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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013


Dezembros
Ainda nem é o mês
de tudo novo
de novo.

Mas as pessoas
já vestem sorrisos.

Os olhos trazem uma ternura
quase inesperada.

Os dias ganham ares
de vésperas de feriados.

As luzes espalhadas
pela cidade
iluminam olhares.

Guirlandas ornam portas
e as casas se abrem.

Pessoas saem
da frente de suas telas
e se encontram...!
(coisa rara neste tempo)

Vizinhos que mal se olhavam
cumprimentam-se.
E até sorriem.

Os invisíveis nas calçadas
subitamente presentes.

Ainda nem é o mês
de tudo novo
de novo.

Mas pela primeira vez no ano
há, enfim, algo novo.

Até Janeiro.

(Flávia Côrtes - Dezembro de 2013)

sábado, 7 de dezembro de 2013



Lombalgias
Um dia eu descobri
que não me doíam as costas.

Era a alma que doía.

Permitir asas
não foi escolha.

Foi só um jeito
de não implodir

penas.

(Flávia Côrtes - Dezembro de 2013)

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013



Duas Águas
Há a água que corre,
desenha o contorno do seio,
ilumina a pele.
Riacho.


Há aquela que escorre,
brota do centro do corpo,
desgoverna o pensamento.
Redemoinho.

Translúcido desejo.

(Flávia Côrtes - dezembro de 2013)

domingo, 24 de novembro de 2013


Despensamentos

A manhã seria morna,
não fosse tão cedo.

Amanhã seria terno,
não fosse tão tarde.

Há o que acontece
e o que não acontece.

Não acontecer
pode ser menos doloroso
do que desacontecer.

Ou deveria.

(Flávia Côrtes - Novembro de 2013)









sábado, 16 de novembro de 2013



Sementes

Sempre tenho a sensação
de que uma estação se anuncia
por dentro da outra.


Já vi fevereiros
desaguarem outonos

qual grávidas prematuras.

Quem nunca viu um abril
tricotando casacos?


Já vi primaveras
sussurrando setembros
em meados de agosto.


Em novembro,
tem uma Primavera
prenha de sol
esperando Verão.

As flores
ganham um brilho.

Um viço de moças apaixonadas.

Os dias ganham
uma vivacidade,
um riso,
uma nitidez.

As tardes passeiam saias
e um vento fresco revoa
folhas e cabelos.

O sol intenso
e o vento fresco
pulsam possibilidades.

Tem um verão plantado
dentro de uma primavera
prenha de luz.

O sol beija as cores
e conta
vem vindo o verão.


E o poema brota
dentro da poeta
inseminada de verso
como semente
que rompe fruto
para florir.

Bem-vindo, Verão.



(Flávia Côrtes - Novembro de 2013)


segunda-feira, 4 de novembro de 2013


Subconsciência

Precisa de um tanto
de coragem
para olhar de fato
para dentro.

Sensação de criança
que observa
copo quase imóvel
em brincadeira do oculto.

Abriria Pandora a caixa
se guardasse
a si mesma?

Suspenderia Psiquê
a chama
ante a própria face?

Espio e espero.

(Flávia Côrtes - Outubro de 2013)

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Posologia

Cansa-me essa gente 
que só consegue 
enxergar política 
e contexto histórico. 

Esquecem que as gentes 
são feitas de sonhos, 
de amores
e quereres.

Toda vida nasce 
com vocação para ser bela.

Ao contrário do que se pensa, 
o olho que vê beleza 
não se fecha perante ao podre. 

A mão que aplaude, 
se estende mais 
do que a que bate, 
acredite.

A voz que entoa 
dificilmente 
cala ao absurdo.

A quem não enxergar isso, 
eu recomendo 
um poema pela manhã 
e uma canção antes de dormir. 

Esse mal tem cura.

Flávia Côrtes - Outubro de 2013

sábado, 5 de outubro de 2013


Notícias de uma primavera que chove

Vai acontecer.

Não porque um ou outro queiram.
Vai acontecer porque é assim.

As pessoas precisam ser
aquilo que elas são.

Há outra alternativa à flor,
senão florir?

O que não evolui
atrofia.

Flávia Côrtes - Outubro de 2013


terça-feira, 24 de setembro de 2013



Nem era

(Letra de Flávia Côrtes e música de Daniel Rolim) 

Nem era,
não era
e nem era.

Não era prá você...

O tempo estava disfarçado de bonito 
e eu nem sabia se ia 
quando escolhi a saia rodada
que nem era para você.


Nem era,
não era
e nem era.
Não era prá você...

Teu perfume preferido 
um acaso.

E o baton vermelho
o que tinha.

Eu nem sabia
se ia

e nem era prá você...


Nem era.
Não era.
E nem era.
Não era prá você...

Não te procurei no salão,

e não vi teu olho no meu.

Meu samba?
Não era teu.

Não era.
Não era teu.


Meu samba?
Não era teu.

Não era.
Não era teu.

Não era...



(Flávia Côrtes - Setembro de 2013)


sexta-feira, 20 de setembro de 2013


Cúmplices

A frase trouxe um sorriso
algo terno, algo cúmplice,
daqueles que trazem lembrança
do que não aconteceu.

É que não aconteceu,
mas foi quase.

Um quase com gosto de ainda.

(Flávia Côrtes - setembro de 2013)



Textos devidamente registrados na Biblioteca Nacional e protegidos quanto aos seus direitos autorais.
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Maiores informações: contato@poetaflaviacortes.com.br

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segunda-feira, 9 de setembro de 2013



Flamenco


O chuveiro pingava
castanholas d'água

na noite urgente.

Imóveis na penumbra
os que dançaram
dormem.

Flávia Côrtes - Setembro de 2013

segunda-feira, 2 de setembro de 2013



Sentido e Direção
Não se perde o rumo
por abaixar os olhos.

Há tempo
para contemplação.

Atentar infinitos
não desnorteia bússolas
de quem conhece
o eixo.

Até o chão
para ser caminho
precisa de direção.

(Flávia Côrtes - Setembro de 2013).
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Certezas


Por trás de cada nuvem
sempre tem um azul.

E eu nem sempre preciso
apagar o sol
para saber estrelas.

Toda lua é cheia
se te reflete.

A metade inteira
não é menos bela.

Inícios,
às vezes,
me bastam.

(Flávia Côrtes - setembro de 2013)
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Boa Hora

Pétalas decoradas de chuva
pela manhã
contam que ainda é inverno
no Rio de Janeiro.

Uns brotos
nas árvores quase secas
sussurram setembro.

Vermelhos desafiam a sentença
e crescem.

Há os que vêem, em invernos, estiagens.
E suportam.

Há os que tricotam casulos.
E esperam.

E há
os que se enamoram
da gestação.




(Flávia Côrtes - agosto de 2013)

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Extra!


Está na rede social!
Então, deu no Jornal!
(... ou mais que isso...)

Mas o que funciona bem
para fugir do mar sereno
que me mostra
o Jornal Nacional,
vira piada no meu mural.

E a pessoa "gentil"
chama a outra de "grossa"
na rede social.

E a pessoa "modesta"
chama o "metido" de "misantropo"
na rede social.

E a gente faz o que, né?

Bloqueia ou dá risada.
E procura "misantropo"
no dicionário.

Porque, no tempo do meu pai,
Modéstia era arma
de incompetente.

Vamos, portanto,
ao Google
descobrir a Misantropia
que a Nova Era nos mostra.




(Flávia Côrtes - agosto de 2013)

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Sanidades

Manter-se são
é verbo que flexiona
com o sujeito.

Depende de cada um.

E ninguém consegue
manter-se sujeito oculto de si mesmo
por muito tempo.



(Flávia Côrtes - agosto de 2013)
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quinta-feira, 22 de agosto de 2013



Azul Plissado


Em tempos exaustos,
às vezes, preciso
dormir com as janelas abertas
para não perder a hora.

Não é ruim acordar com luz.
É até bonito.

Hoje mesmo
acordei com o azul brincando
de saia plissada
com o branco da persiana.

O problema é que o dia
não te deixa regular a hora.

Vai te acordar as seis da manhã,
ainda que você possa dormir
até as sete e meia.

E, às seis da manhã,
até a beleza cansa.

Daí, a gente escolhe
se reclama
porque o dia acordou cedo
ou se espia a manhã de volta
por trás da saia plissada
da persiana.

A vida inventa beleza em tudo.

Mas para ver
a gente precisa
escolher ver.



(Flávia Côrtes - agosto de 2013)

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segunda-feira, 19 de agosto de 2013


Morena Bela

Sabe essa gente que traz no olho um sorriso
e no sorriso uma luz?

Sabe esse povo que tem no nome uma música
e no sobrenome uma guerra?

É uma gente que diz que não é poeta,
mas que o pensamento voa
ou paralisa
num verso.

É de um ombro que alinha no teu
para qualquer briga
e que te abraça
em qualquer tempo.

Pois é...

... nem todo mundo vê
nem todo mundo sabe
nem todo mundo sente

o tanto de força que precisa ter
para levar um sorriso desses todo dia
um brilho desses todo dia
uma ternura dessas todo dia

no meio dessa luta que é
o dia-a-dia.

Flávia Côrtes - Agosto de 2013
Para minha amiga Morena Grijó.
Porque você é dessas.

terça-feira, 13 de agosto de 2013


Conta-gotas

Mais dia
menos dia
a goteira das horas
alisa a pedra
e escorre a mágoa.

É que o tempo,
conta-gotas do sempre,
é também
o encarregado do nunca.

Nunca mais também acaba.

(Flávia Côrtes - agosto de 2013)

domingo, 11 de agosto de 2013

2451
(Flávia Cortes & Renato Gusmão)


Entre um Sudeste e um Norte
desnorteia a distância
e só a nós compete
aquela noite
nossa lembrança

o que te dou
de um errante passageiro
ou me deste rimas
do teu Rio de Janeiro
nesse riso clima
entre valsa e partido alto
uma voz de deusa
esgarça outro poema seda de asfalto

a luz do pensamento
viaja num átimo
vigília de estrelas íntimas
dentro das noites porvir
sorria um verso
e Bem Além é aqui.


(Texto escrito em parceria poética por Renato Gusmão e Flávia Côrtes)
Para conhecer o verso do Renato, acesse o blog:

http://cordapatria.blogspot.com.br/