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domingo, 11 de outubro de 2020

 Sobre Holofotes e Ampulhetas - prosa


Escrever para mim é algo que me organiza por dentro. Além disso, me permite colocar um holofote naqueles pensamentos que me rodeiam sem palavras. Estes, aliás, são os perigosos. 


Explico. 


Pensamentos podem ser ideias já elaboradas na mente. Convicções. Pretensões. Conversas de você consigo mesmo. Lembranças. Sonhos. Objetivos. Ideias. Invenções.


Mas tem um tipo de pensamento que está ali e não foi elaborado ainda. Algo que você sabe e reconhece, mas que não quis ou não pôde encarar por tempo suficiente para que vire uma ideia.


Por que não? 

Ora, quem é que, por livre e espontânea vontade, vai querer ocupar a mente com coisas perigosas e conflitantes?


Isso não quer dizer que eu não tenha já pinçado um ou outro desses “quase-pensamentos” para olhar de perto… mas, recentemente, tenho parado de olhar antes que resolvam ganhar palavras. 


Já tive mais disposição para essas coisas. Como atestam mais de 600 poemas, contos e prosas escritos. 


Só que, ultimamente, não estou querendo me ocupar muito de problemas. Eles já existem em quantidade suficiente para que eu ainda vá buscar, lá no canto mudo do pensamento, uma reflexão incômoda para colocar no forno e deixar crescer.


Eu não sei se é porque ultrapassei os 50 anos. Meia vida, meio século. A quem eu quero enganar? Meia vida foram os 40. Os 50 te levam a 2/3. Você já viveu 2/3 do caminho. 


Um dia o TEMPO deixa de ser um “tic-tac” que ecoa muito discretamente enquanto escorrem os anos… e vira uma ampulheta sentada na poltrona da sala te olhando. E cabe apenas a você escolher se olha de volta para ela ou não.


Eu sou boa em ignorar coisas que me incomodam. Ocupo o pensamento e a vida com outras coisas e pronto. Mas qualquer um que já teve um pensamento incômodo e ignorado sabe que isso não elimina o problema. 


Problemas são pacientes. Se você ignorá-los, não vão embora simplesmente. Pegam uma cadeira, cruzam as pernas, relaxam e pacientemente te esperam. Porque um dia você vai ter que olhar para eles. É uma questão de tempo.


Tempo, tempo, tempo... porque isso tem me incomodado tanto?


Não é exatamente o tempo. Ou a falta dele. É essa sensação de finitude. 


“Meu amor, o que você faria se não te restasse outro dia. O que você faria?”... já cantou um poeta.


E, não, eu não vou falar disso agora. 

Vou preparar o jantar.


(Flávia Côrtes - outubro de 2020)




domingo, 30 de agosto de 2020

 Esporos


A manhã anunciou

um domingo claro e lento

daqueles outrora frequentes.

E agora tão raros.


Poderia ter feito muitas coisas.

Mas pareceu apropriada 

a não-escolha.

Daí, não fez. 


Esporos aguardariam

primaveras

com ou sem calor.


É impressionante 

o que um pouco de azul

pode fazer por uma pessoa

que o permita.


Flávia Côrtes

Agosto de 2020





segunda-feira, 6 de abril de 2020

Bunker

Aquele poderia ter sido 
um mês comum 
em um ano a mais.
Poderia.

Fomos, porém, 
surpreendidos todos. 

Compulsoriamente alistados
em batalha invisível.

Subitamente aprendizes
de uma rotina futurista
que converteu os dias 
em uma quase ficção.

Com sorte, 
sala vira escritório.
Quarto, academia.
Mesa de jantar, sala de aula.
E prosseguimos. 

Compras à porta.
Pacotes ensaboados.
Maçanetas ensaboadas.
Galões de água ensaboados.

Mãos ensaboadas.
Vidas, nem tanto.

Entrincheirados,
equilibramos como podemos
orçamento e ansiedade
em busca da vida normal.

Ou, pelo menos,
de algo que nos mantenha,
prioritariamente, 
vivos.

Flávia Côrtes 
Março de 2020 
(Caso alguém me pergunte daqui há 20 anos como passamos pela Pandemia de 2020)

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Contas d’água

A tarde branca 
refrescava o dia
na cidade quente.

Uma chuva rala
serpenteava o ar

e depositava, delicada,
pequenas e brilhantes 
contas d’àgua
no varal vazio

enchendo os olhos
de quem se permitisse
ver.

Nenhuma chuva é toda cinza
e todo sol traz a sua sombra.

Ajusta você o foco.



Flávia Côrtes 
Fevereiro de 2020

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Portal do Tempo

Dezembro é um mês muito atribulado. Mas, para mim, extremamente terno. Sou filha de Helena e Aderbal. E isso significa Natais e Fins de Ano cheios de magia, música e festa.

Casa cheia, música natalina a semana toda, bolas brancas no Ano Novo, mesa farta, árvore imensa decorada, gente entrando e saindo o dia todo... meus pais amavam isso tudo.

Assim, o ritual de decorar a casa e cuidar dos detalhes natalinos, de alguma forma, me aquece e transborda o coração. Porque isso me conecta com eles.

Noite passada, ao chegar em casa, tinha uma guirlanda na porta.

Foi um instante. Em um piscar de olhos, fui transportada, no exato momento em que meus olhos pousaram sobre a guirlanda. E, de repente, era algum dia de dezembro há 30 anos atrás.

Foi apenas um milésimo de segundo... apenas o tempo de compartilhar por dentro um sorriso com a minha mãe e viver mais uma vez a sensação única e protegida da minha mão na mão do meu pai.

E há quem ache que não há magia no Natal.

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(Obrigada pela surpresa da guirlanda me esperando, Everson, meu amor. Presenteou-me mais do que imagina.. ❤️)

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

The Fifty One Hightway

Tantos caminhos
te endereçaram 
até aqui. 

Avenidas e ruelas, 
becos e alamedas,
curvas fechadas,
barrancos e colinas.

Trajetos integrados
de um rali de você mesmo.

O rumo, já há algum tempo,
autonomia do condutor.

O gosto pela velocidade, 
tantas vezes impulso, 
for fim percebido 
sobrecarga desnecessária.

E redefinido opcional.

A pista livre 
e bem pavimentada
levou anos demais 
para merecer atropelos.

Se e quando desejar,
e sempre que precisar,
desacelere.

Inclusive nas retas.

(Flávia Xavier - Setembro de 2019)








segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Instante

Sua mão pausada nas minhas costas.
Seus olhos pausados nos meus olhos.
Sua vida pausada na minha vida.

Eternos neste minuto
reverbera a noite.

Flávia Côrtes - Setembro de 2019


quinta-feira, 30 de maio de 2019

Matéria Prima

Cada ser humano
é mutante de si mesmo
e casulo de sua própria história.

Assim como
antes de tijolo, houve barro,
antes de você, houve outro você.

Nem toda areia
sonhou-se vidro,
até um dia descobrir-se
janela.

Pode ser que você 
se prefira rocha
impassível 
diante do mundo.

E contemple a vida
do alto de sua inércia
por algum tempo.

Inútil tentativa.

A quem não escolhe direção,
a vida se encarrega da escolha.

Qualquer dia desses,
avalanche.

(Flávia Côrtes - maio de 2019)

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Era uma vez um espaço que ia ser  um armário... 
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Acho, de verdade, que algumas coisas e lugares descobrem sua natureza antes mesmo da gente saber.

Casa em obra há 6 meses, depois de muito “derruba parede e sobe parede” sobrou um “nicho” na entrada do meu quarto que eu havia decretado perfeito para um armário.

Sem saber do armário, o eletricista colocou uma lâmpada. 

Sem saber do armário, a moça da faxina colocou lá uma estante branquinha que estava esquecida no quarto da Sophia e entulhou de coisas.

Semana passada, arrumando a bagunça desse “quase-pós-obra”, desencaixotei meus livros que moravam há 3 anos em caixas organizadoras e achei que ficariam bem “provisoriamente” nessa estante.

Ontem, chego em casa e Sophia me pergunta.

“Mamãe, posso colocar meus livros lá na nossa Biblioteca?”

“Biblioteca, filha?”

“É, mamãe, a nossa Biblioteca nova...! Hoje eu até já peguei lá um livro de poema para ler.... estou querendo colocar um papelzinho na parede da entrada dizendo ..... Sophia pegou no dia tal e devolveu no dia tal... posso?”

E apontou para o “nicho”  do fim do corredor, onde estão morando os meus livros.

Foi assim que descobri que agora temos uma biblioteca... 😮

Quando eu digo que os meus livros têm vida e se espalham por onde querem, as pessoas duvidam.


Em tempo: Sophia colocou o papelzinho para registrar as leituras na parede e já pegou outro livro hoje.

(Flávia Côrtes - maio de 2019)
Saudade e Nostalgia

Nem toda saudade
é triste.

Saudade é
uma ausência,
uma vazio,
uma falta.

Um grito mudo
em noite escura.

Um oco no peito
roendo os dias.

Já a nostalgia
traz dentro de si
um encanto.

Retalhos e ecos
de um tempo
bom.

Reminiscência terna
que te faz
bem.

E se Saudade é
lacuna que arde,

Nostalgia,
em contrário,
preenche.


(Flávia Côrtes - Maio de 2019)
Para Aderbal e Helena que, presentes mesmo na ausência, todo dia me mostram que nem toda saudade é triste.

domingo, 14 de abril de 2019

Simultaneidades

Leu pela terceira vez
o verso.

Não por belo que fosse
(embora fosse belo),
mas para entendimento.

Simples e belo era o verso.
Porém, ausentes os olhos
da pessoa interrompida.

Antes do fim da frase, o toque de um celular.
Antes do início do riso, o alarme de um despertador.

Em meio ao caos cotidiano,
perece o encanto
e sobrevivem urgências.

Simultaneidades te subtraem
do que de fato importa
em desconexo tempo
de pessoas virtuais
supostamente conectadas.

Famílias coexistem ausências,
cada qual isolado em tela própria.

Amigos compartilham fotos,
mas raramente momentos.

Emotions substituem presença
em postagens comemorativas
em datas outrora festivas.

O poema, ao menos,
permite releitura.

A vida não necessariamente
autoriza reprises.

(Flávia Côrtes - abril de 2019)

domingo, 30 de setembro de 2018

O Amor em Tempos de Cólera

Pouco impressiona ou surpreende
a quem conhece a humanidade
tantas atitudes
desassociadas do verbo.

Houve uma época
em que diretrizes políticas
eram temas de debates.

Os tempos mudaram.
Ou mudamos nós.
(... quem haverá de saber?)

O fato é que vivemos
um tempo intolerante
nesta quase previsível
involução Humana.

Intelectuais e pensadores
auto-denominados democráticos
selecionam suas amizades
utilizando por conceito
homogenia filosófica.

Pacifistas escolhem,
deliberadamente,
a ofensa ao outro
em detrimento do argumento.

Diálogos natimortos
iniciados com xingamentos
excluem qualquer evolução,
seja ela de pensamento
ou relação.

Opiniões metralhadas
em rajadas exaltadas de ódio
elevam (se muito) sobrancelhas.

Nesse moderno tempo digital,
em que palavras de ordem
ecoam como dogmas,
excluem-se mais
que pseudo-amizades
por pré-conceito filosófico.

Excluídos estão também,
nestes casos,
o respeito
e a educação.

E assim isolam-se,
em homogêneos guetos de opinião,
ditadores da própria retórica
(com bandeiras as mais diversas).

Pseudo-democratas cheios de ódio
por qualquer caminho ou solução
que difira dos próprios,
ilhados entre iguais.
(... ao que podemos quase agradecer.)

Em meio a tanto ódio e prepotência
surpreende, na verdade,
a descoberta inédita
de tanta gente disposta
a respeitar diferenças.

Regozijemo-nos, portanto,
por aqueles que conseguem
expressar-se com clareza e foco,
ainda que a opinião do outro o irrite.

Alegremo-nos em perceber
serenidade, ternura e lucidez,
mesmo diante de surpresa e aversão
ao pensamento diverso.

Para uma Humanidade melhor,
seres humanos abertos
à coexistência pacífica
com diferenças.

Nem tudo que se vê é espelho.
Estilhaços não vão mudar isso.

Flávia Côrtes - setembro de 2018