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domingo, 21 de fevereiro de 2010


Dueto de Contos: Eu tive duas avós... igualmente lindas e completamente diferentes..

Segundo Texto

A minha Vó Landa era uma avó de conto de fadas. Pequena, macia, muito branquinha e com sorriso morando nos olhos. Na casa dela, os verões ganhavam cores e sabores que só se via por ali... e eu descobria coisas novas todos os dias.

A cozinha tinha uma mesa grande, onde nunca faltaram páginas brancas, lápis de muitas cores e risadas. Bonequinhas de papelão eram desenhadas com espaço para os dedos das crianças virarem pernas de dançarinas. Lacres laminados de latas de Nescau serviam de molde para riscar rostos de moedas em esculturas prateadas. E dedos gordinhos e infantis eram autorizados a tocar em agulha e linha para aprender a bordar borboletas em panos de prato.

Um enorme quintal com ladrilhos vermelhos abrigava plantas de todas as cores e formatos e uma família de beija-flor vinha tomar água todas as tardes. Imensos tanques de azulejos brancos viravam piscinas nas manhãs de dezembro enquanto mangueiras verdes regavam as crianças naqueles dias quentes.

Em dias de chuva, os móveis da sala abriam espaço para as brincadeiras sentadas no piso de madeira escura. E minha avó sentava-se conosco para jogos de tabuleiros intercalados com histórias de sua infância.

A minha Vó Landa cozinhava divinamente. De um jeito que só avós sabem cozinhar. As almôndegas que eu provava na casa da minha avó eram sempre macias por dentro e crocantes por fora. Os bolinhos de chuva escorriam recheio quando a gente mordia. E as empadas tinham uma massa que era a melhor da vida.

Quando eu era bem menina, gostava de sentar na cozinha ampla e ficar ouvindo estórias enquanto minha avó desfazia massa de empada com os dedos. Sim, porque minha avó dizia que massa de empada não pode ser amassada, tem que ser desfeita. E ela ficava ali, por hora, hora e meia, desfazendo farinha, ovos e azeite entre os dedos, enquanto coloria o ar com relatos de fadas, princesas e gnomos.

Ela me deixava desfazer a massa junto com ela... e os dedinhos infantis brincavam com a farinha enquanto os olhos se perdiam encantados nas imagens das estórias que a voz da minha avó desenhava para mim.

Minha Vó Landa me ensinou muitas coisas.

Com ela aprendi a bordar e a não ter pena de desfazer os pontos. Aprendi a recomeçar sempre que preciso. Aprendi a ter paciência para deixar os rostos se desenharem por trás de lacres laminados. Aprendi que beija-flores sempre chegam quando a gente não esperava e se vão antes do que gostaríamos, mas sempre voltam. Aprendi que farinha se suaviza com toques suaves, se endurece com movimentos bruscos e que precisa de um dedo de prosa para ganhar sabor.

Os anos passaram e, em outros verões, eram os meus dedos que desfaziam a massa da empada naquela cozinha. E, enquanto a minha voz desenhava no ar estórias dos meus medos e receios e das minhas vitórias e conquistas, os dedos da minha avó brincavam com a farinha e o seu olhar desfazia o que era triste e dava encanto ao que era feliz.

Eu nunca aprendi a cozinhar como a minha avó. Mas gosto de pensar que sou boa no dedo de prosa.

Fevereiro de 2010
Este é o segundo texto de um Dueto.
Leia também o primeiro, sobre a minha Vó Didina


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010


Não precisa me pedir para perdoar porque não há dor a perder... só prazer. Braços aninhados em abraços, pernas entrelaçadas sem laços, bocas se perdendo, toques se encontrando, pensamento se unindo em cheiros e suspiros. Livre e terno encontro de corpos, mentes e vontades. Vida que segue.

Devaneio pela Palavra
Fevereiro de 2010

Momento Perfeito

Especial isso... ver a noite caindo sobre o mar do Arpoador, tingindo devagar o céu em marinho, enquanto o ar ganha frescor de mar aberto... deitar o corpo em pedra morna e soltar o olho no azul, escutando o mar rugir baixinho e se retrair gestando onda.

Devaneios
Sem palavras... só som e cor
Fevereiro de 2010



terça-feira, 16 de fevereiro de 2010



Briga de Namorados


Estou, desde ontem, irritando o meu verso.

É que eu tenho uma palavra meio inquieta, sabe?
Não pode me ver com a mente desocupada
que vem logo me encher pensamento!

Só que, ontem, eu precisava muito...
muito mesmo...
fazer um tantinho de nada.

Precisava deixar corpo esparramado na cama
umas horas.

Então, confesso:
esparramei logo corpo e pensamento
e me deixei ficar ali
olhando parede
até meio da tarde.

Logo na primeira hora, meu verso começou a provocar.
Contei para ele que não ia adiantar.
Não levantava por nada.
Estava fazendo nada e pronto.

E não houve...
       barulho de criança na piscina,
       ruído de mosquito no ouvido,
       som de lençol roçando no corpo,
       ar gelado e condicionado brincando com arrepio,
       persiana imitando tecla de piano...
que me fizesse desistir disso.

E, só para provocar, ainda dormi sono sem sonho.

Meu verso me contou
que vai tirar férias de mim também um tempo
só para eu ver o que é bom.

E eu?

Dou risada.
Duvido!

(Flávia Côrtes - Fevereiro de 2010)




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domingo, 14 de fevereiro de 2010


Tem algo especial no dia começando. O sol rasga devagar a madrugada... tinge de dourado as paredes dos prédios... colore a beirada do céu em tons quentes e púrpuras. O ruído dos carros silencia para descobrir som de passarinho e o ar ganha um frescor de geladeira aberta de madrugada para pegar água descalça.

Devaneio pela palavra
Fevereiro de 2010

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010


Saber de mim é fácil... nasci com olho que escancara e sorriso que denuncia. Se não fosse suficiente, ainda tem a minha palavra... que sai me esparramando em papel público com toda sem-cerimônia. Quem lê meu verso faz incursão dentro de mim.


Devaneio pela Palavra
Fevereiro de 2010

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010


Memória do Corpo

A boca conhecia o gosto antes do beijo.
O corpo sabia do calor antes do toque.
O riso combinou o olhar antes de vir.

O cheiro do homem misturado no meu cheiro.
O gosto do beijo misturado no meu gosto.
Olho reencontrando olho.
Toque reconhecendo toque.

Rasgamos a época,
fundimos o tempo,
em gosto e gozo,
refazendo a memória do corpo
esquecida no tempo.

E, do mesmo jeito que a gente se encontrou,
a gente se perdeu.

O que faço agora?
Meu corpo lembrou do teu.

(Flávia Côrtes - Fevereiro de 2010)
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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Riscos e Perigos


Eu sei dos riscos e dos perigos.
Dos meus talvez mais que dos seus.
E sei dos nossos.

Sei das vontades,
das intimidades.

Sei das portas entreabertas.
Da sua e da minha.

Sei do gosto.
Do seu,
do meu,
do nosso.

Sei da força.
Algumas vezes maior que a minha.
Sei da doçura.
Tantas vezes igual a minha.

Sei da voz
que traz lembrança de abraço.

Sei da falta
e da presença.

Perigoso jogo o nosso.
Onde sei tanto
e tão pouco.

Janeiro de 2010

domingo, 7 de fevereiro de 2010



Abraço Mergulhado
Tem dia, que você não sabe,
mas só precisa
de um abraço mergulhado.

Aquele que te encosta
peito,
umbigo,
e pensamento.

Aquele que encaixa
queixo,
ombro
e sentimento.

Aquele que te segura
firme,
forte,
e sereno.

Até você relaxar
corpo
e alma.

E se deixar
abraçar.

E abraçar.



Flávia Côrtes - Janeiro de 2010
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Nuggets são Nuggets

Hoje um amigo me contou que aprendeu de tudo na vida, mas que havia algo que ele achava muito importante. Eu achei tão, mas tão, importante que compartilho com vocês:

“Nunca, jamais, em tempo algum, asse Nuggets. Nuggets são nuggets. Precisam ser fritos. Foram feitos para serem fritos. Se quiser assar alguma coisa, compre frango.”

E a risada que seguiu o meu “Ah.. eu até gosto de Nuggets assados...”.. me fez dar conta de que “até” não combina com “gosto”.

Bem...

Eu não sei como a vida te presenteou com amigos

Se risonhos e presentes
Se densos e presentes
Se distantes e presentes
Mas presentes

Eu não sei como a vida te presenteou com amores.

Se rápidos e intensos
Se vagarosos e suaves
Se rápidos e suaves
Se vagarosos e intensos
Se avassaladores
Mas amores

Então
Procure se lembrar
O que acontece

Se você tenta

Assar Nuggets.

Janeiro de 2010
O texto era para ser crônica... mas o verso se intrometeu sem pedir licença.

domingo, 31 de janeiro de 2010


Gosto de estar com as pessoas. Do riso solto, do assunto sem rumo, de jogar conversa fora... ou conversa dentro. Mas também gosto de estar comigo. Eu também me faço muita companhia. E não é porque estou sozinha... que o meu riso é menos solto.. ou o meu assunto tem mais rumo.

Devaneios pela Palavra
Janeiro de 2010

terça-feira, 26 de janeiro de 2010



Escolhas

Tá bom, você precisa.
Decidir, escolher, optar, resolver.

O dia começa, e você precisa.
Atender aos pedidos!

Do filho,
do marido,
da mãe,
do chefe,
da empregada,
do médico,
do professor,
do dentista.

O dia corre e você tem.
Tem que fazer, tem que saber, tem que poder.

A noite chega e você precisa.
Precisa ouvir, discutir. saber.

Porque o certo, o correto, o direito,
é você ser essa pessoa
eficiente, organizada, decidida,
informada, bem vestida, articulada
e antenada!

Por que
seus filhos,
seu marido,
seu trabalho,
seus pais,
seus amigos
esperam.

E eles
 precisam de você.

Mas, hoje, só um pouquinho,
antes que o Hoje acabe,
pare e pense:
Quem precisa de quem?

Precisam de você?
Ou você precisa que precisem de você?

Quem precisa do que?

Seu filho?
Precisa que você saiba
ou que você sinta?

Seu marido?
Precisa que você faça
ou que você esteja?

Sua mãe?
Precisa que você ligue
ou que você escute?

Seu trabalho?
Precisa que você corra
ou que você faça?

E você?
Precisa do quê?
Precisa de quem?

Então, hoje, só um pouquinho,
antes que o Hoje acabe,
escolha ouvir a si mesma.

Decida olhar para o outro.
Escute o que não foi pedido.
A palavra que não foi dita
e grita.

Veja o que não foi mostrado.
O gesto que não foi feito
e pede.

Hoje, só um pouquinho,
antes que o Hoje acabe,
sinta.

Desfaça,
não faça.

Desorganize
ou não organize.
Por dentro ou por fora.

Permita.

O nome do Hoje é presente.
Isso não é por acaso.



(Flávia Côrtes - Janeiro de 2010)
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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010



Condição de Poeta


Sabe, poeta não é ofício
é condição.
Ato involuntário,
compulsivo quase.
Poeta é aquele
que desorganiza por dentro.
Ou, simplesmente, não organiza.
Quer por querer,
quer por não saber.
E, talvez por isso, escreva.
Desorganizado que é por dentro,
precisa se achar do lado de fora.
Precisa mirar-se
no espelho branco do papel.

Esparrama palavra para não se perder de si mesmo.

E, assim, segue.
Esparramando versos atrás de si,
em tentativa de não esquecer
o caminho de volta.


(Flávia Côrtes - Janeiro de 2010)

Texto nascido em e-mail a um amigo, o Diego, que diz que não é poeta.
E escreve lindamente.

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terça-feira, 19 de janeiro de 2010


Carta a Anna

Olá, Anna,
te escrevo aprendiz.

Escrevo à dona do verso,
à Dona do Verbo.
O verbo que pode.
O verso que eclode.

Me diz, Anna,
de onde vem?

Tanta força,
tanto encanto.

De onde vem
tanto?

Me conta, Anna
como vem?

O que mostra,
o que comove,
o que encanta,
o que espelha,
o que traduz,
o que seduz.

Porque a poeta,
diante do teu verso,
se reconhece aprendiz
daquela que se diz louca
e se diz!

Ah, Anna...!
Anna que compartilha,
Anna que mostra,
Anna que conta!

No seu verso,
uma vida,
um dia,
um momento.

Ah, Anna,
tua aprendiz te diz:

Se louca ou lúcida?
Que importa
diante de tanto!

Ah, Anna,
tua aprendiz te conta:

Teu verso
te mostra, te salva?
A ti, mas também ao outro!

E é, assim,
espelho e encanto
que te leio
e releio
e releio.

Porque é, assim, que me diz.
E, se a mim diz,
diz de mim.

Porque é, assim, que me conta.
E se a mim conta,
conta de mim.

Então, Anna,
me ensina!

E quem sabe, assim,
aprendo também
de mim!

Que me prefiro louca,
que me permito lúdica,
que digo,
que conto,
que mostro!

Não por gosto,
não por vaidade!

Mas
por vontade,
por necessidade,
por lucidez!

E aqui, sentada do teu lado,
te ouvindo,
te aprendo
e me aprendo!

E aqui, debruçada no teu verso,
te lendo,
te vejo
e me vejo!

E é, assim, que te escrevo,
Anna.

Te escrevo aprendiz.
Que aprende
e diz!



(Flávia Côrtes - Janeiro de 2010)

Encantada diante da palavra exposta e forte de Dona Anna Maria Dutra de Menezes de Carvalho, em seu livro, “O Auto de Ana, A Louca – Poemas Lúcidos”



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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010


O nome do hoje é presente. Isso não é por acaso.


Devaneios pela Palavra
Janeiro de 2010

A vontade que tem
É a vontade que vem
É a vontade que é sem

Sem tempo
Sem rumo
Sem prumo
Sem fundo

A vontade que tem
É a vontade
Que é

E vontade faz.

Janeiro de 2010

domingo, 17 de janeiro de 2010


Ofício da Palavra

Hoje o meu domingo acordou ocupado. Arrancada bruscamente do sono para saber o que dizer.

Explico. Escolhi por ofício ser a pessoa que sabe o que dizer... o que dizer a quem pede, o que dizer a quem reclama, o que dizer antes do problema, o que dizer durante o problema, o que dizer no dia seguinte, o que dizer a quem pergunta, o que dizer para que não precisem perguntar...

Estranha escolha a minha. Escolher pensar palavra, organizar palavra, premeditar palavra.

Minha palavra escorre
Sem pensamento
Sem parênteses
Sem asteriscos

Meu verso organiza sem métrica
A ele, permito
Deixo que minhas consoantes impliquem com as vogais
Autorizo qualquer coletivo
E me divertem metáforas

Confesso.
Sou absurdamente melhor na palavra escorrida do que na palavra escrita.

Janeiro de 2010
Esse texto nasceu crônica, mas o verso se intrometeu no meio sem pedir licença... e eu deixei.

sábado, 16 de janeiro de 2010


Sumidouro
A gente está sumindo no tempo
Vontade novinha precisa de mais que voz

Precisa de cheiro
De toque
De gosto

Precisa de olho
Precisa da mão subindo pelas costas

Não vive de atenção
Apenas

Janeiro de 2010

Não é que eu não escute a razão
Nem que eu não quisesse
Fala demais a minha razão

Passa o dia me dizendo
O que é bom para mim

Me conta toda hora o que eu sabia
Mostra para mim o que eu podia
Sussurra no meu ouvido o que eu devia

O problema
É a minha vontade

A minha vontade invade

Janeiro de 2010

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010


Só a moldura

Aí você não veio.
E eu não te pedi para vir.

Quem quer
faz

Quem quer
pede

Não fazer,
não pedir:

Espelho da vontade.
Ou da falta dela.

(Flávia Côrtes - Janeiro de 2010)
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