiana.

A vida inventa beleza em tudo.

Mas para ver
a gente precisa
escolher ver.



(Flávia Côrtes - agosto de 2013)

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segunda-feira, 19 de agosto de 2013


Morena Bela

Sabe essa gente que traz no olho um sorriso
e no sorriso uma luz?

Sabe esse povo que tem no nome uma música
e no sobrenome uma guerra?

É uma gente que diz que não é poeta,
mas que o pensamento voa
ou paralisa
num verso.

É de um ombro que alinha no teu
para qualquer briga
e que te abraça
em qualquer tempo.

Pois é...

... nem todo mundo vê
nem todo mundo sabe
nem todo mundo sente

o tanto de força que precisa ter
para levar um sorriso desses todo dia
um brilho desses todo dia
uma ternura dessas todo dia

no meio dessa luta que é
o dia-a-dia.

Flávia Côrtes - Agosto de 2013
Para minha amiga Morena Grijó.
Porque você é dessas.

terça-feira, 13 de agosto de 2013


Conta-gotas

Mais dia
menos dia
a goteira das horas
alisa a pedra
e escorre a mágoa.

É que o tempo,
conta-gotas do sempre,
é também
o encarregado do nunca.

Nunca mais também acaba.

(Flávia Côrtes - agosto de 2013)

domingo, 11 de agosto de 2013

2451
(Flávia Cortes & Renato Gusmão)


Entre um Sudeste e um Norte
desnorteia a distância
e só a nós compete
aquela noite
nossa lembrança

o que te dou
de um errante passageiro
ou me deste rimas
do teu Rio de Janeiro
nesse riso clima
entre valsa e partido alto
uma voz de deusa
esgarça outro poema seda de asfalto

a luz do pensamento
viaja num átimo
vigília de estrelas íntimas
dentro das noites porvir
sorria um verso
e Bem Além é aqui.


(Texto escrito em parceria poética por Renato Gusmão e Flávia Côrtes)
Para conhecer o verso do Renato, acesse o blog:

http://cordapatria.blogspot.com.br/

sexta-feira, 26 de julho de 2013



Memória Afetiva


Um dia eu descobri
que as borboletas
eram pétalas
que meu pensamento alado
revoou.

Mas e daí...?

Hoje cedo eu também vi
que onde Ipês,
Alamandas.

E nem por isso menos amarelas.
E nem por isso eu menos colibri.

E se nem por isso menos,
talvez por isso tanto.

Chame de percepção
se quiser.

Eu
poesia.

(Flávia Côrtes - Julho de 2013)


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terça-feira, 16 de julho de 2013



O que é o que é?


Eu não faço idéia do que acontece em algumas madrugadas no andar de cima. Quer dizer, eu acho que só acontece em algumas madrugadas. Mas pode ser que aconteça em todas. E eu só perceba quando acordo de noite por sede ou pesadelos.

É um barulho engraçado. O som parece com rodinhas ou rolimãs... e não são poucas! Ou, então, de algo borbulhando alto.

Não é nem que incomode demais. Nunca é o barulho que me acorda.
Mas quem é que consegue dormir depois imaginando
o que
será
aquilo...?

Máquina de lavar roupa ligada na madrugada..?
Bomba de piscina borbulhando no ar vazio...?
Meia dúzia de crianças insones andando de velotrol...?
Fábrica de costura clandestina com máquinas antigas de pedal...?
Fantasmas arrastando correntes pelos cômodos vazios...?

Enfim, moro aqui há seis anos. E há seis anos me intriga o barulho.

Algumas vezes já pensei em ir lá tocar a campainha e descobrir. Mas a curiosidade nunca foi maior do que a preguiça de levantar da cama.

De mais a mais, invariavelmente eu acabo dormindo no meio do jogo de adivinhar o barulho.

Ou, então, ocupo-me com algo mais interessante do que discutir com vizinhos às três da manhã.

Hoje, escrevo.

(Flávia Côrtes - Julho de 2013)



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Concordâncias


Para saber
como é a pessoa
veja como ela age

quando o pronome
deixa de ser
na primeira pessoa.

(Flávia Côrtes - Julho de 2013)




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domingo, 7 de julho de 2013



Amparo


Só parece
que é você
quem cuida

quando
quem é cuidado

é alicerce.

(Flávia Côrtes - Julho de 2013)





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Notícias Descompostas

Bem-te-vi
abrindo a manhã
conta que está sol.

Não tem malmequer
que abale
esse bem querer.

Plantou um
copo-de-leite nos olhos
e a deixou assim
toda terna.

Amor-perfeito apaixonado
por girassol
abandonou o quintal.

Sempre-viva
preferia-se guirlanda
e saltou do vaso de flor.

Para reforma ortográfica,
ninguém pediu plebiscito.

A poeta
não encontrava palavra
para fechar o poema.

Não tem problema
porque o poema
também não encontrava
quando abriu a poeta.

A gente finge que é cinema
e escreve

FIM

(Flávia Côrtes - Julho de 2013)

sexta-feira, 5 de julho de 2013




Mudança de Planos

A viagem seria no fim da tarde
em um dia em que

a reunião atrasou;
pediram um relatório extra;
34.000 emails "duplicaram" na caixa postal ;
o teclado desconfigurou;
a impressora parou de imprimir;
os táxis desapareceram.

Nada acontece por acaso.

Graças a Deus,
que te faz ficar
exatamente
onde você precisa
e quer estar.




Flávia Côrtes - Julho de 2013

(Para meus irmãos e minha mãezinha)

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Coisa de Passarinho

Estava chovendo bem pouquinho.

Parei três minutos
para ver um passarinho
beijando flor
em frente ao meu portão.

Passarinho com asa molhada
também voa...?!

Surpreendente mesmo
é que levou três minutos
para crescer um ipê amarelo 
em frente ao meu portão.

Mágico o dia
em que o teu pensamento amarelo
voa assim.

Coisa de passarinho.



Flávia Côrtes - Julho de 2013



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segunda-feira, 1 de julho de 2013



Combinou com os russos?

As pessoas são o melhor que elas podem ser
no momento em que estão sendo.

E pode ser
que esteja
tudo bem.

Basta bastar.

Flávia Côrtes - Julho de 2013





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domingo, 30 de junho de 2013


Balada do Cão Rouco

É exclusividade do inverno
estas manhãs silentes
onde só se ouve,
muito ao fundo,
o latido um tanto rouco
de um cão.

Não pede nada este cão.
Late como quem canta.

E, ainda que não seja
uma manhã tão fria,
dá esta vontade de ficar.

Acendo a luminária
para emprestar à manhã
um ar de seis da tarde.

Deixam de pulsar as urgências.

Calam-se todas
para ouvir
a balada do cão rouco
que canta baixo
numa manhã
quase fria.

Algumas coisas só acontecem
em manhãs de inverno.

(Flávia Côrtes - Junho de 2013)

quinta-feira, 20 de junho de 2013




Meia Lua

Tem uma lua
quase cheia
no céu.

Está bem,
nem está
tão quase cheia
assim.

É que, hoje, eu estou plena demais
para enxergar metades

Tem uma
meia lua cheia
no Céu.

A outra metade
eu guardei dentro dos meus olhos
quando você
olhou para mim.

(Flávia Côrtes - junho de 2013)

Brumas

O pensamento amanheceu
como amanhecem
manhãs de inverno.

Havia um certo vagar.

Uma sensação
de edredom ao relento.

Uma coisa fria por fora
e quente por dentro.

Um calor sem urgências.
Desses que dão vontade
de ficar.

Assim como
a primeira taça de vinho,
o segundo encontro,
a terceira dança.

No quarto,
ainda era cedo.

Havia tempo ainda.

(Flávia Côrtes - Junho de 2013)




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quarta-feira, 5 de junho de 2013

Boldo





Boldo

Há quem veja loucura
no inverso do próprio conceito
de lucidez.

Olhos fixos no espelho,
estranham
o que não é reflexo.

A mim ainda espanta
essa gente que prefere
janelas fechadas
e que leva no rosto
um amargo.

Que Chá de Boldo
resolveria o problema
dessa gente
que leva no peito
uma indigestão com a vida?

(Flávia Côrtes - Maio de 2013)


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sexta-feira, 31 de maio de 2013



Desfile

O fim de semana chegou
despindo-se
de maio.

Ainda caem as folhas
por algumas semanas,
antes que o inverno sopre
para fora do armário
casacos.

Em passos largos,
chega o ano
ao centro da passarela
e te encara na escolha.Meia estação
ou estação inteira?
Pleno 
ou metade?
Não como avesso do sim
vale mais que um talvez.
O ano desfila.

E você?

Espectador?

(Flávia Côrtes - Maio de 2013)

quarta-feira, 29 de maio de 2013


Sonho de uma noite de outono

No poente de um dia
desenhado em uma noite,
movimentos opostos
de nuvens e aves
prendiam o olhar
na beira do cais.

Nuvens brancas esfiapadas
corriam velozes na direção do vento.

Abaixo delas, negras gaivotas em bando
voavam em sentido oposto.

E se o vento pastoreava as nuvens,
desafiavam as aves a ventania.
Eram como peixes corredeira acima.

Os movimentos contrários
de nuvens e aves
em flocos e asas,
o preto no branco,
confundiam o olhar
numa suave vertigem.

Deitada na madeira quente do cais,
uma poeta sonhava versos.

Nuvens passando horizonte abaixo,
aves passando horizonte acima,
pensamentos em sumidouro:
passavam como tudo passa.

Acordada,
transcrevo os versos sonhados
e percebo.

Nem tudo passa.
Tudo pode passar.

Mas, se verdadeiro e forte,
levamos por dentro
para sempre.

Impressos por trás da retina
assim como um sonho.

Tatuados na alma,
assim como um poema.

Como esse
que eu transcrevo agora.


Flávia Côrtes - Maio de 2013



domingo, 26 de maio de 2013


Preguiça

A manhã gelada de sol
sorriu o domingo
para ela.

Cansada.

O dia entendeu
e foi fazer hora.

Adormeceu de novo
no tempo
de um poema.

(Flávia Côrtes - maio de 2013)