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sábado, 19 de abril de 2014



Relicário

Dobrei com cuidado

os versos não escritos
de nós dois,

aquele beijo
em meio ao temporal,

o vestido preto
e o convite para dançar.

E guardei.

(Flávia Côrtes - Abril de 2014)


quarta-feira, 9 de abril de 2014

História de uma Folha-flor

As flores, ao longe,
pareciam folhas claras
e quase secas.

Contavam um pouco
do outono que chega
e clareia o verde
até fazê-lo rosa.

Olhando bem de perto, porém,
a textura delicada
das pétalas rosa-chá
diziam a graça daquela
que, se ao longe parecia folha,
de perto era tão flor
que dispensava nome
para florir pensamento.

Eu achei
que já sabia tudo
da Flor.

Mas uma volta completa
em volta dela
e ali estava ela:
inteiramente nova,
completamente diferente.

As coisas são assim.

A gente acha que já viu tudo
até olhar de novo
e a cada luz
e a cada ângulo
descobrir algo novo.

Com uma volta completa
e algum vagar
sabe-se muito
das coisas.

E das pessoas.

(Flávia Côrtes - abril de 2014)

domingo, 6 de abril de 2014

Todo mundo quer ser feliz.

No fim do livro,
um beijo de novela.

Na cena final,
"felizes para sempre",
esta quase sentença.

"Ninguém é feliz todo dia",
dizem aqueles
que esqueceram
a alegria.

Eu perdi
o caminho ou o rumo
atrás da borboleta.

E saltando poças d'água
eu fui feliz.

Atrasei-me
vendo nuvens.

E assistindo passarinho,
eu tive paz.

Não sei se com isso,
um dia,
faltará algo
no verso final.

Mas preocupam-me pouco
aquelas três
douradas e desenhadas letras
do "FIM".

É que eu estou ainda ocupada
e um pouco encantada demais
para redigir epitáfios.

Por hora,
as manhãs me contam versos
num sorriso-sopro todo dia.

Larga a lupa.
Experimenta o lápis.

Não dá para ser
leitor da própria vida.

É seu filme, Protagonista.

Preenche você a frase:
"era uma vez..."

(Flávia Côrtes)































quinta-feira, 20 de março de 2014



Perspectiva


O olhar se perde em labirinto.

No mosaico preto e branco,
colombinas jogam damas.

Alice troca chá por café.

Um quadrado
com vocação para triângulo
sempre pode
inventar-se losango.

O mundo muda de ângulo
por perspectiva
ou vertigem.

Se isso ocorre
por vontade de quem olha
ou por vocação da coisa olhada,

quem há de saber?


Flávia Côrtes - Março de 2014

quarta-feira, 19 de março de 2014


Eu passo

Às vezes, é melhor
recolher os dados
antes

do que os cacos
depois.

É que não parecia um jogo.

(Flávia Côrtes - Fevereiro de 2014)

quarta-feira, 12 de março de 2014

Cinqüenta Minutos

O que é mudo
reverbera por dentro.

A palavra dita
exorciza.

Pelo menos,
foi assim que me contaram

Pelo menos,
Foi assim que me disseram.

Mas, por hoje,
o gosto
é Boldo.

(Flávia Côrtes - março de 2014)

domingo, 9 de março de 2014


Outono Rosa

Eu vi um Outono Rosa
se desenhando bem ali.

É março
e as árvores despejam
flores sobre o chão

como um tapete púrpura
a aguardar o Outono
que já vem vindo.

Dentro de algumas semanas,
galhos secos se erguerão
altivos contra o céu
aguardando novos brotos
e desafiando
a quem quer que diga

que não há beleza
onde não há
enfeites.

Que venha o Outono, então.


Flávia Côrtes - Março de 2014

terça-feira, 4 de março de 2014


Feriado

Em festival
de domingos sucessivos
desfilavam os dias.

Um, dois... feijão com arroz.
Bobagens, risos e saudades.

Que domingo
é domingo mesmo
sem amigos?

Três, quatro... feijão no prato.
Música e folia.
No bloco, mamãe e eu.

Que domingo
é domingo mesmo
sem família?

Cinco, seis... prosa e verso.
Manhãs lentas descobrem poemas.
Tardes aceleradas encontram prosas.

Que domingo
é domingo mesmo
sem poesia?

Sete e oito... invenções.

A bailarina samba no pé.
O baterista gosta de jazz.
Toda criança sabe dançar.
Um cata-vento é mais que um poema.
Cantigas de roda giram para sempre.

Que domingo
é domingo mesmo
sem descoberta?

Nove e dez.
E o poema não acaba.

Mais que um doce pelo seu pensamento.
Um beijo e um queijo.

Não me leve a mal, vai.
Hoje é Carnaval.

(Flávia Côrtes - Março de 2014)

domingo, 2 de março de 2014


Portal

Era um domingo comum.
O tanto quanto domingos
podem ser comuns pelo menos.

Na cama desarrumada, flocos de lençóis
emaranhados e brancos contavam preguiças.

A manhã seguia lenta
e o dia desenhava tardes
entre amigos e risos.

Na espera da tarde,
fotos antigas
de um tempo tão vivo.

Nas fotos, mais que imagens.
Momentos.

Por um instante, o amor desfez o tempo.
Portal.

E era um domingo quase comum.


(Flávia Côrtes - Março de 2014)





Conta-gotas

Mais dia
menos dia
a goteira das horas
alisa a pedra
e escorre a mágoa.

É que o tempo,
conta-gotas do sempre,
é também
o encarregado do nunca.

Nunca mais também acaba.

(Flávia Côrtes - Março de 2014)

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014


Sobre vôos e nuvens

Ele tinhas asas
e eu, às vezes, virava nuvem.

Eu dormia sono solto
quando ele me escrevia.

Eu telefonava
quando ele não estava.

Ele voava alto
e eu ainda era terra.

Eu virava nuvem
e ele já estava chão.

Mas os dois,
de formas diferentes,
saltavam no azul.

Ele de corpo inteiro e asas.
Eu de alma alada e pensamento solto.

Talvez por isso
nos reconhecêssemos.

Talvez por isso
seguíssemos serenos
no tempo
enquanto nossos ponteiros
se alinhavam.

Levávamos a tranqüilidade
dos que já se sabem.

O tempo nunca é só um " quando'

quando já se sabe um "ainda".

E o tempo já era tão nosso.

(Flávia Côrtes - fevereiro de 2014)

sábado, 22 de fevereiro de 2014



Azul de Renoir


Se eu fosse pintora,
diante de um céu assim...

Mas eu sou poeta.
E, hoje, nem acordei
tão poeta assim.

Mas, ainda assim,
o azul sempre sabe
o caminho para dentro de mim.


(Flávia Côrtes - fevereiro de 2014)



domingo, 9 de fevereiro de 2014


Física Moderna

Os ponteiros subitamente
giram insanos.

Cada hora parece menor
ou duram os minutos menos tempo?

As pessoas,
carbono que são,
sob pressão viram carvão
ou diamante.

Tem gente que opaca.
Tem gente que brilha.

É que gente não é só matéria.

Nem toda mudança
é proporcional à força
quando o que te move
é ação
e não reação.

Nem toda aceleração é fruto da força.
Nem tudo o que repousa estagna.

Mas o movimento
movimenta.

(Flávia Côrtes - fevereiro de 2014)







terça-feira, 4 de fevereiro de 2014


Poema de Verão

Deus quando inventou a melancia
estava de bom humor.

Tem algo mais lúdico de comer
do que melancia?

Vermelha, gelada, doce.
Crocante sem deixar de ser macia.

Os carocinhos existem
para você prestar atenção
e ir devagar.

Estão ali para te lembrar
que mesmo o que é doce e colorido,
com pressa, pode te engasgar.

(Flávia Côrtes - Fevereiro de 2014)

domingo, 2 de fevereiro de 2014



A Dona do Boteco

O nome dela era Eulália. Eulália Almodóvar. E ela era a dona do Boteco.

Eulália veio da Espanha com os pais ainda bebê. E o Brasil sempre foi para ela algo estrangeiro.

O pai, agricultor, cruzou o atlântico atrás de um sonho. Queria ser comerciante. A família estabeleceu-se no bairro do Estácio no Rio de Janeiro. E era lá que ficava o Boteco.

Com 8 anos, Eulália já freqüentava o Boteco. Saía da escola e corria para lá. Ela gostava de olhar as gentes. Ajudava o Pai a arrumas as mesas, a lavar a louça... mas ia mesmo para olhar as pessoas. Eulália gostava de gente.

Aprendeu cedo que o pai gostava de tudo muito limpo. E a limpeza, de alguma forma, era uma maneira de agradar a ele para que permitisse a presença dela no Boteco.

Ela nunca entendeu por que o Pai quis ter o Boteco.

O Pai não gostava de barulho. Incomodava a ele que as pessoas rissem ou falassem alto. Música era algo que não existia no Boteco. O Pai não gostava. As paredes eram muito brancas. Brancas de limpeza e limpas de cores. A única coisa colorida que havia no Boteco eram uns ovos cozidos que Eulália arrumava encantada no balcão. O Pai não gostava de cores.

Aos doze anos, Eulália já ajudava a servir as mesas. O Pai ensinou-a a manter as sobrancelhas franzidas e a boca esticada num risco. Dizia que isso afastava o assédio dos bêbados.

A boca teria ficado esticada para sempre, fosse ela outra menina. Mas Eulália tinha um riso que era largo e solto. Seria impossível manter aquela risada afivelada por tempo demais - ainda que a pedido do Pai.

No dia em que o Pai morreu, a Mãe quis vender o Boteco, mas Eulália não deixou.

Para a mãe, ela disse que não queria se desfazer do sonho do Pai. Convenceu-a de que não fazia sentido terminar a Escola de Formação de Professores em busca de uma profissão, quando havia o negócio da família para cuidar.

Isso foi que ela disse para a mãe. Era mais fácil do que contar que nunca passou pela cabeça dela ser professora. E que sempre quis ser a dona do Boteco.

Foi assim que Eulália Almodóvar largou a escola com 17 anos e assumiu o Boteco. E agora que ela era a dona do Boteco, podia fazer dele o que quisesse.

Ela pendurou xales espanhóis nas paredes do Boteco. Coloridos, viçosos, com franjas... vermelho, amarelo, azul.... Eulália adorava cores. E agora ela era a dona do Boteco. Portanto, haveria cores.

Ela colocou música no Boteco. Eulália adorava música. Estavam no Estácio. E talvez o normal fosse que houvesse samba como em qualquer outro boteco do Estácio. Mas Eulália gostava mesmo era de música flamenca. E agora ela era a dona do Boteco. Portanto, haveria música e dança flamenca.

Ela manteve o mobiliário original. Simples e de madeira escura. Um pouco por tributo ao pai, um pouco por recordação da infância. Quem perguntava a ela o motivo, recebia uma gargalhada em resposta. E Eulália dizia: "Agora eu sou a dona do Boteco. E faço dele o que eu quiser"

As pessoas estranharam um pouco no início.

Um Boteco muito simples e muito limpo no Estácio com música e dança Flamenca e xales coloridos pendurados nas paredes. Mas era isso o que mantinha a casa sempre cheia. Isso e o riso escancarado da dona do Boteco.

O nome dela era Eulália Almodóvar. Ela gostava de cores, de música, de gentes e de riso.

E ela era agora a dona do Boteco.


(Flávia Côrtes - Fevereiro de 2014)

Nota da Autora:

Este é o meu primeiro conto com personagem criado e concebido.

Agradecimento especial a Patricia Carvalho-Oliveira e ao seu curso Lupa - O ator consciente, que abriu em mim um canal que eu não conhecia ainda.

Eulália Almodóvar é minha primeira personagem. Eu nunca criei antes uma personagem na vida. Hoje eu concebi e ainda encarnei no curso de teatro. E escrevo o conto para tirá-la de dentro de mim... ;)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014


Reflexões quase Confusas

Não deixa o dia partir
sem uma coisa boa.

Todo dia merece
algo feliz ou gostoso.

Vale algo que tenha feito
ou querido fazer.

Querer fazer
é a primeira fase do fazer.

Tudo o que a gente faz
começa
na vontade,
no impulso
ou no sonho.

Então, não precisa ainda
ter acontecido
para ser bom.

Pode ter sido uma vontade.

Eu, por exemplo, hoje
tive vontade de por do sol.

Acabei não indo porque estava
no colo da minha mãe
no ar condicionado.

O dia estava quente
e o cafuné estava bom
e eu não fui.

Mas vontade de por do sol
também é bom.

Toda noite é mais bonita
quando se despediu do sol.

Ainda que por dentro.

(Flávia Côrtes - Janeiro de 2014)

domingo, 26 de janeiro de 2014


Sobre portos, partidas e chegadas.

Um dia você descobre
que esteve indo
por tempo demais.

Foi cada dia uma partida.
Em todo momento uma largada.
Estréias sucessivas.
Prólogos incessantes.

Até o dia
em que o começo
foi chegada.

E deu essa vontade
de ficar.

Às vezes, a gente precisa
se perder um pouco
para se encontrar.

(Flávia Côrtes - Janeiro de 2014)

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014



Mergulho

Águas rasas são bonitas,
mas carecem de plenitude.

Só conhece o profundo
quem salta.

De mais a mais,
só permanece no fundo
quem desaprendeu o impulso.

Não vou deixar de viver
com intensidade e verdade
por medo do efêmero.

Então,
eu digo "Sim".

(Flávia Côrtes - Janeiro de 2014)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013



Sobre guirlandas, luzes e bolas brancas.

Uma guirlanda verde pendurada à porta contava, no início de cada dezembro, que era esperado um Natal Feliz naquela casa.

Bolas brancas enfeitavam a sala.
Uma para cada ano... setenta e duas, setenta e três...

Em volta da árvore imensa da sala, as crianças decoravam, cuidadosas, os galhos. A mãe entregava os enfeites. Bolas, anjos e laços numa risonha e alegre linha de produção. O pai testava as lâmpadas do pisca-pisca e colocava, ao final, uma estrela no topo da árvore.

Bolas brancas enfeitavam a sala.
Uma para cada ano... oitenta e duas... oitenta e três...

Talvez a árvore nem fosse tão imensa.
Talvez os enfeites nem fossem tantos.

Mas as luzes brilhavam um Natal
por dentro de mim
quando o meu pai
acendia a árvore.

Bolas brancas enfeitavam a sala.
Uma para cada ano... noventa e duas, noventa e três...

A árvore certamente não era tão grande. E haviam mais laços do que bolas, quando eu entregava encantada os enfeites aos meus sobrinhos que decoravam, cuidadosos, os galhos, numa risonha e alegre linha de produção.

Música e risadas em todos os cômodos.
Mesa posta.
Abraços.
Crianças brincando pela casa.

Meu pai desembaraçava a fiação do pisca-pisca e testava as lâmpadas.

Bolas brancas enfeitavam a sala.
Uma para cada ano... números arredondados pela virada do milênio... cento e duas... cento e três...

E as luzes brilhavam um Natal
por dentro de mim
sempre que o meu pai
acendia a árvore.

Até o ano do Não-Natal.
Até o ano do silêncio.

O ano em que não houve luzes.
Nem por fora, nem por dentro.

Outro ano e outro dezembro.
Mais um dezembro.

Em outra porta,
nesse novo dezembro,
uma nova guirlanda contou:
era esperado um Natal Feliz
naquela casa.

O portal abriu-se
como o sorriso da irmã à porta.

Música e risadas em todos os cômodos.
Mesa posta.
Abraços.
Crianças brincando pela casa.

Na varanda, o sofá do último abraço.
Meus olhos fitaram, por um instante, a lembrança viva.

O riso das crianças me trouxe ao presente. Meu primo ajustava o pisca-pisca das luzes colocadas na tela da varanda.

Eu não esperava.
Mas as luzes da varanda piscaram
e acenderam um Natal
por dentro de mim.

A noite

cumpriu a promessa da guirlanda
e foi feliz.

Talvez eu coloque, no próximo ano, bolas brancas na sala.
Uma para cada ano.


(Flávia Côrtes - Dezembro de 2013)

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013


Avatares

Nunca estivemos tão próximos
e tão distantes.

Sabemos da vida do outro
em tempo real
todos os dias.

O que comeu ,
se foi ao cinema...

Mas não nos vemos por semestres.

Não importa quantos "k"
 você escreva
numa janelinha branca.

Isso nunca terá
o som cristalino
da risada que se ri junto.

Corações desenhados no mural
enternecem, é verdade.

Mas eu gosto mesmo
é do calor do abraço.

Eu vou curtir todos os seus posts
porque realmente gosto de suas histórias.

Mas esse mural não tem nem de perto
o brilho do olho que conta.

A cidade não é tão grande
quando a vontade é maior.

(Flávia Côrtes - dezembro de 2013)