A Noite Provoca
A noite pisca pra mim com a pálpebra dourada da lua. Provoca sorriso a piscadela em ouro velho da noite. Provoca, vai, noite.... Mas, depois, não vai dizer que fui eu que comecei...
(agosto de 2010)
Passeios pela Palavra
E você, vai fazer o que daqui a 5 anos?
No mês passado, eu almocei com duas amigas numa tarde de domingo - sim, porque aos domingos, são autorizados almoços em fins de tarde.
A conversa seguia descompromissada e divertida. Assuntos leves. Bobagens entre risadas, como cabe a uma tarde de domingo.
De alguma forma, o assunto foi parar na forma como eu me vejo daqui a 5 anos.
A pergunta que combinava muito mais com um processo seletivo do que com um almoço entre amigas motivou uma gargalhada seguida por um divertido “Por quê?”
Pronto. Foi o suficiente para que se iniciasse uma seqüência de relatos preocupados com o meu estilo de vida.
E, a mim, só restou abrir mente e coração e escutar. Sentadinha, ali na minha berlinda, ouvi, com carinho e surpresa, preocupações que iam desde a minha alimentação inadequada até os meus projetos de vida.
Explico.
Carinho por ter amigas preocupadas com a minha saúde. De fato, minha completa inaptidão como dona de casa me fez descobrir que vivo perfeitamente bem com sopas congeladas e sanduíches de alface. E confesso... não faço um check up há uns 10 anos.
Surpresa por descobrir que minhas amigas se preocupavam de eu viver a vida sem me preocupar com o dia de depois de amanhã. Na verdade, não acham saudável que eu não demonstre ter um objetivo maior na vida. Por “maior”, na concepção delas, leia-se uma meta de crescimento financeiro e profissional a curto prazo.
Depois que ouvi tudo, guardei o que disseram dentro de mim para digerir em alguns dias e virei a pergunta, querendo saber o que elas estariam fazendo daqui a 5 anos, quando estivessem chegando perto dos 40.
O assunto seguiu com relatos de casamentos, filhos e promoções até que o namorado de uma delas chegou.
Pois bem, passou um mês desde aquele dia. E eu tenho revisto o que ouvi naquela tarde. Tenho pensado na minha vida. Pensado no que eu vivo hoje. Se eu quero mudar algo. O que eu quero estar fazendo daqui a 5 anos.
E eu acho que já sei - só que, antes, preciso dizer algumas coisas sobre o hoje.
Por uma conjunção rara de fatores, estou em um momento muito bom da vida.
Então, deixa eu te perguntar:
Estando o hoje tão absoluta e completamente bom, é tão estranho assim que uma pessoa realmente feliz não ocupe seus dias pensando em como mudá-lo?
Se eu não quero mais nada? Ora, claro que quero. Quem é que não quer mais?
Ser mais magra, ganhar mais, se divertir mais, namorar mais...? Quem não quer?
Só que eu não vejo essas coisas como fatores essenciais para a minha felicidade.
Ser mais magra me faria bem. Mas eu não vivo mal porque não o sou.
Ganhar mais seria bom. Mas não é ruim não ganhar tanto assim.
Se divertir mais é sempre bom. Mas não me divirto pouco.
Namorar mais seria ótimo. Só que para namorar, tem que apaixonar. Enquanto não apaixono, vou seguindo com um “quase-namorado” ou outro de vez em quando, fazer o quê.
Pessoalmente, eu acho que as minhas amigas se preocupam comigo por alguns motivos.
Primeiro porque me amam. E eu as adoro por se preocuparem.
Segundo que não entendem direito a forma como eu vivo essas coisas. Elas estão na fase dos 30 anos. Uma fase de querer. Querer casar. Querer ter filho. Querer uma promoção. Querer comprar um apartamento. E causa estranheza que alguém não tenha esse sentimento latejando dentro de si.
Aceitar que outra pessoa sinta, pense ou deseje algo diferente da gente é uma coisa muito difícil. A maioria das pessoas, quando aceita, na verdade, acata. É muito difícil entender que aquilo que faz o outro feliz, não necessariamente precisaria fazer-nos felizes também. Por amizade, pode haver uma atitude de “te amo e te aceito”. E, apenas isso, já é lindo.
Eu já vivi uma fase do “querer” quando tinha trinta e poucos anos. E foi bem gostosa. Interessante. Desafiadora. Nessa fase, eu queria muita coisa que eu não tinha na minha vida. E fiz tudo o que quis.
Isso quer dizer que eu não queira nada agora que tenho 42?
Não é isso. É que o que eu quero... bem... vamos lá:
Caramba, eu quero muita coisa. Se sair contando tudo aqui eu vou cansar vocês – se é que já não cansei.
Mas é isso. Minhas vontades, hoje, não estão relacionadas a mudar a minha vida. Na verdade, eu estou muito feliz com a minha vida. Não vejo motivo para querer mudá-la. Pelo menos enquanto estiver feliz com ela.
E eu mudaria, se não estivesse mais feliz?
Com toda facilidade. Mudar de casa, de cidade, de emprego, de relacionamento, de opinião... são coisas que acontecem. Já fiz tudo isso algumas vezes na vida. E faria de novo. Ou por necessidade ou por vontade.
Eu já havia dito isso tudo que contei para vocês a estas duas amigas. Mas acho que o seu amor por mim faz com que se incomodem com o não entendimento das minhas prioridades – tão diferentes das delas.
Se elas lerem esse texto dirão. "Ah, mas você não se cuida. Não cuida da sua saúde. Ninguém pode viver bem à base de canja congelada e sanduíche de alface."
É verdade, eu não me cuido. Me alimento mal, não vou ao médico há séculos e recomeço a academia segunda-feira sim, segunda-feira, não.
Mas, sinceramente, credito isso aos mesmos motivos que me fazem não arrumar a cama de manhã e esquecer louça dentro da pia. Falta-me disciplina para fazer coisas que eu não gosto. Simples assim.
Tá, eu sei. É necessário. Está bem, vou recomeçar a academia de novo amanhã. E nem é segunda-feira... E vou tomar mais água.
Ah, também já fui ao cardiologista no inicio deste mês para fazer um check up.
Melhor mesmo não arriscar um infarto antes de conseguir ir aos Lençóis Maranhenses, andar de balão ou ver o mar por dentro.
Seria um desperdício.
Maio de 2010.