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domingo, 21 de novembro de 2010



Espanto

Fazer varanda.
Soltar olho no azul.
Desenhar dia.
Assistir passarinho.

Te parece sem sentido?
A mim, faz todo.

Amigos de ocasião.
Abraços protocolares.
Não ver menino em sinal.
Chorar em novela das oito.

Te parece normal?
A mim, não.

Escolher sorvete pela cor.
Sentir verso me olhando.
Jogar conversa dentro.
Soltar pensamento.

Te parecem metáforas?
Para mim, fato.

Bala perdida.
Homofobia.
Morto de fome.
Menino de rua.
Sem teto.

Te parece normal?
Em mim, dói.
E acha mesmo
que o teu olhar horrorizado,
em frente à tela,
convence?
Que me vale o horror ao fato,
se não gera ato.

Então, não me olha em espanto
só porque danço de olhos fechados.

Meus olhos poetas,
há muito,
me abriram o peito
e me descruzaram os braços.

Experimenta você
desfranzir sobrancelhas.

Só para começar!





(Flávia Côrtes – Novembro de 2010)

www.poetaflaviacortes.com.br

Textos devidamente registrados na Biblioteca Nacional e protegidos quanto aos seus direitos autorais.

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Maiores informações: contato@poetaflaviacortes.com.br
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Um comentário:

André disse...

Excelente!!! tua prosa-poesia amadurece dia a dia, Flávia, teu estilo se consolida. Voilà, esse escandalizar-se diante do fato mas sem gerar ato sempre me escandalizou. E, como sempre, esse final entre alerta e provocação que não pode nos deixar. teus leitores, indiferentes. Belo! Bravo, poetisa, um texto que vale a pena ler e reler até conhecê-lo de cor....ação. Lindo dia prá ti, beijos, meu carinho. André